A ARA DOS PAMPAS, romance de ALMA WELT
PREFÁCIO
Para A ARA DOS PAMPAS, Terceiro Volume da Trilogia A HERANÇA, de Alma Welt
(por Guilherme de Faria)
Ser escritor é uma benção, mormente quando se tem o que dizer, por amar e acreditar em tantas coisas nesta vida. É o caso. da Alma Welt. Não se trata de simples otimismo. Longe isso. Alma tem o olhar afiado para as tragédias e os dramas tanto quanto para as comédias da vida.. Ela é uma grande catalisadora de extremos. Por isso seus livros dão aos leitores uma percepção complexa e paradoxal das relações humanas e a da nossa intersecção com a Natureza, esta como cenário e pano de fundo, ou como trilha sonora complementar e harmônica, seja a caatinga nordestina dos cordéis (nos seu romance O Retorno dos Menestréis), seja o Pampa na saga dos Welt, que agora, em inglês, língua universal, está sendo lida no mundo inteiro. Mas por quê "uma benção"? Porque a visão de mundo abrangente, de escritor, é reconfortante na solidão e constitui por si só uma razão para se viver, dando amplo sentido até mesmo às misérias da vida. Sim, a vida faz sentido quando se escreve com amor e mesmo condescendência pela nossa sangrenta trajetória na Terra, nossos recorrentes erros e maldades por ignorância e mesmo pelas indissipáveis trevas, primordiais como a Queda, ou como também nossa Inocência Edênica Perdida.
Sim, afortunada Alma, porque a vida sempre fez sentido para ela, sem necessidade de outra religião senão a Arte, porquanto dádiva divina. Exibir o Homem ao próprio Homem, não como impiedosa atração de Feira dos Horrores, mas como quem desvela um belo nu, às vezes envergonhado, outras com inocente pudor, patético por vezes, glorioso por outras, é como vejo a missão de escritor. Sim, muitos escribas geniais já o fizeram, mas nenhum fechou a porta aos vindouros, e por incrível que pareça, nenhum esgotou o assunto Humanidade embora esta pouco mude e persista o mote: "Nada de novo sob o Sol". Mas, quantos infinitos ângulos de visão nos permite, quantas visitações surpreendentes pela variante de um décimo de milímetro no ângulo, nos permite o Caleidoscópio Humano que é a Literatura, e a Grande Arte em geral...
Ao iniciarmos a leitura deste terceiro volume da trilogia A Herança, podemos perguntar se nossa poetisa, que já não dispõe de vilões para desenvolver sua trama, uma vez que Solange e Geraldo estão mortos, como iria ela sustentar uma narrativa sem eles? Surgirá na vida da Alma um novo vilão que a atormente, e que ponha em perigo a Estância, o vinhedo e o casarão pampiano, o cenário vital da nossa heroína? Então, como sempre somos fisgados pelo dom narrativo da autora, que simplesmente parece desfiar suas memórias reais como quem ainda tem muito a confidenciar aos leitores pois seu depoimento não parece provir de uma fonte de imaginação mas de uma vida mesma, vivida, que embora despida das banalidades corriqueiras, não descarta fraquezas e pecadilhos, que a humanizam diante de nossa tentação de a enxergarmos como uma pequena deusa Psiqué em suas tribulações motivadas por uma ingenuidade de fundo, uma pureza de alma que não exclui pequenas vaidades perigosas como a recorrente exposição de sua esplendorosa e alva nudez resistente ao sol do Pampa ou aos rigores de seu inverno sob o açoite impiedoso do minuano.
Já se vê que abuso dos adjetivos ao abordar o universo e a figura, a um tempo material e anímica, desta Musa e seu universo. Sou suspeito, eu sei, devido a minha flagrante paixão por esta escritora e pela mulher que ela é, que, como se percebe, preenche meu ideal de um “‘eterno feminino” de timbre romântico e Goetheano, numa época de decadência do gosto, como a que estamos vivendo.
E eis que logo após a belíssima cena do espectro de Anita Garibaldi, premonitória de perigos para a sua amiga Alma, logo se anunciarão os novos vilões deste romance final da Trilogia-saga dos Welt, mas principalmente da Alma mesma, fabulosa protagonista do seu próprio universo. Alipio Galdiano, o velho gaúcho ressentido e odiento, seu filho, o infeliz jovem Martim, decaído na bebida pela sua paixão não correspondida pela Alma; também uma estancieira vizinha, inimiga inusitada por despeito e inveja da Alma, finalmente e um advogado que Alma denomina Renart, o Raposo, aludindo a uma outrora célebre fabula medieval francesa popular de autor anônimo, toda protagonizada por animais falantes e de personalidades arquetípicas bem definidas. O raposo que dá titulo à fábula, é evidentemente um astuto, assim como o gato, caviloso e arrogante, se chama Tibalt (lembram-se do primo da Julieta na maravilhosa peça de Shakespeare, a quem o Mercuttio, amigo de Romeu (quando o grupo dos jovens Capuletto se aproxima dos Montecchio na praça), gozador e picaresco anuncia: “Aí vem Tibalt, o senhor Gato”.
Estes são os vilões do último volume da saga da Alma, que sem querer dar um spoiler, tanto sofrimento darão à nossa bela, amada e perseguida Alma, que só quer amar os seus amados, o Mundo e as Artes, desde que lhe deixem em paz. Mas todos sabemos que as únicas três coisas que causam as guerras são a Beleza, a Terra e o Dinheiro, tudo mais são variantes dessas três paixões, se podemos dizer assim. No olho do furacão está sempre a universal alma feminina do Mundo, Anima Mundi, que a nossa bela e vulnerável heroína- narradora, brilhantemente encarna... E nos encanta.
Guilherme de Faria
22/05/2025
A ARA DOS PAMPAS
Primeiro Capítulo
O Espectro de Anita
Estávamos todos reunidos, harmoniosamente, alisadas as arestas do nosso pequeno elenco, superados os conflitos e tribulações pela generosidade dos deuses a quem eu sacrificara diante da minha ARA, a sagrada macieira da minha infância feliz, gravada no tronco com as iniciais de meu nome o de Rôdo e o de Aline. Tais letras continham o nosso triângulo amoroso que eu não ousaria sacrificar diretamente ao nosso Deus todo poderoso, de quem depreendi pela nata da literatura Ocidental, uma moral sexual mais rigorosa que certamente me faltava.
“Como assim, Alma?” (poderiam me perguntar)- “Não te consideras inocente em tua candura e paixões simultâneas que sempre protestaste?” Bem... não sou a rainha da coerência, longe disso, e realmente sou movida a paixões, embora sempre sob a égide do Amor, e portanto... do Bem.
Então, àquela altura, vencidos os obstáculos e os nossos inimigos, eu desfrutava de um merecido “repouso da guerreira’, no seio acolhedor dos meus amados, que também me amavam como nunca apesar de meus recentes erros e fraquezas, que quase puseram tudo a perder. Günther se fora, “meu amor bandido”, e eu podia me concentrar naqueles que na sua inocência necessitavam tanto de mim, que prometia nunca mais decepcioná-los. Queimei, quase numa cerimônia sacrificial às avessas, o rabo de tatu do meu avô, prometendo refrear ou sufocar para sempre minha tendência crescente às praticas de Sacher-Masoch, o pequeno demônio que há tempos me “atentava”, como diz o povo.
Bah! Eu não demoraria a me defrontar com novos percalços. Embora o dinheiro da venda da safra maravilhosa de meu avô, devolvida a nós por Solange, arrependida e perdoada na hora de sua morte, tivesse pago nossas dívidas e salvo nossa estância, eu tivera que despedir o velho Alípio Galdiano, nosso peão gaúcho traidor. Não poderia manter aqui na Santa Gertrudes um homem que tanto me odiava e que, eu soube, conclamara seu filho auto-exilado pela sua paixão frustrada por mim, a retornar à casa paterna. Devo dizer que, ao praticamente expulsá-los, embora com uma grande compensação financeira equivalente a mil das nossas preciosas garrafas, pude presenciar o ódio renitente e a promessa de vingança naqueles velhos olhos. Não há paz neste mundo.
Eu tentava esquecer este dado inquietante e me concentrar na alegre harmonia reconquistada com meus queridos depois do meu quase escabroso desvio. Agora eu era a mãe do pequeno Marco e de Patrícia e Pedrinho, que tanto precisavam de mim. Apesar de dessa responsabilidade eu tentava exercer as minhas artes embora de maneira diletante, para mim mesma, como faço ao escrever estas memórias.
Bah! Meus fantasmas haveriam de voltar, e logo veio a notícia de que o velho Alípio Galdiano queria uma compensação maior devido ao desemprego de seu filho infeliz e apaixonado que caíra na bebida, e estava me acionando na Justiça, insuflado por nada menos que aquele advogado raposo que Solange nos tempos da conspiração de venda e de ódio, contratara para me neutralizar. Vou chamá-lo, adivinhem, doutor Renart*.
Fiquei sabendo também que Alípio e seu filho estavam morando em Rosário do Sul, a cidade mais próxima aqui da estância, a que eu deveria comparecer no Forum. Não vou, entretanto, me ater sobre burocracias e demandas, mas sim sobre a precipitação de acontecimentos que roubaram novamente minha felicidade retornada.
A Justiça, felizmente, diante dos argumentos do doutor Loredano, meu advogado, vencendo Renart, o Raposo, me deu mais uma vez ganho de causa e não me considerou responsável pela infelicidade e alcoolismo do filho do seu Galdiano. E este, mais uma vez, eu soube, jurou vingança por outros meios, que não se sabia quais. Eu perdia o sono algumas noites, o nosso velho casarão, voltou a me parecer assombrado e não tardei a encontrar-me com os espectros (conclamados por meu espírito novamente conturbado, essa é que é a verdade) de Anita e Giuseppe Garibaldi, que tanto se apegaram a esta casa nos tempos farroupilhas, num momento de felicidade e paixão antes de sua derrota e exílio.
Uma noite, inesquecível, eu me levantei quando todos estavam dormindo profundamente e com uma lamparina subi ao nosso sótão atulhado de recordações e que por muitos anos fora o quarto de menino aventureiro, de Rôdo, depois de despejos e de memórias em baús abarrotados. Eu precisava encontrar uma foto do filho de Alípio, que eu supunha existir, daqueles tempos de sua paixão nascente por mim, que, prudentemente, eu não levara em conta.
Estava eu debruçada diante de uma grande e velha arca, examinando fotos antigas e... a encontrei. Numa foto de uma festa de fandango no celeiro de nossa estância, logrei reencontrar aquele olhar febril, apaixonado, que certamente me fixava, a mim, a fotógrafa na ocasião, sem que eu tivesse, então, notado. Um arrepio me percorreu o corpo.
Foi então que, o espectro da bela Anita me apareceu como outrora, a mim, que agraciada, ouvi mais uma vez a sua voz:
- Alma, querida, corres perigo. Uma antiga paixão, descartada, te perseguirá, e deves temer pela tua vida. Eu e Giuseppe não poderemos te valer, ai de nós, impotentes diante das novas paixões dos vivos, agora, de vocês...
Imensamente emocionada, notei que seu espectro se desvanecia e estendi meus braços como para retê-la, mas ela, como que se esvaindo, se distanciava, por sua vez estendendo-me seus braços que eu queria me abraçando, talvez levando-me consigo. E desapareceu.
Então, sozinha naquele sótão, notei que a poeira, como se despertada de si mesma, me envolveu numa nuvem luminosa que se formou pela ação da minha lamparina nos minúsculos filamentos que surgiam e sumiam, infinitamente dançantes na luz... eu a vislumbrei como uma misteriosa e insondável configuração de minha própria alma.
E, tombando nela, desfaleci.
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Capítulo Segundo
A Vingança do Velho
Eu perdera a paz mas estava alerta, esperando algo, talvez o pior daqueles dois novos inimigos. “Se queres a paz, prepara-te para a guerra”, diziam os romanos.
O Doutor Loredano me aconselhou a manter uns peões armados permanentemente na estância envolta do casarão e me acompanhando quando saísse ou fosse cavalgar. O fiel Galdério se pôs todo em brios e andava com uma velha garrucha carregada atravessada na faixa da cintura junto com seu punhal como um “gaudério” de outros tempos. Quando a mim, não carregava armas, que as temo, na verdade porque conheço um pouco de suas vidas próprias, desencadeadoras de desgraças só por existirem.
Passaram-se dias, semanas, e então... deu-se o esperado: Galdiano e o filho foram vistos cavalgando no limite de nossa fronteira mais próxima, a de uma estancieira vizinha, dona Quitéria, que não nos era simpática. Avisados, pusemo-nos em alerta. O que estaria fazendo aquela dupla nas terras daquela vizinha quase hostil, que eu sempre percebera ciumenta e despeitada? Diante da notícia eu quase levei a mão aos coldres que eu não portava, me perdoem... O que eu deveria esperar talvez de ódios e ressentimentos triplamente combinados?
As crianças, com suas aguçadas anteninhas para os climas e humores dos adultos, começavam novamente a inquietarem-se e Patrícia uma manhã se acercou, eu recém desperta, e me disse segurando a minha mão:
- Tia Alma, eu sinto que alguma coisa não vai bem. Tu levantas à noite e sais do quarto, andas pela casa, sondas o escuro do jardim pela janela que dá para a varanda. O Pedrinho, que tu mesma fizeste dele um espião, já te seguiu no escuro sem que percebesses de tanto que algo lá fora te preocupa, e me contou tudo. Tia Alma, o que está acontecendo?
Eu, perturbada, quase envergonhada, respondi meio sussurrando no princípio, como um segredo, e logo me tocando e normalizando a voz:
-Patrícia, minha querida, não te alarmes, nem sequer te preocupes, é que eu agora sou a chefe da casa e é o que os chefes fazem: vigiam à noite, não deixam só para os peões. Tudo vai bem por aqui na nossa estância. Nunca ouviste o ditado: “O preço da paz é a eterna vigilância?
Nos abraçamos com um carinho redobrado, mas, infelizmente, durante o demorado abraço ela sentiu em mim um súbito estremecimento involuntário, vindo da minha alma, e assustou-se. Tive que apaziguá-la com mais abraços e beijos dizendo que eu estava com soluços, que fingi um pouco. E percebi como na verdade eu era frágil, como tantas vezes as circunstâncias me demonstraram, tantas vezes abusada, violentada que eu fora por homens maus, cobiçosos e violentos. E suspirei disfarçadamente, logo sorrindo para aquela alminha celestial nesta terra, que com seus olhos de anjo sondavam os meus em busca de segurança.
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Quando guria, eu naturalmente depositava minha confiança na força dos homens desta casa, meu supremo e poderoso Vati, também Rôdo meu amado e corajoso irmãozinho e o fiel Galdério nosso factótum desta ópera gaúcha, na verdade não bufa, não de Sevilha, mas do lado dramático, se não trágico, deste Pampa, como estão vendo. Eu já contei algures como um dia, menina ainda, pré-adolescente, me afastei muito do casarão e cansada e meio perdida aceitei uma carona na sela oferecida por um peão novo na estância e graças a um enorme anjo-da-guarda que me acompanha, o peão não me desrespeitou nem abusou da minha inocente confiança a não ser talvez por, ao me desmontar e despedir-se ainda meio longe do casarão, me pedir um pequeno cacho do meu cabelo ruivo-dourado, o que assenti e ele colheu com o punhal de prata que ele retirou da faixa de sua cintura, levando a mecha às narinas aspirando seu suposto perfume, gesto que ingenuamente me lisonjeou.
Contei a minha pequena aventura ao Rôdo, e naquela noite, depois eu soube, aquele peão levou uma surra do Galdério que “resgatou” minha mecha, entregue ao meu Vati, porque se a Açoriana, minha Mutti, ficasse sabendo, teria havido um escândalo maior, e o pobre peão foi despedido e expulso da estância por seu “atrevimento”.
Voltando àquele presente, eu esta me esquecendo de contar como estavam reagindo as mulheres adultas, minha amadas, Aline, que estava em São Paulo onde fora apresentar nosso filhinho Marco à avó, sua mãe, dona Maria, a italiana do Bom Retiro, que fez um novo escândalo ao saber de nossa elaborada concepção; e Matilde que voltou a acender velas e mais velas pela casa toda e a desfiar infindáveis terços pela segurança de todos para que a paz verdadeira voltasse a reinar. Alicia, esta era uma sombra discreta, mas cuidava diligente e carinhosamente das crianças que se sentiam um tanto inseguras com o meu estranho comportamento.
Eu consultava o dr. Loredano, meu dedicado advogado, sobre a situação de perigo que ele próprio confirmava eu estar vivendo, mas comecei a perceber como ele, no fundo, se divertia sutilmente com sua tese de perseguição à minha “beleza”, expressa pela primeira vez em particular, a mim, num intervalo do meu julgamento no tribunal. A idéia de que tudo girava em torno desse fulcro da questão, o obsedava, ou mesmo o entusiasmava, como uma experiência que ele até mesmo insuflava e conduzia como se tivesse invisíveis cordéis.
A verdade é que essa beleza “perigosa” de que eu sempre fui acusada desde a infância, me cobrara um alto preço, a mim e a outros, como o pobre peão surrado e expulso pelo nosso “faz tudo”, ou o mais infeliz ainda filho do velho Alípio Galdiano, o Martim, que se exilara, caíra na bebida e perdera dois empregos.
Eu confesso que com minha formação livresca e clássica, graças ao meu pai e sua grande biblioteca, na verdade não podia deixar de pensar no “caso Helena de Tróia”, se pudéssemos nos referir assim, juridicamente, a um episódio lendário e poético como aquele do “rosto que lançou ao mar mil navios”.
Entretanto não serei hipócrita de renegar um dom como esse que, por outro lado, me fez tão amada e admirada. Não cuspirei no prato que comi, e que me fez ser digna da beleza de um anjo de candura como Aline, minha amada, que corajosamente me confirmou seu amor no tribunal perante toda uma platéia perplexa, depois adepta entusiasmada, que nos carregou nos ombros, em triunfo, por um quarteirão. Assim também o velho e poderoso rei Príamo aceitara Helena por sua beleza, raptada consensualmente por seu filho Páris, e incrivelmente assumira uma terrível guerra de dez anos por aceitá-la, abrigá-la mesmo, carinhosamente, como uma filha digna de seu magnífico reino.
Não quero parecer pretensiosa fazendo tais comparações que, na verdade pareciam estar na cabeça do dr. Loredano com o seu indisfarçável entusiasmo com os meus problemas jurídicos que ele atribuía à beleza da sua cliente e que pareciam fazê-lo feliz muito mais do que preocupado. Ora... dirão alguns, esse é o comportamento normal da maioria dos advogados que assim aumentam seu ganha-pão tanto mais quanto mais desafiante for o caso.
Mas, não! Era visível demais a conjugação da diligência competente do seu desempenho advocatício às minhas causas, com a sua despreocupação com o desenlace que ele considerava certo, favorável sempre por honra da beleza em questão. Mas... e o que poderia acontecer por fora da ária jurídica, à margem, como o próprio cavalo de Tróia que ameaçava agora a minha porteira, meu lar, meu casarão estancieiro, que é o meu reino?
E aconteceu. Gaudério veio me avisar que os Galdiano tinham convocado alguns peões da estância da Quitéria e que pagos por ela formaram uma milícia que viria atacar a nossa Santa Gertrudes, sitiando o nosso casarão e atear fogo no vinhedo. A situação era desesperada. Convoquei todos os nossos homens, abri a nossa sala do arsenal e começamos eu, Galdério, e pasmem, Patrícia e Pedrinho, começamos a distribuir as espingardas e fuzis e a distribuir a munição. Eu escolhi um fuzil e pus uma pistola num coldre na cintura, cerquei o vinhedo com o máximo de peões que pude aliciar. A batalha poderia começar a qualquer momento.
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Eu sempre considerei a minha vida gloriosa, pela minha paixão vital, meus amores, meus versos e meus livros, e até recentemente pelas minhas batalhas jurídicas que venci com ajuda do meu advogado, naturalmente, e dos meus amigos. Mas nunca pensei em incluir no meu currículo ou biografia emocional e espiritual, batalhas reais, com armas de fogo, a tiros mesmo. Eu sei que ao avaliar dessa maneira, com tal adjetivo, a minha trajetória, minhas circunstâncias e feitos, eu me insiro num universo ligeiramente infantil. Sim, porque eu suponho que uma visão realmente adulta seja desencantada, irônica, sensata e com forte senso do ridículo de quase tudo nas nossas veleidades e paixões humanas.
Mas agora eu estava prestes a enfrentar uma batalha real, um combate mortal, a tiros de fuzil, de desfecho imprevisível, com possíveis mortes dos dois lados, e talvez... a minha morte, que na verdade é o que buscavam.
A batalha começou pelo vinhedo que cercado pelos Quitéros ( vou chamá-los assim) Encontraram forte resistência dos meus peões que agachados ou detados atas dos muros de pedra, os paraventos mandados construir por meu avô contra minuano, respondia fogo e não davam oportunidade paras os atacantes lançarem tochas para incendiarem o vinhedos, qu é o que buscavam. Quando uma tocha se alçava no extremo de um braço levantado para atirá-la o incendiário tinha um segundo de exposição maior e era abatido por meus homens que se revelavam bons atiradores. Isso eu observava da janela da varanda do casarão com os binóculos do meu pai encontrado na gaveta de sua escrivaninha. Para que o Vati usava esse instrumento? Tempos depois eu soube que era para vigiar minhas andanças e cavalgadas pelas coxilhas desde guria, que ele mesmo incentivava minha “autonomia de vôo”, que eu, ingênua, pensava existir. Querido Vati! Como ele me protegia!...
Agora, como ele me veria comandando um combate real? Ficaria orgulhoso? Me protegeria? Me trancaria num quarto, desmentindo seu desprendimento?
Logo o casarão estaria cercado, sitiado como um castelo cuja muralha eram meus homens, meus valente peões gaúchos, homens machos que sintonizavam em sua almas e corações destemidos, ecos de antigas batalhas de seus antepassados farroupilhas.
Eu , com o s binóculo dependurados por sua correia no pescoço, como uma “generala” de fuzil em punho me punha a atirar, enquanto as balas zuniam e atravessavam a sala pelas janelas e atingiam os quadros de meu Vati, nas paredes. Ele ficaria furioso. Meus homens combatiam defendendo o casarão, deitados ou agachados em seus postos atrás de montes de pedras que cercavam o casarão, previamente preparados às minhas ordens na véspera.
Já eu perdia alguns homens, que aflita, os via tombar em combate, sangrando abundantemente. Por inesperiência eu não preparara uma estrutura de apoio para médico. Eu percebia os Quitéros se esgueirando, atirando, avançando, ganhando terreno palmo a palmo. Um tiro atravessou o tampo do piano de meu pai na Biblioteca, o precioso Steinway negro, sagrado, do meu Vati pianista... Creio que gritei de indignação com todas as minha forças. Saí atirando feito uma possessa. Mas quase desesperada.
Eu já estava vendo a viola em cacos.
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Devo interromper a minha narrativa dos combates para narrar esta cena que tomei conhecimento semanas depois pelo testemunho confiável da mucama dileta da Quitéria, Liona Garra, no salão da sede da fazenda vizinha, que me revelou quando veio trabalhar para mim (que a cooptei depois de tudo) com estranha veracidade e capacidade narrativa, quando veio trabalhar para mim, este diálogo exasperado, significativo entre meu inimigo o velho Galdiano, e o seu infeliz filho Martim, diálogo que eu revisei, claro:
Martim- Pai, me perdoe, eu não quero combater, eu não quero atacar a Alma! Eu a amo!
Galdiano- Como! Que dizes, Chê? Covarde, ela te desgraçou a vida, estás reduzido a um farrapo humano, bebendo desse jeito. Nem os farroupilhas de outrora te receberiam, porque eram machos, farroupilhas, não farrapos! Pega este fuzil e vem lutar pela tua honra, se ainda tens meu nome. És um Galdiano?
Martim- Não Pai! Não podes me obrigar a matar o único amor que senti na vida.
Galdiano- Único amor? E tua mãe que morreu por ti, e eu que tudo te ensinei para que fosses um gaúcho macho, jogador de truco e laçador, bom de boleadeiras e na chula dos galpões? E a briga de faca que venceste matando um ofensor em duelo, o que muito me orgulhou. Tirei-te loguito daquela delegacia pelo sagrado direito do duelo de honra, e pela minha amizade com o delegado.. Onde foi parar aquela honra? Pega este fuzil e vamos ao combate ou não poderás mais usar o meu nome!
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O que seguiu a este diálogo, os combates e o desfecho que ocorreu, que aqui retomo a narrativa... Ai de nós e de nosso pecados, que começo a reconhecer que eles realmente existem...
Então, estando o entorno do casarão já juncado de cadáveres e de alguns estertores e gritos lancinantes, eu já me sentia tão culpada por aquele sangue todo em meu nome, que sai para varanda com o meu longo vestido branco já manchado de sangue que não meu, e de pé na varanda frente à porta, muito ereta como em transe, larguei o fuzil e tirando a minha pistola do coldre deixei-a cair e olhei o contendor que abrira caminho até ali, pondo em fuga alguns dos meus últimos guardiões, somente restando meu fiel Galdério com a arma descarregada, aflito, tentando encontrar balas nos bolsos para me defender, mas logo prestes a se atirar com seu punhal já mão, sobre o peão ereto e imóvel que me defrontava, passiva, esperando o meu castigo.
Quem era ele? A quem caberia o tiro que acabaria com aquela guerra? Os vencedores poupariam as crianças e as mulheres, certamente, pela honra gaúcha, que só a mim queriam, só a mim queriam punir, pela dores que eu agora sabia que causava há tantos anos, só por ser, só por existir mas talvez também por orgulho...
Mirando os olhos do peão ensangüentado, que também imóvel me fitava os olhos, reconheci, minha vítima... Martim!
O jovem, alto, alourado, belo, ereto... não, não era um farrapo, era digno de ser amado, era um cavaleiro romanesco, não um pistoleiro, e eu... sim, poderia tê-lo amado, eu que tinha amado um verdadeiro bandido também cavalheiresco, o bem menos infeliz Günther, meu guerreiro do Walhalla...
Então, aconteceu... lentamente Martim ergueu o fuzil que passou pela horizontal apontando meu peito, mas continuou subindo até a vertical, apontando, não o céu que começava a se vermelhar, mas o céu da boca, introduzida sua ponta entre os lábios que não me dirigiram uma única palavra, nunca, na sua curta vida. E puxou o gatilho...
Dissera-me dias depois que não corri para ele, para seu caído na grama ensangüentada, diante da minha varanda seu belo e esguio corpo jovem, com a a cabeça estourada, que rompeu a correia do barbicacho do seu chapéu gaúcho de aba achatada na testa, que estranhamente conteve no seu bojo a bala que me trouxeram, intacta, já limpa de seu sangue , como uma lembrança de minha culpa, não como um troféu que eu não merecia em minhas mãos, eu que a merecia, sim, mas no meu coração culpado.
E o velho Alípio Galdiano? Dias depois Galdério e Matilde me contaram o que ocorreu com ele diante daquele desfecho inesperado que pôs fim à batalha. A tragédia foi dupla. O velho que estava comandando os peões no assalto ao vinhedo, deixando seu filho com as honras de realizar sua vingança pessoal me matando e tomando o casarão, ele, o velho pai, viu de longe o que ocorreu e veio correndo montado, a galope, e apeando lançou-se sobre o corpo de seu filho, e gritando soergueu seu busto junto de seu peito num grito mudo, altíssimo, sem som, que deixou sua boca escancarada permanentemente numa apoplexia sem fim.
Eu soube depois de um ano que o velho permaneceu por um ano de boca aberta, escancarada naquele grito mudo, numa cadeira de rodas, até que morreu, o puseram num caixão e o velaram assim de boca aberta, e assim o enterraram, que ninguém conseguiu ou ousou tentar fechá-la...
E virou lenda.
Fiquei sabendo, também semana depois que a Quitéria, a verdadeira responsável pelos “quitéros”, a milícia de seus peões que ela formou, armou e pôs à disposição de seus hóspedes “galdianos” dissolveu que sobrou da milícia, a desarmou, velou e enterrou seus mortos, pagou todo mundo e deu no pé, abandonando sua fazenda, deixando-a com seu administrador, e foi para Porto Alegre para esperar a poeira baixar, enquanto nossas estâncias eram visitadas pela polícia querendo saber que guerra era aquela, quem morreu e quem matou.
Quanto a mim, fiquei de cama, deprimida, mas tive que sair dela, me vestir apuradamente e receber um delegado de polícia de terno e dois policiais fardados, fazendo “cara de paisagem” (expressão que apreendi não sei onde) respondendo que não ficara sabendo de guerra nenhuma, que devia ser um boato, e que as últimas guerras de que ouvi falar foram a dos Farrapos contra o Império e a dos maragatos contra os pica-paus, mas disse isso com tal candura que o delegado, dr. Robério, não se ofendeu, sorriu, tomou o chimarrão que lhe servi, agradeceu e se tornou até um pouco galante, e se retirou na sua viatura com seu dois policiais mudos e um tanto vagos apenas olharam em volta sem reparar nos furos de balas em alguns quadros que eu remendara provisoriamente antes de um verdadeiro restauro, bem como a tampa do piano cujo estrago me fizera chorar um pouco lembrando do meu Vati.
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Capitulo Terceiro
A Quitéria
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