A VINHA DE DIONISO
ÍNDICE
Prefácio
.........................................................................................
PRIMEIRA PARTE
A ARA DOS PAMPAS
CAPÍTULO PRIMEIRO
A Ara dos
Pampas.........................................................................
CAPÍTULO SEGUNDO
Safira, eu e os ciganos
..................................................................
CAPÍTULO TERCEIRO
O Condestável
Gottfried...............................................................
CAPÍTULO QUARTO
Estórias das amadas....................................................................
EGUNDA
PARTE
A VINHA
DE DIONISO
CAPÍTULO PRIMEIRO
A Rainha Devassa.........................................................................
CAPÍTULO SEGUNDO
A Ausência de Dioniso.....................................................................
EPÍLOGO......................................................................................
Prefácio ao romance A Ara dos Pampas de Alma Welt
(por Guilherme de Faria)
Primeiramente devo dizer que saúdo, entusiasmado,
este terceiro volume do romance-trilogia "A Herança" da poetisa
gaúcha Alma Welt. “A Ara dos Pampas, com este título sugestivo, romântico, que
ecoa intencionalmente as velhas sagas rurais, a autora lírica que ao escrever
prosa, consegue ser tão direta e quase coloquial como em sua poesia de fundo
simbolista e carregada da poderosa carga de libido que lhe é peculiar, isto é,
cheia de um encantador erotismo sem malícia. Por quê “sem malícia”? Porque Alma
Welt considera com razão que a malícia é filha da hipocrisia e da repressão
sexual, atributos espúrios que ela não contém em sua alma clara, límpida,
malgrado uma pequena e inquietante zona de mistério, que lhe confere um sabor
"exquis". Alma se expõe de uma maneira notável, corajosa em
uma mulher. Ela “confessa” tudo. Com explicitude ao mesmo tempo estética, isto
é, ela consegue nada esconder, e ainda assim permanecer encantadora, hipnótica.
Talvez a beleza despojada de sua linguagem musical seja a responsável por esse
fenômeno. Ela nunca vulgariza o sexo, e quando surge uma linguagem mais chula
notamos que está praticamente entre aspas, ou seja, na boca de seus inimigos e
opressores. Sim, porque esta bela criatura é vitimada ao longo de sua narrativa
por adversários invejosos ou cobiçosos de sua beleza tentadora.François de La
Rochefoulcauld: “A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”. No
caso de Alma, seus inimigos, hipócritas a princípio, tiram suas máscaras,
exasperados pela provocação inconsciente que a beleza e sensualidade desta
mulher pura e "cândida", embora inteligente, exerce sobre as pessoas
que convivem com ela. Nunca li antes páginas eróticas mais legítimas, belas e
originais do que as deste livro. A cena da “fecundação de Aline”, que adquire
um caráter ritual, é um dos exemplos mais notáveis dessa capacidade da autora.
Alma Welt ainda consegue ser original sem artifícios de linguagem na descrição
de cenas de sexo explícito. É preciso que se diga que se estou dando ênfase a
essa conotação no livro de Alma bem como em quase todas as suas obras, é porque
compartilho de sua “profissão de fé”, exposta na sua “declaração definitiva”
aos leitores: “Declaro solenemente que não acredito na dicotomia de corpo e
espírito...” E mais adiante: “Sexo é espírito...” Finalmente, cabe ressaltar
aqui, a construção primorosa, redonda, de seus romances, dos quais este é a
continuação linear do primeiro, “A Herança”. Naturalmente, seria preferível o
leitor ter lido o primeiro romance, já que este segundo corresponde a uma
terceira parte de uma saga em forma de trilogia, em volumes assim
intitulados: A Herança: O Sangue da Terra, A Ara dos
Pampas, A Vinha de Dioniso. Estaria ao final deste último volume encerrada a
saga dos Welt, no seu casarão de estância gaúcha em meio a um jardim florido e
ao vinhedo dos avós? Esperemos que não. Alma Welt continuará para sempre
cavalgando pelas pradarias ou passeando no meio das flores de seu jardim
materno ou no seu pomar sacrificando aos deuses e aos “numes dos pampas” diante
de sua macieira querida: “ a ara dos pampas”, ou nadando no riacho, nua, entre
suas amigas e amantes Laís e Aline, e com Rôdo, seu irmão maravilhosamente
incestuoso. Sem culpa, vital e alegre para sempre, esta Anima viva, que
apareceu em nossa literatura para povoar nossa imaginação com signos renovados
de beleza simples e lírica. Alma, leve-me com você no seu próximo romance!
GUILHERME DE FARIA São Paulo, 13 de Julho de
2005
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A ARA DOS PAMPAS
Romance (Segundo Tomo da Trilogia A HERANÇA)
Capítulo
primeiro
Tenho me esforçado por dirigir os trabalhos
da vinha, para que a produção do nosso vinho não cesse, mas confesso que tanto
eu quanto Rôdo não somos bons estancieiros, nem administradores. O próprio Vati
não o era, e deu no que deu. Precisamos conseguir um bom administrador que
entenda da plantação e da produção de vinho. Mas, onde encontrá-lo, e como
confiar num estranho? Tenho conversado sobre isso com Rôdo, que também está
perdido, quanto a esse assunto. Ele diz que encontrará um, se se puser a andar
por Alegrete ou Santana do Livramento, ou mesmo indo até Porto Alegre e
passando um tempo por lá. Mas tenho receio dessas temporadas de Rôdo, pela sua
atração pelo jogo, embora no seu caso não seja vício, e ele não seja o tipo que
fica endividado, nem nunca tenha incomodado a família com isso. Na verdade, meu
irmão dentro de um cassino parece estar no seu elemento, e numa mesa de pôquer,
parece um jovem gangster de cinema, e não posso deixar de admirá-lo, eu que já
o vi em ação. Mas a verdade é que embora Rôdo seja corajoso, e blefador nato,
essa atividade e esse ambiente são sempre um tanto perigosos, e temo no mínimo
pela inveja que a sorte e o aplomb do meu irmão causa em outros homens, bem como
a atração em um certo tipo de mulheres perigosas, que são como aquelas rêmoras
que grudam na barriga dos tubarões incansáveis, peregrinos de sua própria
predação. A verdade é que nenhum de nós quatro herdou a vocação para
agricultura, de nosso avô, e estamos de pé, ainda, apenas pelas “possibilidades
extensivas” , como dizia Spengler, na sua “Decadência do Ocidente”. Será, então
que a nossa própria decadência, e da nossa estância, é fatal, e já começou? Ai,
não! Sempre haverá a solução de transformar tudo isto num atraente hotel-
fazenda, embora o problema de um a boa administração continue de pé. Chego a
pensar que a minha natureza de artista, e a de Rôdo, de jogador (embora ele
tenha muito de artista também ) já são sintomas dessa decadência, pois nós artistas
temos mesmo a vertigem da dissipação, até pela consciência maior que temos da
transitoriedade da vida, e sua tragédia intrínseca, que nos faz confiar no
sonho e na criação de mundos puramente espirituais ou imaginários, que
materializamos na tela e no papel, aos olhos do mundo.
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Espero a minha Aline esforçando-me por não
transformar a minha saudade e carência em uma nova paixão substitutiva. Ai!
Aline, volta, volta logo, ou não sei o que será de mim, nem de Laís e Rôdo. Mas
será que tu, aí em São Paulo não me estás traindo com teu ex, aquele bruto? Ah!
Se soubesses que foi ele que me deixou no estado que tu testemunhaste... Esse
homem pode também ferir-te! Ai! Não posso pensar nisso, que o coração se me
aperta de angústia! Corro ao telefone e ligo para Aline em São Paulo. Tive
sorte de encontrá-la na casa de sua mãe, no telefone que me deixou. Mas essa
senhora, uma italiana meio bronca, que atendeu primeiro, foi um tanto ríspida e
grossa comigo:
— Alô, sim, aqui é a mãe de Aline, sei quem é
você, e olhe, francamente acho melhor que a senhora fique longe da minha filha.
Ela deveria viver aqui, comigo. Porque a senhora “arrastou ela” para tão longe
de mim, sua mãe? Além disso, porquê ela brigou com o namorado? A senhora é
responsável por isso? Ela precisa é casar, ter filhos, dar-me netos, não acho
uma boa essa relação de vocês, vocês não se desgrudam! Espere, não, Aline
deixe-me falar com ela, ela precisa...
—Alô Alma, Sou eu, não, não, esqueça o que
minha mãe disse. Desculpe-me fazer você passar por isso. Eu não queria que ela
atendesse. Alma, eu te amo! É isso mesmo, mãe, eu amo a Alma, e estou casada
com ela! Larga, larga, mãe... Alma, desculpe-me minha mãe está louca, e.... ai
!
Ouvia-se uma enorme confusão, gritos e
discussão do lado de lá, e eu permaneci estarrecida, com o fone no ouvido até
cair a linha. Então caí num imenso pranto, logo consolada por Laís, que abrindo
a porta do meu quarto ao ouvir o meu choro, entrou e veio me abraçar.
Agarrei-me a ela, soluçando, enquanto ela, também com lágrimas nos olhos, me
fazia deitar na cama onde eu estava sentada, ao telefone, e cobriu-me com seu
corpo em toda extensão e começaram os beijinhos, primeiro nos olhos e nas faces
molhadas, e logo na boca apaixonados, quentes, enquanto ela dizia baixinho:
—Alminha, minha querida, o que é isso, não chora, não chora... Eu vou
consolar-te, enquanto Aline não vem. Vem meu amor dá-me teus lábios, mulher
linda, eu posso te amar, assim, assim... A imensa ternura, surpreendente, de
Laís, que eu descobrira, realmente me consolou, naquele momento, e deixei-a
beijar-me inteira e despir-me por ela, que me possuiu com um ardor crescente,
com os lábios e com os dedos, denunciando o crescimento de uma paixão, que eu
deveria temer, como um elemento complicador, quando Aline voltasse. Se ela
voltasse.
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Peço ao Galdério que sele dois cavalos, meus
preferidos, pois convidei Laís a cavalgar comigo pela pradaria. O interessante
é que essa iniciativa produziu em mim uma espécie de sentimento de traição, de
infidelidade, em relação à minha Aline, que a relação sexual apaixonada de
ontem não despertara. Porque será que essas cavalgadas devem ser exclusivas da
minha amada, enquanto distribuo meu corpo com relativa facilidade? A resposta
para essa questão talvez remonte às raízes da minha sexualidade, ao flagrante
de minha mãe, no meu pomar, que fez-me desde então afrontar o mundo da
repressão e mesmo da simples exclusividade, como um anjo rebelde, caído. Quero
dar-me a todos os que me amarem do jeito certo, isto é, com reverência pela
minha pureza intrínseca, indestrutível, imortal. Será isso o orgulho? Mas um
orgulho assim, é, segundo a definição clássica, o próprio Lúcifer, enquanto eu,
olhem para mim, poderia ser satânica? Sou do bem! Sou inocente, sou um cordeiro
da natureza, e por isso Deus me fez tão bela. Se ele quisesse me punir teria
retirado a beleza que me deu de nascença, e que me faz tão desejada nesta vida
por tantas pessoas, homens e mulheres.
Também tive meu período de religiosidade
cristã, católica, na adolescência. Como o Vati me criara praticamente como uma
pequena pagã, por influência dos deuses e mitos que me dava a conhecer desde
pequena (embora eu tivesse sido batizada por absoluta exigência de minha mãe),
eu tinha, na verdade, a opção, e portanto me sentia livre para escolher. E essa
escolha era sazonal, essa é que era a verdade. Sendo assim, eu exercitava o
lado místico da minha alma, com um ardor ingênuo, afinal, imaginando-me freira,
no futuro, noiva de Cristo, o que, na verdade, eu pensava em termos quase
eróticos. Pus-me a confessar-me, quase todos os dias, para comungar, com
volúpia, imaginando-me engolir um deus, o que meu pai me explicaria como
sentido etimológico da palavra “entusiasmo”. Eu inventava “pecadilhos”. Pois a
minha imaginação não concebia grandes faltas, pecados, muito menos “crimes”.
Mas, em compensação, eu era bastante convincente, com minha imaginação
literária, de poeta.. E, como sabem, a poesia é o que há de mais verossímil,
quando verdadeira, vinda do “imo”. Assim, eu inventava ou vivia em imaginação e
coração, pequenos enredos interessantes, curiosos, e até misteriosos, para o
pequeno padre, jovem, da nossa paróquia, a quem me confessava, deixando-o perplexo,
confuso, eu percebia. Uma manhã, estando aparentemente compungida e fervorosa,
ajoelhei-me diante daquele confessionário, fechado, escuro, cuja treliça muito
fechada não permitia ver o rosto do meu confessor, o que de certa forma tornava
o ato mais interessante, mais instigante para mim, com aquele silêncio sem
rosto que se manifestava mais eloqüentemente que as falas do jovem padre.
–Padre, eu pequei. Amo meu irmão, e dei-me a ele desde os sete anos. Agora não
posso mais amar outro homem, e anseio por ele, que voltou a tomar-me todas as
noites, em meu quarto, em meu leito. Ele é adolescente, como eu. Dei-lhe minha
virgindade há muito tempo, mas temo engravidar, pois... ele me possui como um
homem, agora, muitas vezes. Padre, tenho mêdo.
–Minha filha–(disse o padre com os cabelos em
pé, eu imaginei, atrás da treliça)–o que é isso? Como podes falar assim? Então
só temes isso? A gravidez? É isso que temes? E a Deus, não temes? Ambos estão
em pecado mortal, gravíssimo. O pecado do incesto, outrora punido pela lei
secular, com a morte. Não vês, criatura, que se não parares e te arrependeres,
queimarás no inferno? Eu te dou como penitência, duas mil Ave Marias e mil e
quinhentos Pai Nosso. E ainda assim , não sei se mereces perdão...
Comecei a chorar, voluptuosamente, imaginando-me
arrastada em praça pública, sob ameaça de apedrejamento, a lapidação dos
hebreus antigos... e um calor tomou-me o corpo todo.
–Padre, farei o que me mandares. Mas meu
corpo tem um estranho calor, ali, embaixo, e não consigo dominá-lo. A
felicidade que me toma o coração quando estou nos braços do meu irmão, me deixa
mole, e eu não consigo reagir, rechaçá-lo. Hoje à noite, mesmo, ele me
procurará, e sei que não resistirei quando ele puser suas mãos em mim. A
felicidade, padre, a felicidade, então, é sinal do pecado?
—Alma, cala-te, tentadora. Cala-te e reza.
Não vês que é o demônio que te sopra essa felicidade? Ela é falsa, ela é filha
da luxúria. Essa felicidade como chamas, é a máscara do Demônio, seu supremo
ardil. Cala-te e reza, pecadora! –Padre (eu solucei), eu tentarei, eu tentarei,
mas não podes me absolver, por hoje, e dar-me a comunhão? –Não, não, mil vezes
não. Estás em pecado, e não me convenceste de teu arrependimento. Pensas
enganar teu confessor? Pensas enganar a Igreja? Pensas enganar a Deus? Sua
pequena Messalina. Terás de sofrer, isso sim, para te arrependeres. Não vejo
remorso em ti. Estás bela demais, esfuziante. Eu te vejo daqui, através destes
furos. Tua pele alva brilha, teus olhos verdes brilham, não vejo sofrimento em
ti. Estás iluminada pelo fogo de Satã, e não confio na tua confissão. Pensas
que a Igreja é tola,. que podes manipulá-la. Fóra, pequena Jezebel!
Saí dali, fazendo o sinal da cruz,
envergonhada e confusa. Eu fora longe demais, eu superestimara minhas forças,
meu poder de sedução, e brincara com coisas sérias, agora eu via. Eu, uma
simples adolescente, conseguira escandalizar um padre. Poderia confiar no seu
voto de sigilo? Tive um ligeiro estremecimento de medo. Passei uma semana sem
voltar àquele confessionário. Mas também não rezei aquela penitência
milionária. Eu me desconhecia, um sentimento estranho, de rebeldia, tinha sido
cutucado em mim, e levantava-se como uma tendência ao desafio. Eu
considerava-me imune ao pecado, acreditava na inocência primordial do ser
humano, na minha própria inocência. Eu nunca poderia ser cristã, na verdade.
Não acreditava no pecado, e tinha, sempre tive, um secreto orgulho do meu amor
por Rôdo, que considero sublime. Eu não voltaria a ajoelhar-me. Mas eis que veio
a notícia, que abalou toda a paróquia da vila: o jovem padre suicidou-se, uma
noite. Foi encontrado pendurado na corda do sino com o badalo amarrado,
estrangulado, quero dizer... Foi encontrado um bilhete a seus pés, que o
pequeno sacristão escondeu, e me mostrou: “ Sou pecador, danado para a
eternidade. Meu coração me traiu, meu coração me traiu, meu corpo e alma me
traíram. A alma, a alma envenenou meu coração, com um amor pecaminoso. Deus se
compadeça de mim, que estou no Inferno!” Dei um grito e cobri meu rosto. Eu era
culpada, afinal...
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Laís aparece em traje de montaria, com
culotes e botas lindíssimas. Como é bela e elegante esta guria. Ao contrário de
Aline que não tira os seus jeans e camisetas, e raramente usa uma saia indiana,
fina que lhe dei e na qual fica irresistível, a namorada de Rôdo é uma pequena
lady, uma mulher de luxo, cosmopolita e sensual de uma maneira clássica,
diferente da sensualidade moleca de Aline. Mas isso não quer dizer que estou
balançada, não me interpretem mal. O que existe entre mim e Aline é
consolidado, o meu amor por ela é total, e ela me parece insuperável em suas
qualidades e encanto. Apenas... não posso deixar de olhar uma beleza assim,
como a de Laís, que não me pertence, essa é que a verdade! Sinto como se ela
mesma e meu irmão, por pura generosidade, a estão emprestando a mim, por
incrível que pareça, para consolar-me pela ausência temporária de Aline. Laís
comporta-se comigo como se dissesse:
“Alma, não chores por Aline. Ela voltará, é
certo. Mas enquanto ela estiver longe, vou cobrir-te de carinho, como teu irmão
me pediu, o que corrobora o meu próprio desejo. Vou encher-te de beijos e
dar-me toda, já que tanto amas a beleza feminina, embora poucas cheguem aos
teus pés.” Sei que tudo isso parece pretensioso e até delirante, mas tento ser
objetiva, e vocês meus leitores, que já me conhecem, sabem da minha tendência
inata a viver numa permanente dimensão poética, o que nem mesmo a violência e o
estupro conseguem tirar de mim, de minha vida de poeta predestinada. Não fosse
assim eu não seria artista, não seria a poeta que sou, herdeira do “idealismo
alemão” dos meus ancestrais. O Vati me criou assim, para isso, e uma vez, ainda
mal saída da adolescência me disse algo que nunca antes revelei a ninguém, nem
sequer à Aline: “Alma, filha querida, quero que tu vivas a tua vida em
plenitude de carne e espírito. Estás, como se diz, “instrumentalizada” para
isso, pelo que te dei, pelo que te ensinei. Quero que fruas a beleza do teu corpo,
como do teu espírito; que te dês em plenitude de desejo e prazer aos eleitos do
teu coração e que eles sejam muitos! Pois a verdadeira vida é a vida plena da
carne saciada, para que o espírito seja livre, sem as peias da carne carente,
da repressão dos tolos e dos fracos. Seja tu uma bacante de ti mesma, e faça do
teu próprio espírito o Dioniso interno, selvagem em sua liberdade extrema. Ama
e sê amada por muitos, por todos se possível, e cobiçada como um tesouro até
pelos teus inimigos. Vai, Alma, pela vida como quem dança e canta, como o
vento, como o pampeiro!” Montadas, Laís e eu, disparamos em direção à porteira,
onde já nos aguarda Lazinho, nosso “negrinho do pastoreio”, para abrir-nos a
passagem, sem nos determos, num galope contínuo em direção ao horizonte da
pradaria infinita. Como amo estas cavalgadas! Estar assim com os cabelos ao
vento, no balanço harmônica que descobri ainda criança, sobre a sela e até em
pelo, no lombo de um pampeiro de longa crina, acompanhada como agora, por uma
bela criatura que me segue destemidamente, é uma dádiva do meu Pampa, e serve
sempre como um intermezzo na grande opereta que sinto ser o meu destino. Uma
Ópera Gaúcha, se isso houvesse, pois a consciência da beleza destes momentos, e
de toda a minha vida, me faz chorar de comoção e mesmo de gratidão, por meus
pais, o de cima e o Werner, o cirurgião artista que me criou, assim, panteísta,
povoada pelos numes do Pampa, pelos deuses do Olimpo, e pelos do Walhalla, ao
mesmo tempo. Como não ter gratidão pela dádiva de tanta força, de tanto amor...
de tantos amores? Existem hipócritas, eu sei, que compartimentam e separam,
amor de paixão, carne de espírito, amor de amores. Mas eu, levo tudo dentro de
mim, sem dicotomias, ou melhor, em unidade atemporal. Meus inúmeros amores são
o meu Amor! Meu desejo carnal é manifestação do meu espírito reconciliado com a
carne, a bela carne que me foi dada, êxtase e delícia para os olhos dos humanos
e até dos animais que parecem me amar e ser atraídos por mim, sempre senti
assim. Nunca um cavalo me derrubou, nunca um cão me mordeu: eles vêm lamber as
minhas mãos e meu rosto... e eu os amo. Como poeta expando meu mundo aos
animais e às plantas, às ervas e às grandes árvores do meu pomar e as da
pradaria, imponentes, que compõem o meu cenário ideal, que quero dividir com os
que amo, vocês meus leitores e agora esta ninfa morena e cosmopolita, que me
acompanham nesta exata galopada. Só pararemos quando ela, exausta pedir,
gritando: “Pára , Alma, e retira-me daqui, para os teus braços, faz comigo como
fazes com tua Aline! Eu te cairei por cima, quero beijar-te, toma-me, amazona
loira, ou me atirarei desta sela e terás de carregar-me nos teus braços!”
Paramos afinal, e poucas destas palavras imaginárias não se encontravam nos
olhos negros de Laís. Eu fiz o que me pediam, apeei primeiro, segurei sua
cintura sobre a sela, e fi-la inclinar-se sobre mim, como fazia com Aline, sem
jamais poder agüentar o peso de outra mulher, e fazê-la cair sobre mim, que
amorteci também a sua queda, em risos e gargalhadas. Sou incorrigível, mas não
me levo tão a sério como pareço. Sou frágil, e sou engraçada. Tenho consciência
das minhas fraquezas... e me adoro! Por isso posso amar, tanto e tão
intensamente o outro ser humano, mormente quando sua beleza, interior, exterior,
ou ambas, me deslumbram. Vem Laís! Agora é o teu tempo. Aline está longe!
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Rôdo foi a Porto Alegre, para fechar negócio
com um colecionador, sobre um lote de peças valiosas do tesouro que encontramos
na caverna, sob a estância*; uns relicários de ouro, que incorrem num certo
perigo de confisco, pois parecem estar associadas a uma igreja de Alegrete, que
pode reivindicar, com um atraso de cem anos, a sua posse. A transação tem que
ser secreta, e só estou revelando isto aqui, pois as peças, a igreja e a cidade
não correspondem à realidade e estão, obviamente camufladas neste texto.
Enquanto isso Laís permanece aqui, a sós comigo, saudosa dele, mas empolgada
com o nosso belo affaire. Mas estamos esperando Lúcia e as crianças que deverão
chegar hoje à tarde. Estou ansiosa e não consigo controlar minha euforia com a
perspectiva próxima da chegada das minhas queridas crianças.
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Chegam afinal, Lúcia, Patrícia, os meninos e
a querida Alícia, que tão generosamente testemunhou ao meu favor, no tribunal
com risco de seu emprego. Com a morte de Solange, ela aceitou o meu convite
para trabalhar aqui para ficar perto das suas crianças. Quantos abraços, e
beijos! Como é bom estarmos todos juntos novamente! Patrícia agarrou-se a mim,
segurando-me as mãos, que não largou por muito tempo, dizendo: — Tia Alma, não
quero nunca mais ficar separada de ti. Tia Lúcia foi ótima, mas ninguém me
entende como tu, tia. Eu não pude falar com meu namorado, por que a tia Lúcia
controlava o telefone, dizendo ser caro o interurbano. Você deixa, tia, eu
ligar para ele? Olhei bem para minha sobrinha, linda adolescente, e lembrei de
sua infância, aqui comigo, durante tantas temporadas de férias. Uma criança
adorável. Agora era uma mocinha e tinha os típicos problemas de sua idade, e eu
podia compreender Lúcia que deve ter tido que controlar os gastos com os
telefonemas interurbanos, já que os adolescentes não têm senso de medida, nem o
de responsabilidade, desenvolvidos. E quando têm, são jovens infelizes,
sobrecarregados de superego, como aqueles adolescentes japoneses que se
suicidam quando não passam nos exames. Como é difícil crescer! Pensando nisso,
lembro-me de quanto sou atípica, como artista e filha de meu pai, um homem
sábio, de uma liberalidade inaudita. Um livre pensador, às raias do anarquismo
e da experimentação pedagógica, que estimulou até mesmo a minha sensualidade
inata. Por isso vivi sempre de uma maneira intensa, extrema, total. Mas eu não
era psicologicamente tão dependente dos adultos como minha sobrinha, que é, no
fundo como um bichinho ingênuo, cândido, e que será sempre dependente de um
homem, como de uma mãe, já que lhe falta um pai verdadeiro. Por falar nele,
onde anda o meu querido beberrão, o “borracho” que salvou a minha vida num
momento da mais profunda angústia? Pergunto por ele à Lúcia, que me conta que
Alberto está internado, para desintoxicação, numa clínica em Alegrete, onde
assiste a reuniões de AA. Senti um grande alívio em saber disso e projetei
visitá-lo lá, dentro de duas semanas quando espero que esteja melhor, passada
já a pavorosa síndrome de abstinência, que Lúcia me informou ter ele
vivenciado. Na verdade foi mais que isso. Alberto passou pelos inenarráveis tormentos
do delírium tremens, que são a prova cabal da existência do inferno, com todas
as suas criaturas do mundo das trevas. Pobre Alberto! Terá ele merecido isso?
Lembro-me de uma conversa que tive com um amigo alcoólatra, veterano de AA, que
me disse, mais ou menos isto:
—Alma, querida amiga, és ingênua, e não
sabes verdadeiramente do mal dentro dos homens. Fica sabendo que um alcoólatra,
por definição, nunca é uma boa pessoa. Ninguém bebe por suas qualidades, nem
sequer sofre por elas, As virtudes não produzem sofrimento dentro das pessoas,
são os defeitos de caráter que produzem dor, e levam à bebida descontrolada. É
nisso que consiste o drama do alcoolismo. É a doença dos defeitos de caráter,
ou dos sete pecados capitais, que são a sua enumeração clássica. Os doentes
alcoólicos, não se curam, claro, mas aqueles que conseguem deter a sua doença,
o fazem pelo desenvolvimento e o exercício das virtudes imediatamente opostas
aos defeitos que estão na base da compulsão daquele doente em particular. Cada
alcoólatra tem o seu pecado de escolha, de eleição, onde o álcool se agarra,
enraizando-se nele, por assim dizer, lançando ramificações, radículas, pelos
defeitos menores, ou filhotes dos sete grandes pecados capitais. Mas, atenção,
todos os defeitos ou “pecados”, estão sob a égide do maior deles, o supremo
“pecado”, o pai de todos: o Orgulho... que é Satã, Lúcifer, o anjo rebelde”.
Apesar do tom ligeiramente messiânico do
discurso do meu amigo, ele me parecia fazer muito sentido, dentro de uma lógica
não científica, mas filosófica, ou pelo menos poética, o que é melhor.
Entretanto, eu tinha dificuldade de enxergar Alberto com esse rigor de
julgamento, sobretudo depois que ele me salvara a vida, embora um tanto por
acaso. Eu via, desde então, o meu cunhado beberrão como um elemento
providencial em minha vida, pois além de tudo fora ele que descobrira a safra
oculta dos nossos avós, que precipitara os acontecimentos que, de um jeito ou
de outro, salvaram a nossa estância. Quanto aos gêmeos, meus queridos Hans e Christian,
estavam mais lindos e unidos do que nunca, e cantavam lindamente em uníssono,
com vozes de sopraninos, como dois anjos. E eu pensava que deveriam ficar
sempre assim, que a infância não deveria ser transitória para ninguém já que
podia ser um belíssimo presente, completo, pleno em si mesmo, como parecia ser
o caso dos dois, mais o do Pedrinho, também adorável. Este menino, por ter um
pai bêbado, parecia ser mais amadurecido que o normal de sua idade, sem no
entanto ter perdido a candura, que fazia dele um menino tão doce e perfeito,
que a gente queria abraçá-lo e não largá-lo nunca mais. Aliás eu ficaria com
eles, Patrícia e Pedrinho, e pensava na adoção legal. Mas, Lúcia, dizia-me:
–Alma, não podes ficar com eles. Cometerás um grande erro se o fizeres. És uma
artista e deves permanecer livre. As crianças precisam de uma rotina e
disciplina que não saberás proporcionar, já que elas não existem em tua vida.
Tu deves partir com Aline, pelo mundo, fazendo exposições e lançando teus
livros. Apesar de toda a tua boa intenção, serás prejudicial a estas crianças,
se ficares com elas. É melhor que fiquem comigo, que cresçam junto de seus
primos, todos juntos na minha casa, no sítio, que já tenho prática de cuidar de
crianças, e de cobrar seus deveres de escola, prover sua alimentação regrada e
tudo mais. Vai, Alma, pára com essas veleidades, que não são para ti, poeta!
Não pude deixar de perceber que ela tinha razão, mas eu tinha, primeiro, que
conversar com Patrícia e Pedrinho, que ficariam talvez revoltados, pois queriam
ficar junto de mim, naquela eterna festa de existir que eles achavam que era o
meu modo de viver. Sempre poderia haver a solução de uma preceptora dando aulas
às crianças aqui na estância, como minha mãe providenciara para mim quando era
adolescente, com o resultado que revelei no meu conto A Preceptora, dos Contos
Secretos. Eu começava a ver que a proposta de Lúcia era a mais sensata, e além
disso as crianças estariam sempre perto de mim, que os visitaria em Alegrete,
além de ficarem comigo durante as férias todas. As crianças precisavam estudar,
e além disso Patrícia precisava namorar o seu coleguinha de escola, e por isso,
aceitaria bem a proposta de sua tia Lúcia. Bem, “Não me preocupar! Eis a
providência que preside o meu Destino”, dizia o mestre Nietzsche. Assim,
recomeçamos uma deliciosa nova temporada, mais despreocupada, não fosse por uma
ligeira ansiedade pelo retorno de Aline, que eu achava que corria algum perigo,
em relação ao Pedro, seu “ex”, que poderia eventualmente atacá-la, por
despeito, ou vingança, como fizera comigo. Comecei a ficar tão ansiosa com essa
possibilidade dolorosa, que resolvi precipitar a confissão que eu devia a
Aline, para alertá-la, talvez, a tempo, para que não aceitasse nenhuma
tentativa de reaproximação do Pedro, que seria um risco imenso. Ele tentaria
seduzi-la novamente, eu imaginava, e para isso, me caluniando certamente. Havia
ainda o risco de, não conseguindo, então violentar Aline, como, ai !não posso
pensar nisso. Liguei imediatamente para Aline, em São Paulo:
—Aline, meu amor, sou eu Alma, claro! Estou
bem, mas saudosa, e tu? Olha, não procuraste o Pedro, não é? Não o farás, não é
mesmo? Olha o que me prometeste. Não, não... olha, tenho que revelar-te algo
muito importante. Não, não, não é paranóia! O quê? Conversaremos quando tu
voltares? Mas quando, quando? Olha, não recebas o Pedro, se ele te procurar,
prometes? Não lhe abras a porta. Depois te explico. Ele não sabe que estás aí,
não mesmo? Não deixa ninguém contar a ele que estás aí. Farás isso? Se puder?
As pessoas... Sim, sim, eu sei. Mas, Aline, ele é perigoso, quando voltares, te
direi como sei disso. O que? Não, não! Não é isso! Conversaremos aqui, tá? Um
beijo, meu amor...eu te amo tanto. Me amas? Ai, vou morrer de alegria, volta,
volta, minha amada! Até... até breve. Um brande beijo nessa tua boca carnuda.
Vou pegar-te de jeito, quando voltares. Ai! Beijos, beijos mil...
Percebi ao desligar que Laís estava diante da
porta do meu quarto, pronta para entrar, e provavelmente ouvira minha conversa
ao telefone. Mas Laís não era uma dissimulada, e quando, batendo os nós dos
dedos na porta entreaberta, foi recebida com prazer, ela já entrou
dizendo:
— Alma, querida, me perdoa. Ouvi sem querer,
o que falavas com Aline, mas permita-me dizer que eu espero Aline com tanta
ansiedade como tu. Quero saber se me rejeitarás, quando ela voltar. Porque te
amo, Alma, tanto quanto a Rôdo, que está me fazendo tanta falta. Sabe, como tu
eu também gostaria de juntar todas as pessoas amadas, fisicamente, não só no meu
coração. Ah!” Alma, quero-te cada vez mais! Quando estaremos novamente juntas
neste teu leito? Ou em qualquer outro lugar, a sós? Alma, Alma, eu sei a
querida Patrícia, e as crianças andam por aí o tempo todo, e precisamos ter
cuidado. Mas, tu não poderias encontrar-me hoje, logo que as crianças, forem
dormir, no galpão de feno? Já examinei o local, e sei que ali te encontravas
com Aline, quando vocês ainda se escondiam de Solange. Não me permitirás
experimentar aquela palha, nos teus braços, esta noite, no mesmo local, no
mesmo leito? Lembra-te que eu não quero roubar-te de Aline, somente... Beijei
Laís nos lábios, e em seguida respondi:
–Laís, querida, sou privilegiada de ser assim
amada por criaturas como Aline e tu mesma; e pelo próprio Rôdo, meu amado
irmão, que me ensinou o amor carnal, ainda na infância. Estarei lá, no galpão.
Espere-me lá, esta noite, às onze horas, quando todas as crianças já estiverem
no sétimo sono.
Laís saiu, feliz, soprando-me um beijo no ar
_____________________________________________
Quando criança eu amava o Vati, acima de tudo
e de todos, e... Rôdo meu irmãozinho, que, a partir dos dez anos, se tornou
obcecado, após experimentar meu beijo nos lábios, e o cheiro de xixi da minha
“pombinha”, como já contei no romance A Herança. Nossas aventuras e
descobertas, a partir daí, adquiriram um substrato sensual e mesmo erótico que
permeava a nossa convivência, tornando a nossa vida excitante, excepcional,
como uma aventura permanente. Nossa libido, profundamente aflorada, se posso
dizer assim, transmitia uma conotação sensual, a tudo o que víamos e tocávamos,
ao nosso redor. Quando pela primeira vez assisti com Rôdo a cobertura de uma
égua pelo nosso maravilhoso garanhão Minuano, cujo imenso falo,
pendurado, me impressionou sobremaneira, e que
despejou uma grande parte de sua carga no solo, após a ejaculação na larga
vagina de sua parceira, uma das nossas belas éguas, eu me senti profudamente
feminina e ansiei por aquele banho branco, que me pareceu com certa razão, o
pináculo da experiência carnal. Eu quis, desde aquele momento, que Rôdo fizesse
aquilo comigo, mas o pobrezinho tinha um pintinho tão pequeno ainda, e mal
podia ejacular, embora vivesse já sempre em riste, com sua cabecinha vermelha
inflamada por roçar na sua cuequinha e nas suas calças de brim, ásperas. Ele
logo passou a me instar a beijar aquela cabecinha, e a pôr seu pintinho inteiro
dentro de minha boca, às vezes junto com o saquinho inteiro. Foi quando ele
ejaculou pela primeira vez dentro da minha boca, no fundo da minha garganta,
fazendo-me tossir muito, de olhos vermelhos. Mas apesar do engasgo eu adorei
aquilo, e iríamos repeti-lo muitas vezes, como, aliás, fazíamos com cada nova
descoberta. Daí para a introdução na minha pequena vagina foi um passo, e descobri
muito mais tarde, com surpresa, que eu tinha um hímen complacente, e por essa
razão não sangrara. Só podia! Pois eu tinha uma natureza complacente com quase
tudo na vida, exceto com a maldade, e a crueldade. Mas, meu irmão era puro como
eu, e nossa natureza sensual, e mesmo erótica, suspeitada com alarme pela minha
mãe (e por Solange), nunca nos decepcionou, e pela nossa aceitação plena, até à
exaltação, nos tornou artistas, disso tenho certeza, embora Rôdo ainda não se
dedique a uma arte, a não ser a do jogo de pôquer, que, da maneira
incrivelmente hábil com que joga, talvez seja mesmo uma arte. Uma vez, no mesmo
galpão onde combinei agora meu encontro noturno com Laís, naquele tempo da
minha infância tive meu primeiro “banho branco”, que me deslumbrou. Rôdo, super
excitado, inundou-me por dentro, mas eu, graças a Deus, ainda não menstruava, e
não corri o risco, impensável, de engravidar de meu irmão. Aliás devo dizer,
que fui poupada destas surpresas desagradáveis, ao longo da vida, por pura
sorte. Não aconselho ninguém, portanto a me imitar. Como dizem os americanos,
jocosamente: “Não tente fazer isso, você mesmo, em casa! ” Mas, naquele tempo,
vivíamos soltos, pelo casarão cheio de quartos, alcovas e mansardas, e ainda
pelo jardim, o pomar, o açude e a pradaria ao redor. Todos esses lugares foram
palco e cenário dos nossos encontros íntimos, que eu não sabia, até
recentemente, o quanto eram acompanhados de longe ou de perto secretamente por
algumas pessoas, como aquele velho Alípio Galdiano que um dia deporia contra
mim no tribunal, e que eu tive de despedir por justa causa, pois se revelara um
inimigo. Ou por Solange. E finalmente por Ana Morgado, minha mãe que nos pegou
em flagrante, pondo fim àquele ciclo maravilhoso de nossas vidas
. __________________________________
Após uma alegre ceia, na nossa grande sala,
onde as crianças reinaram, com a as suas brincadeiras e narrativas das
experiências do dia, fazendo meus olhos se encherem de lágrimas de
reconhecimento pela beleza e privilégios do presente, de minha vida tão plena
de dádivas, que me comoviam, fui jogar um jogo de tabuleiro com Pedrinho e os
gêmeos diante da lareira apagada, já que a noite estava quente. Esses momentos,
tão aprazíveis, gravam-se na minha memória para sempre, e são o sal da vida.
Após uma partida, jogada em comum por duas duplas, os gêmeos contra mim e
Pedrinho, fui levá-los para a cama para contar-lhes uma história, que naquela
noite foram episódios da Odisséia de Homero, que adoro, e que narrei
resumidamente, de cor. As maravilhosas peripécias de Odisseu, no seu retorno de
Tróia, tentando chegar à sua amada Ítaca e à sua Penélope. Os olhinhos das
crianças brilhavam antes de ficarem afinal sonolentos e receberem um beijo cada
um nas boquinhas perfumadas de pasta de dente. A vida é bela. E eu estava
ensinando aos meus sobrinhos, que os heróis somos nós mesmos, e que as belas
aventuras estão ao nosso alcance nas nossas vidas, dependendo de nossa ousadia
e disponibilidade, mas, sobretudo, da nossa capacidade de sonhar. Afinal, somos
como os aborígenes da Autrália que se auto-designam “o Povo do Sonho”, sim, mas
também nós, a humanidade inteira, a quem foi oferecida a dádiva do onírico.
Para que o mundo seja maior dentro de todos e a vida não se restrinja a um
pequeno cenário doméstico, para a alma aventureira do homem! Então quando os vi
adormecidos, saí pé-ante-pé, e fui para o meu quarto para preparar-me para o
encontro com Laís, no galpão. Eu iria me banhar e vestir-me como uma hetaira,
perfumada somente pelo sabonete, para que transparecesse meu perfume natural.
Eu estaria com um vestido levíssimo, muito fino sobre a pele, e resolvi não
vestir a calcinha. Eu estava praticamente nua, e sabia que Laís estaria outro
tanto, preservando também seu perfume natural, já que era uma moça de bom
gosto. Eis aí algo que nunca entendi nos franceses, que se banham pouco, ficam
fedidos e tentam camuflar isso com seus perfumes. O que só produz uma mistura
rançosa de cheiros, insuportável. Além disso suas lindas mulheres não raspam as
axilas, peludíssimas, e muito menos o púbis e as virilhas, o que só agrava o
mal cheiro. Bem, talvez também o mal-cheiro tenha um elemento afrodisíaco. Não
contam, por exemplo que Rasputin, o monge lúbrico da corte dos Romanov, e que
era um verdadeiro sátiro, nunca tomava banho, fedia como um bode, era
irresistível às mulheres? Afinal, o ser humano é muito estranho... Assim,
sentindo-me leve e diáfana, saí para varanda, com uma lanterna de pilha,
passando pela janela de Lúcia que estava com a luz acesa, que transparecia
pelas venezianas cerradas, fazendo crer que ela estava ainda acordada, talvez
lendo, ou mesmo atenta às manobras, minhas e de Laís, mas sobre as quais ela
seria discreta, e nunca interferiria. Pois esta minha irmã provou me amar e me
aceitar mais incondicionalmente do que eu jamais esperaria. Atravessei o
jardim, e depois de uma caminhada de cem passos eu entrei no galpão cujo
cadeado do grande portão estava previamente aberto por mim. Deixei a porta
encostada e dirigindo o facho de luz para a escadinha da parte superior do
galpão, onde era o meu ninho de amor com Rôdo, e depois com Aline, subi e
deitei-me sobre a palha para esperar Laís. Esta logo chegou, e cruzamos nossos
focos das lanternas, nos reconhecendo, emocionadas, em expectativa ansiosa, e
logo estávamos abraçadas, nos devorando de beijos. Laís estava tão sôfrega
quanto eu, e tirou nossos vestidos, quase rasgando-os. Ela também estava sem
calcinha! E começamos a nos acariciar e manipular, ofegantes beijando-nos e
sugando nossos mamilos tesos, durinhos empinados. Estávamos ensopadas por
dentro e começamos a provar o caldo uma da outra, sedentas, deslumbradas de
prazer, num maravilhoso sessenta e nove. Então, nesse momento, ouvimos um rumor
e a porta lá embaixo abriu-se. Paramos imediatamente, assustadíssimas, e
esperamos imóveis, o coração aos pulos, ainda com nossos sexos diante das
nossas faces molhadas. Quem seria? Então no topo da escadinha apareceu um foco
de lanterna diante de nós que nos ofuscou, e paralisou naquela situação
vulnerabilíssima e tão intima em que estávamos as duas, nuas, viradas cada uma
para um lado. Era insuportável, impensável, tal situação. Nós corríamos imenso
perigo, pensamos imediatamente. Então ouvimos a voz detestável do meu cunhado
Geraldo, o assassino de minha irmã, enquanto nossa vista ofuscada divisava uma
arma iluminada, em parte, pelo foco de sua lanterna:
—Aí, hem, safadas! Vocês nunca me enganaram!
Esperem aí, ah! essa não é Aline, é a Laís do Rôdo, essa putinha, que gritava
como uma gata no cio, nos braços daquele corno, que todos ouvíamos na temporada
passada. Rôdo sabe disso? Vai saber, ah! se vai... dependendo de ti, Alma, sua
serpente.Vim reclamar minha herança e só saio daqui com muito, muito dinheiro,
que vocês me devem.Pensavam que a coisa ficaria assim, deixando-me de mãos
abanando? Apavorada, eu retorqui:
—Geraldo, seu assassino, não cometa mais
desatinos que a tua situação se complicará mais ainda, tu estás sendo caçado,
sabias? Eu pensava que tu fosses mais esperto e que já estivesses fora do país,
aí pelo Uruguai ou Argentina. Se ficares por aqui logo te prenderão e vais
mofar na cadeia.
—Nada disso, sua espertinha! Ninguém me
persegue, e vocês estão nas minhas mãos, mais do que vocês imaginam. Meus
filhos estão aí, não estão? Pois eles saberão de tudo, sobre vocês, suas
safadas, se não fizerem exatamente o que vou mandar. Vou prender uma de vocês
aqui. Tu Laís, venha cá de mãos para cima, sua bela pelada! Vou amarrá-la com
esta corda, assim, com as mãos para traz vamos, assim, assim. Fique quieta aí,
Alma, se não mato as duas. Não me custa, quando já se matou antes. Vocês sabem,
é só começar... e toma-se gosto.
Para cúmulo da humilhação depois de
amarrá-la, nua como estava com as mãos para trás, aquele homem odioso, ainda
deu um grande tapa na nádega de Laís, que deu um grito dolorido. Ele era um
sádico, iria nos torturar? Nós estávamos numa grande encrenca, minha cabeça
estava a mil, procurando uma saída para aquela situação perigosa e patética.
Nós duas ali, nuas, frente ao meu detestado cunhado, que ainda por cima era um
cafajeste. Eu jamais poderia imaginar isso. Se Aline estivesse aqui, eu estaria
com mais vergonha ainda de expô-la a uma situação dessa, que eu achava agora
que era uma decorrência da minha vida, dos riscos inerentes à minha maneira
imprudente de viver, e do meu destino, que eu sempre quisera poupar à Aline,
preservando-a para deslumbrá-la com meu universo que eu pensava todo ele de
beleza, para enfeitiçá-la, com medo de que deixasse logo de me amar. Eu agora
estava expondo esta outra flor ao perigo, por minha culpa! Por minha culpa! Eu
tremia de medo e indignação, com as mãos pela primeira vez cobrindo meu sexo e
meus seios da visão espúria desse homem que olhava lubricamente, a nós duas. Eu
nem mesmo na infância, naquele flagrante de minha mãe, me vira compelida a
obedecê-la na sua ordem para que me cobrisse com as mãos enquanto era arrastada
pelos cabelos, diante da peonada. Geraldo depois de comer-me com os olhos,
cobiçosa e perigosamente, ordenou-me que me vestisse, que fosse até o casarão,
e trouxesse dinheiro, jóias e dólares, tudo o que tivesse de valor, alertando
ainda que isso era só o começo, que ele queria a venda de uma parte das terras
da estância, a que tinha direito, pois fora casado com comunhão de bens com
Solange. Aquele louco esquecia que a tinha assassinado, e que por isso perdera
qualquer direito sobre a herança, eu queria crer. Antes de descer a escadinha
eu o preveni a não ousar fazer mal à Laís, porque Rôdo o perseguiria até o fim
do mundo e o mataria. Eu conhecia o meu irmão. O cafajeste respondeu com uma
gargalhada cínica, dizendo:
—Então ele terá que começar por você,
que a estava comendo, sua lésbica maldita!
Tremendo de medo e de raiva, eu me dirigi de
volta ao casarão, para acordar Lúcia e levantarmos o que pudéssemos em dinheiro
e jóias. Lúcia ficou assustadíssima, e chorando dizia:
—Alma, Alma, o que vamos fazer, meu marido é
um homem perigoso, a crianças correm perigo, todos nós... o que vamos fazer?
Onde está Galdério? Onde estão os peões, como pôde ele entrar na estância? Como
não o barraram?
—Minha irmã,— eu disse —isso agora não
vem ao caso. Além disso, estão todos dormindo. Ninguém esperava que aquele
louco voltasse aqui, depois do que fez. Mas vamos ganhar tempo, vá, dá-me todo
dinheiro que tiveres, eu darei o meu, as poucas jóias que tenho, dá-me as tuas,
vamos, precisamos ganhar tempo, Laís está como sua refém e ela corre perigo, eu
acho. Não me perdoaria se... Lúcia soluçava nervosíssima, e eu percebi que
cabia só a mim enfrentar aquele homem. Após quinze minutos de procura e recolha
de dinheiro e objetos (nenhuma peça do tesouro, claro, de que ele não tinha
conhecimento), com uma sacola cheia dirigi-me de volta ao galpão. Eram já meia
noite e meia, e os cães latiam presos no canil, e os sapos coaxavam como em
alarme geral, junto com os grilos. Mas nenhum peão acordou, graças a Deus, pois
eu temia um tiroteio e mortes, se o galpão fosse cercado, com meu cunhado
bandido lá dentro, e sua refém, a pobre Laís, apavorada. Quando reentrei no galpão,
vi um rumor e sinal de movimento e gemidos lá em cima. Estarrecida corri a
subir, e horrorizada encontrei Geraldo em cima de Laís, possuindo-a,
violentando-a, com uma mão agarrando seus cabelos. Sob o foco de luz, pude ver
o seu pênis enorme penetrando, entrando e saindo da vagina da minha amiga,
cujos gritos eram abafados pela outra munheca do monstro em sua boca. Sem
pensar, avancei sobre ele por trás e dei-lhe uma violenta pancada na cabeça com
a minha lanterna. Ele pareceu desfalecer largando o corpo em cima dela. Então
eu a puxei pelo braço, de debaixo dele, desfigurada e em lágrimas, gritando, e
(eu não pude deixar de notar) enganchada ainda no pênis do celerado, que tive
que fazer um esforço para livrá-la daquela penetração escabrosa. Nunca mais tal
visão abandonaria a minha memória horrorizada e recôndita, a ponto de eu não
saber mais se tudo não passa de fragmentos de um pesadelo que confundo com a
realidade. Laís abraçava-se a mim, tremendo e soluçando, nua, marcada com
vermelhidões e arranhões, futuras terríveis equimoses da violência que sofrera.
De sua vagina escorriam, pelas coxas, sangue e esperma. Meu coração estava
partido: eu chegara tarde demais para salvar a minha amiga! Então, enquanto eu
abraçava e afagava Laís em estado de choque, subitamente ouço a voz de Geraldo,
novamente:
—Então, vagabundas, safadas, vocês
insistem, não aprenderam a respeitar os homens, não é? A próxima será a tua
vez, Alma, sua puta! (ele apontava-me o seu revólver ). Nós estávamos perdidas.
___________________________________________
Amarrada, sob a ameaça do revólver de
Geraldo, eu pensava num jeito de sair daquela situação e de cuidar de Laís que
estava em estado de choque e regredira à condição de uma menininha desamparada.
Ela tremia, e o próprio Geraldo enfiou-lhe o vestido brutalmente, pela cabeça,
e nem necessitou amarrá-la, paralisada e catatônica. Eu queria levá-la
imediatamente a um hospital, e implorei a Geraldo que parasse com aquilo e que
me deixasse cuidar de Laís, prometendo-lhe que ele seria atendido nas suas
reivindicações, bastando que se afastasse da estância e esperasse escondido,
até que eu terminasse a transação da venda que ele exigia. Geraldo, porém,
disse:
–Pensas que sou tolo, minha cunhadinha? Não
vou dar oportunidade para chamares a polícia. Vocês irão me acompanhar até o
casarão, agora que está escuro, e ainda ninguém acordou. Ficarão presas na
casa, sob minhas armas. Sim, porque vocês terão uma bela surpresa quando
chegarmos lá. Atravessamos o terreiro e ao passarmos pelo jardim, pude ver a
casa cercada por mais três homens armados, os comparsas de Geraldo. Entramos
todos, e os capangas armados com rifles, se puseram estrategicamente junto a
três janelas opostas. Iria começar a longa e torturante espera, de reféns,
enquanto durasse a procura de um comprador e o fechamento da venda, coisa que
me parecia inviável a curto ou mesmo médio prazo. Além disso, pelo
comportamento violento de Geraldo, eu corria o risco de ser violada por ele
como Laís o fora, pois meu cunhado sempre me desejara tanto quanto me odiava. A
situação era desesperadora. E quanto às crianças? Quando acordassem, saindo de
suas caminhas para virem me abraçar no meu leito, não me encontrariam ali e
logo nos veriam naquela situação. Veriam o próprio pai e tio cercado de capangas,
fazendo-nos a todos de reféns: suas cunhadas, filhos e sobrinhos! Aquele homem
era capaz de tudo, e já provara isso suficientemente. Além disso, eu pensava em
tratar de Laís, cuja depressão aumentava visivelmente, precisando de cuidados
médicos e que eu lhe desse imediatamente a minha “pílula do dia seguinte”, cujo
envelope eu guardara desde o meu próprio estupro por aquele Pedro, em São
Paulo. Ia começar uma longa vigília.
____________________________________________
Ao amanhecer, assim que Galdério e Matilde
entraram na casa para os seus afazeres, foram aprisionados e também amarrados.
Logo ouvimos o burburinho das crianças que levantavam e vinham correndo para a
sala para o café da manhã, encontrando–nos naquela situação, com o pai assassino
cercado de capangas armados ameaçando-nos a todos. Foi uma consternação e um
choque para as crianças, mas pude trocar olhares com elas, que me viam como seu
general de saias, desde a nossa experiência como equipe de “espiõezinhos”, na
temporada passada. Pedrinho, menino audacioso e aventureiro que puxara ao tio
Rôdo, esperava instruções minhas para agir, fazer alguma coisa. Logo apareceu
também Patrícia na sala, espreguiçando-se, e arregalou os olhos quando viu seu
temido tio apontando-nos armas. Quanto aos gêmeos, estavam quietinhos, com os
olhos cheios de lágrimas, olhando o pai, ainda sem compreenderem bem a
situação. Aquele dia inteiro e os seguintes foram passados em clima de tensão e
planejamento dos passos que ele exigia que eu desse. Não é preciso dizer que
Geraldo nos ameaçava a todos de morte, se eu desse um passo em falso, por
exemplo, alertando os peões, ou telefonando e chamando Rôdo em Porto Alegre.
Para isso confiscara os celulares e vigiava o telefone fixo. Eu deveria, munida
de documentos da estância, vender um quarto das terras ao primeiro interessado.
Geraldo me prevenia de que se eu chamasse a polícia ou usasse algum truque ele
poria fogo na casa com todos dentro, inclusive seus próprios filhos. Era um
homem desesperado, acuado, que segundo ele nada mais tinha a perder, só a
ganhar, afinal. Eu matutava numa solução que não pusesse em risco a segurança
de todos e, finalmente, munida dos papéis e acompanhada de Galdério que dirigia
o carro, como sempre, afastamo-nos da estância, para ir ao cartório, para
anunciar ali a venda, que eu sabia que não seria nada fácil. No caminho concebi
o meu plano. ________________________________________________
O tabelião, senhor Donato era um homem dedicado,
que fora amigo de meu pai, e que sempre prezara nossa família sobre todas as
outras da região. Eu sabia que ele me ajudaria no meu plano. Tratava-se do
seguinte: nós iríamos forjar a venda, com um falso comprador e falsos papéis.
Esse suposto comprador se apresentaria até no casarão. Eu alertaria o próprio
Geraldo para que ele pensasse estar disfarçando a situação perante o cliente,
escondendo seus homens. Nós lhe daríamos o dinheiro, que seria um empréstimo
bancário conseguido com a influência e prestígio do tabelião, mas com notas
marcadas, a polícia não seria avisada, claro, para não pôr em risco minha
família. Nós daríamos o dinheiro ao Geraldo, mas poríamos um rastreador no
nosso próprio carro, que ele levaria com seus homens, pois era de muito melhor
qualidade do que o deles, e então, quando estivessem bem afastados,
alertaríamos a polícia que se poria no seu encalço. O plano era arriscado,
naturalmente, e podia dar errado, pois Geraldo poderia resolver levar alguns de
nós como reféns, por segurança, já que teriam dois carros disponíveis para a
fuga. Mas tínhamos que tentar. Depois de muitas horas que estas providências
nos tomaram, voltamos no carro já equipado com o rastreador, e Galdério me
dizia no caminho:
—Dona Alma, se a senhorita me autorizar eu
mato esse homem, se não for hoje será mais tarde, algum dia, mas eu o mato.
Nunca fui com sua faccia, e agora depois de tudo que esse homem fez, merece a
morte. Mas diga-me dona Alma, o que ele fez com a senhorita Laís, que está tão
mal, que não parece estar em si? Se aquele maldito... Achei melhor disfarçar e
nada revelar ao Galdério sobre a nova tragédia acontecida, para não acirrar seu
ânimo. Galdério na sua indignação, poderia precipitar-se e pôr tudo a perder,
até mesmo ser morto. Geraldo revelara-se um bandido perigosíssimo e não um
simples assassino passional. Eu mesma seria capaz de matá-lo, talvez, mas no
calor do momento, como quase o fiz, golpeando-o na cabeça. Mas minha força
revelara-se insuficiente, graças a Deus, e me poupara de ser uma assassina
nesta vida. Ai! Mas a pobre Laís... ela se recuperaria, como eu me recuperei da
mesma horrível experiência sofrida nas mãos de outro crápula, o Pedro, da
Aline? Eu não podia saber. Ela me parecia mais frágil do que eu, que estava
inteira apesar de tudo... de ter sido igualmente tão brutalizada. Eu precisava
cuidar de Laís, com todo o carinho, com todo amor que as circunstâncias não me
estavam permitindo dedicar a ela. Meu coração doía ao pensar nela, que estava
tão traumatizada que não falava mais, e eu temia por sua vida. Ai!... Chegando
à estância, desci do carro e corri até à porta ansiosa por ver se todos estavam
bem. Laís não estava na sala, fora levada ao seu quarto, sob os cuidados de
Patrícia. Lúcia ainda torcia as mãos, as crianças jogavam em silêncio sobre o
tapete da sala, um jogo de tabuleiro, enquanto Matilde cuidava do almoço para
todos. Iríamos entrar num período de espera, de terrível espera, até que o
tabelião completasse a transação com o banco e nos trouxesse o dinheiro através
do falso comprador, que esperávamos significasse a nossa libertação. Lá fora a
vida da estância corria normalmente, com os peões e os trabalhadoras da vinha,
na sua rotina de trabalho, alheados do drama que se passava dentro do casarão.
Quanto a mim só me restava orar a Deus, para que o meu plano desse certo.
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Lúcia, na sua alienação em relação à
verdadeira natureza de seu marido, apesar de tudo o que sofrera em sua vida com
esse jogador, viciado e perdedor, além de mesquinho, mal caráter e assassino
procurado, de sua própria irmã, tinha uma ilusão persistente, vendo nele ainda
o pai de seus filhos, e tentava convencê-lo a ir embora, para não ser preso, e
para não impressionar mal às crianças. Mas esse homem debochava dela e tirara
completamente a máscara, revelando seu rosto de bandido, dando-lhe um violento
tapa na face, para que se calasse, na frente de seus próprios filhos e dos
gêmeos. Foi mais um momento chocante que vivemos ali dentro. Assim que
chegamos, eles voltaram a amarrar Galdério, com as mãos para trás, já que
temiam alguma súbita reação do nosso motorista. Eu exigi que me deixasse ir
cuidar de Laís, no quarto, no que fui atendida. Chegando ali, encontrei
Patrícia com os olhos cheios de lágrimas afagando a mão de Laís, que estava
catatônica, com os olhos muito abertos, esgazeados, sem expressão. Sentei-me ao
seu lado na cama e a abracei, dizendo:
—Laís, minha Laízinha, meu amor, meu amor...
Fala comigo, querida, diz alguma coisa, sou eu Alma, não vês, estou aqui, eu
vou cuidar de ti, eu te amo, querida, vou cuidar de ti, Rôdo também, quando
voltar, tudo vai dar certo... Patrícia vendo esta cena, caiu num imenso pranto,
mais assustada ainda, dando–se conta de que algo muito grave acontecera com a
nossa amiga. Eu tinha que amparar estas duas e abracei igualmente minha
sobrinha. E disse a ela: —Pati, minha querida, nada temas, eu vou cuidar de
todos, eu vou, tu vais ver. Tudo vai dar certo. Aquele seu tio mau irá embora
logo, ele só quer dinheiro, e nós vamos dar a ele para ele deixar a gente em
paz. Tu vais ver. O dinheiro já está vindo. Logo estaremos livres e vamos ser
felizes novamente, só nós, para sempre, está bem? Neste momento, Laís deu um
gemido e explodiu em lágrimas, apertando-me contra si, soluçando: “Alma,
Alma!...” Graças a Deus! Ela estava reagindo, ela chorava, ela se salvaria.
Abraçadas, nós três chorávamos, nossas lágrimas se misturando, nossos corpos,
nosso calor se misturando, inseparáveis para sempre, eu senti assim...
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Quando eu tinha dezenove anos, minha mãe
acalentou o sonho projetado de um casamento convencional, e de pequeno
romantismo, para suas filhas incluindo a mim nessa projeção. Ela nunca
percebeu, por exemplo, o quanto seu próprio marido, o Vati, era, ele sim, um
representante do verdadeiro romantismo, alemão, com sua literatura e o seu
piano maravilhoso. Ela não tinha a capacidade de urdir seu sonho na trama de
seu próprio presente privilegiado com o Vati, como ele e eu fizemos desde a
minha infância. Quero dizer com isso que sempre acreditei que o sonho deve nos
engrandecer sempre, e não nos amesquinhar no presente, como ela o fazia não
sendo feliz com meu pai, conosco, que o éramos a despeito dela mesma. A
felicidade é a suprema virtude, eu creio, mãe de todas as outras, assim como o orgulho
é o pai de todos os defeitos. Pensando assim, eu teria vergonha de ser infeliz,
se o fosse. Começaria por desconfiar de mim mesma, de alguma falta de virtude,
de alguma postura mesquinha em relação às preciosas dádivas da vida. O artista,
eu penso, deve ser o grande sacerdote da vida, o primeiro a louvar e a
agradecer, sim, e já o faz exercendo em plenitude o seu dom de criação, reflexo
da Divindade. Eu sei, naturalmente, que muitos artistas exercem sua arte com um
tom de crueldade, rancor ou desdém, mas sinto que Deus os tolera, para
cobrá-los mais tarde, talvez numa próxima encarnação, o preço de sua
infelicidade escolhida. Sim, porque a maioria das pessoas é infeliz, pela
escolha equivocada de uma postura rebelde, filha do orgulho. Mas não pensem que
esses conceitos derivam de algum moralismo recôndito, de minha parte. Estou bem
consciente da natureza profunda e trágica do sofrimento humano, que me causa,
antes de tudo, compaixão. Mas, diante de um sofredor eu gostaria de poder
ensinar a sabedoria de viver, o humor de que falava o grande Hermann Hesse, que
produz vidas fecundas. Por outro lado, estou bem consciente de que os trágicos
e até mesmo os chamados “malditos” também são fecundos na sua auto-imolação,
como que escolhida, e isso me perturba. A natureza misteriosa da tragédia. Na
verdade temo a dor (não a morte), a dor, profunda noche escura del’alma, como
dizia São João da Cruz. A dor, a dor de existir, não deve ser confundida com a
infelicidade mesquinha, dos neuróticos, por exemplo, os que não têm a
capacidade de amar, esses sim, os supremos egoístas. Como não perceber a
generosidade de Deus? Basta meditar um pouco sobre os fenômenos cósmicos, como
o espantoso equilíbrio de uma potência como o sol, em relação à nossa
fragilidade. Ou simplesmente ponderar sobre os infinitos milagres, desde um
talo de grama ao balé de uma Maya Plissetskaya, ou o violino de Ytsaac Perlmann
e Yehud Menuhin. De um verme ou de uma estrela, de um grito de dor, ou de um
poema. Sei, no entanto, que essas ponderações emanam da razão, e que a alma
mesma, esta... é quase sempre perplexa.
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Laís se recuperaria, devagar, mas ficaria
profundamente marcada pela tragédia de sua violação. Essa moça que eu pensava
livre, como eu, era mais frágil, mais vulnerável do que eu imaginava. Ela
despencara de uma postura que eu pensava aventureira e corajosa em relação à
vida, como companheira de meu irmão, desabrido e audacioso como uma força da
natureza, e revelara a fragilidade de uma menina ingênua que se reservava
somente para o seu amor. Por isso eu mais me condoía por ela e quereria
protegê-la, coisa que não pude, da maldade do mundo. Agora ela se abraçava a
mim, como Patrícia, como as crianças, que precisavam de proteção. Onde elas
viam tanta força em mim? Eu não sei, começo a desconfiar de que sou frágil
também, embora corajosa. Talvez seja isso: a minha coragem, que as ilude,
desprotegidos que estamos todos diante de tanto mal, encarnado em nossa frente
nesse homem desesperado, louco pelo dinheiro, alma perdida de um Judas
arquetípico. Eu temia também pela minha integridade física, pois esse homem me
ameaçara; e o seu desejo ilegítimo, pois malévolo, era visível no seu olhar. Eu
temia que ele, já que tirara completamente a sua máscara, me escolhesse como
última refém a arrastar na hora da fuga, para depois... Ai! eu precisava me
precaver, precisava de um novo plano, para a hora de sua partida. Eu me sentia
vulnerável diante daquelas palavras: “A próxima, será a tua vez...” O quê
fazer? O que fazer? Por ora eu abraçava e beijava minhas meninas, Laís e
Patrícia que se refugiavam em mim. Os gêmeos, pobrezinhos, olhavam para o pai
com os olhos um pouco arregalados, sem reconhecerem-no, pois aquele homem mau
não correspondia ao pai internalizado deles, é claro. Eis aí o homem da mó ao
pescoço e do rio, de que falou Jesus, dos que escandalizam as crianças.
Matilde, a fiel servidora, cozinhava normalmente e punha a mesa, enquanto seu
irmão permanecia amarrado, e agora preso na nossa adega. Era, naturalmente mais
fácil para Geraldo controlar as mulheres e as crianças. Eu passei a temer pela
vida de Rôdo, se ele voltasse de repente, de Porto Alegre, pois ele telefonara
e Geraldo mandara que eu atendesse, mas disfarçando, de modo que meu irmão não
percebesse o que estava se passando. O único sinal de estranheza, na nossa
conversa, que passaria despercebido de Geraldo, foi não ter falado da minha
saudade, e não ter feito nenhum apelo a que voltasse depressa para os nossos
braços, meus e de Laís que não poderia falar com ele, pois “estava no banho”.
Rôdo teria notado esses sinais, quase inconscientes de minha parte? Pois eu
temia a sua volta, que caísse nas mãos de Geraldo que sempre o detestara. Eu
temia pela vida de meu irmão, que Geraldo considerava meu cúmplice na suposta
espoliação de sua parte na herança. Eu sabia que Geraldo gostaria de matar-nos,
ele, que já assassinara Solange, sua parceira no roubo do espólio dos nossos
avós, a safra do “Ara dos Pampas”, o vinho afinal perdido, dissipado. O “sangue
da terra” clamava por mais sangue, eu temia. Na cozinha, eu trocava algumas
palavras e apreensões com Matilde, que temia pela vida de todos, acreditando
que aquele homem era o demônio em pessoa. Matilde nunca confiara em Geraldo, e
me lembro do quanto tentou dissuadir Lúcia daquele casamento.Ela dizia, naquele
tempo:
—Lúcia, guria, não te cases com esse homem,
não confio nele. Não tem um bom olhar. O coração se vê na cara mesmo, nos
olhos. Esse homem não é bom, que é tudo o que um marido precisa ser. O que vês
nele, minha filha? Somente o seu desejo de ti, teu próprio reflexo nos olhos
cobiçosos desse homem. Lúcia não te cases com ele!
Agora, estávamos ali, todos nós, nas mãos do
intruso, do homem que se insinuara em nossas vidas de maneira tão ilegítima,
como Matilde percebera desde o início. Eu era talvez um pouco culpada, por
omissão. Eu nunca compreendera aquela suposta neutralidade de Lúcia, aquela sua
anódina personalidade, a meu ver. Era, para mim, mais fácil compreender, embora
com repulsa, uma Solange do que a mornidão de Lúcia, até o momento em que
surpreendentemente me revelou o seu apoio precioso, em relação à Aline,
episódio que contei no primeiro volume destas minhas memórias. Agora nesta
situação tão difícil, eu me sentia afinal responsável por todos, até por Rôdo.
Mas que podia eu fazer, além das providências para uma possível futura captura
de Geraldo, e para salvar o dinheiro? O meu plano, como todos os planos, tinha
furos, e esse era nada menos que a possibilidade de ser violentada e morta por
esse demônio que nos ameaçava. O que ele fizera com Solange e Laís dava a
medida do que era capaz, em sua brutalidade. Eu pedi à minha querida ex-babá,
feiticeira de ervas competentíssima, que eu sempre admirara:
—Matilde, não podes ministrar uma erva dormideira
poderosa a esses homens, nem que todos nós tenhamos que tomar juntos, pois o
tabelião chegará hoje ainda com o “comprador” trazendo o dinheiro e então
separarão os bons dos maus no nosso sono coletivo? Eles acordariam na prisão e
nós nas nossas camas!
—Alma, minha guriazinha,—ela respondeu— eis
aí um plano arriscado, digno dessa tua imaginação de poeta. Queres ficar mais
vulnerável ainda do que estás? E se alguma coisa der errado e acordares no
covil do monstro, sem defesa alguma? Lembra-te do desastre daquela poção do
frei na estória que me contaste daquela Julieta, e no que deu. Não jogues com o
destino, que sempre é um tanto irônico com aqueles que pensam manipulá-lo. A
fuga, minha filha, da realidade, é o que estás pretendendo. Acordar do sono coletivo,
de cem anos, sem mais o espinheiro, nos braços de um príncipe, um presente
ideal? Fiquei envergonhada com o meu plano fantasioso, infantil, e reconheci
mais uma vez o quanto minha querida Matilde era sábia.
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Já descrevi o comportamento de quase todos
nós, naqueles momentos críticos. Resta lembrar a atuação de Alícia, que, de tão
equilibrada, pode amenizar a tensão para as queridas crianças, esmerando-se nos
gestos rotineiros ao cuidar delas, dando a impressão de que nada de anormal se
passava na casa. Ao pô-los para dormir depois do banho, eu entrava no quarto
delas para contar estórias, em que eu também me esmerava mais que nunca, ao
fazê-lo com calma e sem pressa. Depois do beijo na boquinha de cada uma delas,
eu me dirigia ao meu quarto para cuidar de Laís, que estava se recuperando, a
ponto de voltar a sentir medo, e agarrava-se a mim, querendo proteção. E eu,
com o coração apertado, a tratava também como a uma criança. Foram dias
difíceis aqueles, e iriam mudar em seguida para pior, mas pelo menos, e
felizmente, só para mim... Quando, afinal, chegou o tabelião Donato acompanhado
do falso comprador com dinheiro verdadeiro, restabeleceu-se um sorriso sinistro
na face de Geraldo e seus três comparsas, o que não chegou a produzir alívio em
nenhum de nós, que esperávamos agora o próximo passo do famigerado quarteto.
Seus olhos, depois de se deliciarem longa e repetidamente com a visão das
abundantes notas, agora se dirigiam principalmente e a mim e à Aline causando-nos
calafrios. Então, de repente, o bandido apontou o dedo para mim, dizendo:
—Alma, prepara-te, tu virás conosco. Mas não te atrevas a nenhum truque,
espertinha, pois estaremos de olho em ti. Vamos, vamos. As crianças e Laís
precipitaram-se para mim aos gritos, chorando muito e agarrando-me de tal
maneira que Geraldo e os comparsas tiveram que apartar-nos à força, produzindo
um momento de grande dramatismo, que me apertou terrivelmente o coração, como
se não fôssemos nos rever nunca mais. Eu temia agora pela minha pela minha
integridade, e até mesmo pela minha vida, pois não podia deixar de lembrar das
palavras ameaçadoras de Geraldo, de que eu seria a próxima. Minha cabeça
começou a funcionar a todo o vapor para tentar bolar um plano de fuga durante o
trajeto, desconhecido, que faríamos. Como eu esperava, botaram-me no nosso
carro (pelo menos isso), sob o olhar apreensivo de tabelião Donato, que
balbuciava protestos, e os gritos angustiados de todos os outros. Laís agarrava
minhas mãos, até dentro do carro, o que me produziu grande receio de que também
a empurrassem para dentro. Felizmente, deram-lhe um tranco que a jogou no chão
de cascalho. O carro partiu em rápida aceleração, como se eles esperassem uma
imediata perseguição, e a poeira encobriu-me a visão dos vultos queridos que
estendiam os braços e gritavam para nós, em desespero. Sentada no banco de
trás, entre dois dos capangas com suas armas, eu não poderia sequer atirar-me
na estrada, pensamento que me vinha à cabeça, já que não podia confiar na
eficácia do rastreamento do carro, ou se o resgate chegaria a tempo, pois os
capangas também me mediam dos pés à cabeça, com aparente cobiça. A única
providência, instintiva, que me foi possível tomar, foi a escolha da roupa que
eu vestia: um jeans reforçado e justo, com um grosso cinto difícil de
desafivelar, e uma meia-calça por baixo. Um verdadeiro cinto de castidade, para
dificultar, ao máximo, aquilo que eu mais temia... Pegamos a estrada que corta
a pradaria, e o motorista começou uma correria sem sentido, pois pensavam que
ninguém os perseguiria, já que confiavam que eu não me atrevera a contar para
ninguém sobre o seqüestro. Realmente, com o equipamento de rastreamento por
satélite, a polícia não precisava seguir o carro de maneira visível, e podia
traçar o seu itinerário num mapa eletrônico de um posto em Alegrete, enquanto
ia avisando os postos de fronteira. Mas eu estava preocupadíssima com o momento
da abordagem, nalguma barreira, pois estava convencida que meu cunhado iria me
matar, ao ser detido, para se vingar, já que era procurado por assassinato
mesmo, e faria pouca diferença para ele, mais uma morte nas costas. Além disso,
ele, com a maleta de dinheiro na mão, e um sorriso sinistro, ao lado do
motorista, não parava de olhar para trás com um ar debochado e ameaçador, com o
intuito de me atemorizar.
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Quando criança, eu passava longos períodos de
introspecção e devaneio literário, se posso dizer assim, na biblioteca de meu
pai. Nessas ocasiões, meu olhar adquiria um tom nostálgico e vago, que
assustava minha mãe, que me preferia, naturalmente, mais pueril e inocente,
brincando entre as flores do nosso belo jardim. Eu viajava por dentro, por
todos os períodos da História, vivendo as aventuras dos meus heróis, de ficção
ou reais, históricos (não havia distinção entre eles, para mim, é claro). Ana
Morgado, minha pobre, mãe, estranhava esse meu amor por um universo invisível e
inacessível a ela, que lhe parecia um tanto escuso, já que não podia vigiar as
minhas andanças nesse mundo imenso e intangível. Assim, ela procurava
interromper as minhas leituras, e empurrar-me para fora, para o jardim, ou até
mesmo para o pomar, que ela temia um pouco, pois ficava um tanto fora de suas
vistas. Na verdade, ela nunca pode me seguir ou vigiar, como ela queria, pelo
vasto labirinto de sendas do casarão e da estância, que era muito mais o meu
território do que dela, ou de qualquer um, à exceção de Rôdo, meu pequeno
comparsa aventureiro como eu, que o transformei em parceiro das minhas
fantasias amorosas de pequena sonhadora. Um pequeno cavaleiro, um príncipe,
para mim era fácil transfigurá-lo nesses arquétipos pueris, pois meu irmãozinho
tinha qualidades reais para isso. Rôdo sempre foi extraordinariamente belo,
viril e corajoso, desde pequeno. Além disso, ainda mais aventureiro do que eu,
no sentido real, menos mental e mais físico. Mas, no terreno da sensualidade,
nesse mundo literário de sensações, lembro-me bem do impacto que me causou um
livro que descobri na nossa biblioteca, intitulado A Carne, de Júlio Ribeiro,
autor brasileiro do século dezenove, seguidor do naturalismo de Émile Zola, e
entusiasta do Darwinismo. Ambientado numa fazenda paulista, escravagista, no
século passado, sua protagonista era uma bela mulher jovem, chamada Lenita
(Helena) que descobre sua sexualidade no espelho da natureza circundante
daquela fazenda que a hospedava. Sua sensualidade natural desabrochava de
maneira aliciante, erótica, magnífica para o leitor que acompanhava aquele
processo que se revelava perigoso e destruidor afinal, mas não de uma maneira
moralista, mas muito prática, a meu ver, surpreendentemente. No final, o
suicídio do personagem masculino, através do veneno indígena curare, é mórbido,
impressionante e insinua a figura de Lilitth, a mulher fatal, sem nominá-la
assim, mas de maneira então chocante para mim: “... rameira, prostituta vil!”
ele expira murmurando. Lembro-me que me revoltei com as palavras finais do
personagem, vítima de sua própria paixão carnal, que não soube naqueles últimos
momentos respeitar a imagem daquela que, ele, de um jeito ou de outro, amara,
julgando-a preconceituosamente, bem à maneira do machismo vigente naquele
século. Entretanto, a personagem Lenita iria ter uma ressonância interna em
mim, que descobri, assim também, minha própria sensualidade observando, como
ela a cobertura de éguas e vacas, no pasto e no curral, e me identificando
eroticamente com elas. Eu, no entanto, não pude deixar de notar a maneira um
tanto irresponsável com que a heroína, no livro, se descartou do parceiro que a
engravidara, e decidi nunca em minha vida ter esse tipo de atitude tão
pragmática e destruidora. As imagens extremamente positivas para mim dos dois
homens da casa, o Vati e Rôdo, me fariam para sempre cúmplice dos homens, que
eu não veria nunca como adversários, ao longo da vida. Naturalmente, eu sempre
soube fazer uma distinção rigorosa do homem vulgar, realmente detestável, do
homem verdadeiro, pleno e íntegro, que na verdade eu confundiria sempre, um
pouco, com os cavaleiros dos meus devaneios. Em resumo: o “príncipe encantado”.
Com isso quero dizer que sempre acreditei muito mais nos termos ideais de tudo,
do que na versão espúria do cotidiano das pessoas, miragem distorcida do real.
Para mim, o real é a beleza e a poesia, e o resto não passa de degenerescência
da visão moderna, ou das pessoas contaminadas por um falso sentido de
cotidiano, equivocado. Entretanto, agora, naquele carro em desabalada corrida
pelo pampa que me parecia, pela primeira vez, inóspito cenário ameaçador, eu
estava nas mãos de homens que eu percebia “vulgares”, por isso extremamente
perigosos para mim, capazes de me conspurcar, e ao meu mundo. Meu cunhado me
via, a mim, como uma prostituta, ou uma “lésbica maldita’, como ele dizia, o
que me doía na alma, como o pior dos insultos à minha pureza, da qual eu me
orgulhava, até mesmo com certa ingenuidade. Aquilo, aqueles homens grosseiros,
cuja presença, representada há muito tempo por meu cunhado entre nós, doía o
tempo todo, como se aprisionada num lodo imundo. Eu temia por isso, uma espécie
de martírio, se me permitem falar assim, na perspectiva de morrer nas mãos
daqueles homens, ou pior, ser tocada por eles. Eu preferiria o suicídio, nesse
caso, e imaginava um jeito de lutar com eles para obrigá-los a atirar em mim.
Não podia suportar a idéia de ser penetrada pela carne espúria daqueles
monstros da vulgaridade. Meu cunhado, preparando esse martírio, ia, o tempo
todo, dirigindo palavras grosseiras e depreciatórias a mim e à minha beleza tão
cobiçada por ele. Ameaçava dar-me como sobra aos seus homens depois de
“usar-me”, e depois aos cães. Ele queria ver-me apavorada, implorando por minha
vida, de joelhos diante dele. Percebendo ser inútil ameaçar-me de morte com os
revolveres em minha cabeça, ele agora concentrava-se nas fantasias verbais
expressas do que fariam comigo, antes de matar-me. Então, naquela situação,
ainda não extrema, pois dentro do carro em desabalada carreira, pude perceber
um laivo de hesitação, e constrangimento, se não de piedade, no brutamontes da
direita, cuja coxa, colada à minha, ardia num calor absurdo. Instintivamente
pus minha mão sobre sua perna, não com sensualidade, mas como um apelo, que
lentamente começou a surtir efeito. Esse homem, ainda jovem, de terno e gravata,
como um gangster italiano, na verdade com feições germânicas, poderia se tornar
meu aliado? Eu tive um pressentimento positivo, pois percebi a sua aversão
crescente às palavras e zombarias de Geraldo, não condizentes em nada comigo, e
minha aparência que começava talvez a amolecer aquele brutamontes, eu percebia.
Eu olhava para os seus olhos, sempre que Geraldo virava-se para a frente, e
tentava passar-lhe uma súplica no olhar, verdadeira,em meu desespero. Eu
agarrava-me àquela última probabilidade de defesa: um homem menos brutal, que
se comovesse comigo, com a minha situação... Retirei do bolso traseiro do
jeans, uma folha de papel em branco, dobrada, e puxei uma pequena caneta
esferográfica do bolso lateral, disfarçadamente e, olhando para esquerda para vigiar
o olhar do capanga da direita que olhava para fora, pela sua janela. E escrevi
rapidamente: “Salve-me e eu o recompensarei”. Ele apanhou o papel, lendo-o ali
mesmo, na minha coxa e meteu-o lentamente, disfarçadamente, no bolso, sem
gestos bruscos. Eu conseguira passar um recado, um apelo, que, eu esperava,
frutificaria. Nós nos dirigíamos rapidamente para a fronteira uruguaia. Mas de
repente, para terror meu, o motorista deu uma guinada a um sinal de Geraldo ao
avistar um atalho à direita, onde havia um bosque. E arremeteu por aquela
trilha poeirenta, saindo, portanto, do itinerário previsível, em relação ao
ponto da fronteira onde já nos devia esperar uma barreira policial, de viaturas
atravessadas na estrada. Eu fiquei mais aterrorizada ainda, pois não contava
com isso. Para onde Geraldo estava me levando? Ele então, passados dez minutos
de trilha, parou praticamente no meio do bosque. Eu estava perdida! Tinha
vontade de gritar. Creio mesmo que comecei a fazê-lo.
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Quando o sol se punha aqui no Pampa eu me sentava
na varanda e ficava toda uma hora em silêncio a observar os tons que se sucedem
com espantosa sutileza para o olho apurado que pretendo desenvolver (se é que
isso é possível) para a minha pintura. Digo isso porque a verdade é que minha
intimidade maior, desde a infância, é com as letras, isto é, com as palavras e
o pensamento poético. E talvez também com a música. Mas um dia fui interrompida
pela chegada de um peão desconhecido, homem maduro, de grandes bigodes
grisalhos caídos e olhar penetrante. Aproximou-se no seu cavalo a passo,
lentamente, e pôs-se bem diante de mim, que não me levantei da cadeira de
balanço, e saudou:
- Buenas! É a dona Alma, pois não? Já ouvi falar da
patroa... coisas boas, se me permite. - Buenas- respondi.- Em que posso servir
vosmecê? O peão pareceu quase surpreso da minha boa acolhida motivada
principalmente pelo seu “coisas boas” que me comprou de saída.. Então apeou com
calma, tirou o chapéu e continuou: - Pois bueno, patroa, meu nome é Mateus,
preciso de guarida, um pernoite somente, pois amanhã uns pau-mandados me
alcançarão se não partir bem cedo. Querem a minha pele, a senhora já viu. Estou
na dianteira, mas já semeei uns dois ou três pelo caminho, que me mordiam os tacões.
Quero evitar plantar alguns nestes prados pra não “le” dar aborrecimento, que a
patroa não merece. Surpresa por minha vez, hesitei um pouco, mas retruquei: -
Está bem, Mateus, tua franqueza já ganhou a minha acolhida. Vá procurar o
Galdério que ele te mostrará o galpão onde poderás descansar, e te levará a
ceia e o chimarrão.
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Passei parte da noite no salão lendo na mesa
de jantar com um candeeiro sobre ela. Mas não consegui me concentrar na
leitura. Meu pensamento vagava e ia até o galpão espiar o meu hóspede
inesperado. Eu o temia? Quase... Mas ao mesmo tempo estava fascinada e
intrigada. Ele não me pareceu perigoso, pois era a própria imagem da força e da
segurança. Um homem assim nunca faria mal a uma mulher. Mas os maus que se
cuidassem, pois esse homem tinha a marca de um justiceiro, era o que eu intuía.
Não pude mais me conter. Eu não poderia ficar encerrada numa noite assim no
casarão, na sala, e muito menos em meu quarto, tão íntimo e falsamente
protegido. Resolvi ir ao galpão para espionar meu hóspede. Eu tentaria
manter-me escondida, eu conhecia de longa data as frestas daquela construção de
madeira. Atravessei o jardim sem lume algum, eu não deveria ser avistada de
longe. Esgueirei-me no pomar e no trecho de campina. Rodeei a vetusta
construção de pinho que apresentava uma luminescência interna: ele devia estar
acordado! Aproximei-me pé ante pé da minha fresta predileta de onde podia ver
quase todo o interior do galpão e... fiquei estarrecida! Dentro, recostado em
sua sela sobre um toco, no chão, diante de seu cavalo cabisbaixo, Mateus
chorava. Soluçava o peão com a cabeça baixa entre as enormes mãos. Tinha
remorsos ou medo? Jamais saberei. O peão sofria...
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Lembro-me que na manhã do enterro de meu pai,
após poucas horas de sono, no final de um velório doloroso que parecia não ter
fim, eu acordei gritando, e assim fui levada, praticamente carregada ao cemitério,
como uma carpideira autêntica, cuja dor fazia uivar. Eu não me comportei como
as pessoas da minha origem nórdica, mas possivelmente, o lado português, ou
ibérico, carregado de negro, da cor sinistra do luto, da “noche escura del
alma”, preponderou na dor indizível daquela perda. Eu pensava não poder
sobreviver ao Vati, e o meu universo parecia ter desabado irremediavelmente.
Rôdo teve mesmo que dar-me uma pequena bofetada no rosto, em certo momento,
logo seguida do mais profundo abraço de minha vida, que, afinal acalmou-me. Não
pude portanto observar a dor de mais ninguém, quero dizer, de Rôdo e de minhas
duas irmãs. Mas Matilde parecia concentrar uma dor preocupada e pensativa. Ela
teria um papel maior dali por diante, responsabilizando-se pela estabilidade
mínima, do andamento espiritual e afetivo da estância, já que Solange e Rôdo
disputariam a administração financeira, aliás desastrosamente, como se
configurou mais tarde. Eu me sentia perdida naqueles dias, com se minha alma
não se encaixasse mais no corpo, adequadamente. Eu perdera a presença de
espírito. Meu irmão, tentando chamar-me à ordem, chamou-me “um belo farrapo
humano”... Agora, em meio ao medo e tensão daquela situação de seqüestro, pelo
menos eu me sentia desperta, e procurava uma saída, nem que fosse desesperada,
que incluía, infelizmente, a idéia de suicídio. Eu temia ser currada por
aqueles quatro homens, perigo real, que se aproximava cada vez mais naquela
trilha sinistra perdida no pampa. Pela primeira vez o próprio pampa me pareceu ameaçador,
desértico, inóspito. Eu não tinha a quem apelar, a não ser ao próprio capanga
que recolhera o meu bilhete sem nenhuma palavra. Eu não sabia se teria
ressonância interna, nele, o meu apelo. O carro, como disse, parou no meio do
bosque e fui retirada pelos homens e conduzida, numa pequena caminhada até uma
clareira onde cheguei quase desfalecida de tanto medo. Cai aos pés de Geraldo e
balbuciando implorei que não me fizesse mal, que não me machucasse. Eu lhe
prometia tudo, o tesouro que ele não sabia que descobríramos, e que eu lhe
revelaria o esconderijo. Eu tentava ganhar tempo. Geraldo, o tempo todo com um
sorriso malévolo, de autêntico vilão, fez então o mais surpreendente naquelas
circunstâncias: mandou seus homens amarrarem-me a uma árvore, abraçando seu
tronco, posição terrível, pois eu não podia vê-los e não sabia o que esperar.
Então ele brutalmente rasgou minha blusa deixando meu torso nu. Fez pior:
desafivelou-me com violência o cinto, e desabotoando o primeiro botão do jeans
e descendo o zíper, baixou-me violentamente a calça, com meia-calça e tudo, até
os joelhos expondo-me vergonhosamente, enquanto dava um tapa debochado em minha
nádega. Eu me contorcia amarrada ao tronco pelos pulsos, e comecei a gritar por
socorro, aos prantos, implorando a piedade daqueles homens brutais. Então
surpreendentemente senti a primeira lambada, aguda, zunindo no ar, antes do seu
ardor queimar-me as espáduas. Geraldo resolvera me açoitar. Tinha um ramo de
arbusto nas mãos, uma espécie de vara de marmelo, como eu já experimentara em
minha infância, pelas mãos de minha mãe, como corretivo por alguma travessura.
E aquele monstro sádico começou a açoitar-me as costas e as nádegas,
fortemente, com grande violência, enquanto eu gritava e tremia, gemendo,
sentindo o sangue começar a escorrer pelas minhas costas e pernas. Eu implorava
e clamava pelo Vati, por Rôdo e por Matilde, meus únicos defensores na vida,
agora tão ausentes, tão distantes. Afinal depois de uma eternidade de dor, tudo
se apagou, e desabei, ficando dependurada pelos pulsos, também ensangüentados.
Não sei quanto tempo se passou, mas voltei a mim, perplexa, sentindo
primeiramente a dor dos pulsos, e ouvindo os rumores do bosque, dos pios dos
pássaros no crepúsculo. Eu fora estuprada, além de tudo? Não sabia. Tudo me
doía, o corpo todo, e recomecei a gritar e a chorar tentando erguer-me, ainda
atada à árvore. Eu estava coberta de sangue. Eu iria morrer naquele bosque
devorada pelas formigas, como o “negrinho do pastoreio”? Juro que pensei nele
naquele momento, quando vi algumas delas subindo pelas minhas pernas escorridas
de sangue e xixi. Ai!, eu urinara, ainda por cima... que vergonha! Eu tentava
desesperadamente soltar os pulsos, que mais sangravam. Eu iria morrer ali
certamente se a noite caísse, devorada pelas formigas ou pelos animais
selvagens. Gritei, e gritei, mas minha voz saía cada vez mais fraca. Então, em
meio ao pranto e ao terror, ouvi rumores, estalidos, no bosque como a
aproximação de algo. Pensei numa onça, quase desmaiei de terror, mas pude
perceber que alguém me desamarrava os pulsos, ao mesmo tempo que me amparava
para que não desabasse. Um homem carregava-me no colo, semi- desfalecida,
caminhando até um veículo, uma carroça, ou coisa parecida, onde me cobriu com
um pala de lã, e partiu, por aquela trilha, enquanto eu adormecia, afinal,
entregue à providência, na forma qualquer que ela me tivesse chegado, pois nada
mais, de ruim, poderia acontecer, eu senti. E me entreguei a um novo sono
profundo.
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Acordei num leito agradável, embora rústico,
numa de choupana de madeira, tipicamente pampiana, de fronteira. Uma mulher
madura, loura, bonita, vestindo longa saia estampada e avental, olhava para
mim,com ar condoído, com uma chaleira fumegante na mão.
—Buenas, moça—ela disse, com a fala cantada.
Como estás? Passaste um mau bocado, guria! O homem que te salvou, está aí, na
cozinha, sorvendo um amargo, mas não sei se posso confiar nele. Moço de terno e
gravata, muito penteado, com uma pasta, e um berro que aparece o volume no seu
peito, sob o paletó. Diga logo menina quem são vosmecês? Foi esse homem quem te
fez mal, ou foi ele mesmo que te recolheu no bosque, conforme ele diz?
Instintivamente, eu disse, com voz fraca:
—Senhora, foi ele quem me salvou, sim, eu
acho, pois mal pude vê-lo antes de desmaiar. Mas... estou limpa, banhada... a
senhora cuidou de mim? –Ah! guria, em que estado chegaste! Sim, banhei-te,
estavas nua e coberta de sangue e ferroadas de formigas, algumas ainda grudadas
em ti. Temi também que tivesses sido estuprada, mas dei-me o direito de
examinar tuas partes, e não me pareceram invadidas, embora estivessem muito
molhadas, o que achei estranho, como se a guria no fundo, bem no fundo mesmo,
tivesse gostado de apanhar. Bem, isso tudo são mistérios de mulher, não é
mesmo? Tuas costas e nádegas estavam em terrível estado, com vergões e
arranhões, pois vê-se que fostes açoitada, pobrezinha. Recobri-as de um
ungüento cicatrizante, e que alivia a dor. O que fizeste para merecer isso? Traíste
teu homem? Mas, como uma guria tão bela como tu, e com esse porte de princesa
pode chegar aqui nesse estado, neste fim de mundo, nos braços de um moço tão
esquisito como aquele? Parece um bandido de cidade grande, isso é o que ele
parece. Eu ia responder, mas dei um soluço e recomecei a chorar. Mas, apesar do
pranto, consegui dizer:
—Senhora, proteja-me, eu a recompensarei,
esse homem... não sei se posso confiar nele. Ele tem uma maleta, a senhora
disse? Olha, ele está armado, senti no seu peito quando me carregou. Descubra o
que ele quer, se vai logo embora. Por quê, afinal, ainda está aqui, se já me
entregou à senhora? Por favor, descubra, tenho medo!
A mulher tocou-me a mão, carinhosamente e
abanou a cabeça. Fez um gesto de silencio, com um ligeiro chiado entre dentes,
retirando-se, como para conferir algo com o homem, instalado em sua cozinha. Eu
mal podia mexer-me, de tantas dores nas costas e nas nádegas. Eu estava
enfaixada, e untada, eu senti. Somente a região pubiana estava descoberta, Meus
pulsos também estavam enfaixados, e eu previa que uma longa convalescença me
reteria ali, naquela cabana, com aquela boa mulher, se aquele bandido me
deixasse livre e não me carregasse consigo em sua fuga, que era o que eu temia.
Ele estava com o dinheiro? O que acontecera com Geraldo e os outros dois?
Afinal, a porta se abriu, e o jovem bandido, alto e imponente, muito forte, com
seu terno e gravata, e o volume da arma numa cartucheira suspensa em seu peito,
sem desgrudar-se daquela maleta de dinheiro, que reconheci, entrou no quarto
acompanhando minha hospedeira, que ele logo pediu que se retirasse.
Aproximou-se da cama, enquanto eu tive que olhar muito para cima:
—Senhorita Alma, sinto muito o que aconteceu, não
pude evitar: o tiroteio mataria a todos nós se tentasse deter o chefe. Os
outros tinham uma metralhadora e um rifle. Alguns quilômetros à frente, afinal
deu-se o confronto, uma discussão pelo itinerário de fuga e logo pelo dinheiro,
precipitou a contenda. Estão todos mortos e apodrecendo a céu aberto, se seus
corpos não foram já descobertos. Voltei em cima do rastro a ponto de afugentar
as formigas que já atacavam a senhorita. Sinto muito, não pude evitar o
açoitamento, que me condoeu muito. Os outros me vigiavam naquele momento,
especialmente, conhecendo o meu coração fraco com as mulheres.
Diante daquelas palavras estendi-lhe a mão e
toquei a sua, enorme, capaz de matar uma pessoa com um único soco. Ele ficou
muito mais sério ainda e retirou a mão. Eu disse:
—Não sei o teu nome, guri, mas sou-lhe eternamente
grata. Eu deporei a teu favor perante a polícia, e no processo. Pressinto que
esta casa será logo cercada, tu deves livrar-te da tua arma ou correrás o risco
de ser morto, conheço a polícia daqui. Ao menor pretexto, atiram, e não vais
mais me reter como refém, pois deves-me a minha libertação completa, agora que
me salvaste, não é verdade?
O jovem, solene e um pouco rudimentar, como
um guerreiro ou um guarda costas mesmo, respondeu com sua voz grave, e sem
inflexões:
—Senhorita Alma, vou lhe devolver o dinheiro.
Está aqui nesta maleta, que deixo desde já contigo. Não tenho a menor chance de
escapar com ele. Sempre soube. Mas, a arma não, não posso entregar-te. É tudo o
que sempre tive e a carregarei comigo para sempre. Estará na minha mão no último
momento, que sei, não está longe. Quero morrer atirando. Mas nada temas: vou
afastar-me já desta casa, para não expor vocês duas ao perigo de um fogo
cruzado. Mas para isso preciso deixá-las já, antes que seja tarde. Adeus.
Aquele homem surpreendente, soldado da
fortuna, mais do que criminoso impenitente, eu sentia, afastou-se, com esse
gesto nobre, de um cavalheirismo arcaico, que me deixou impressionada e grata,
desejando sinceramente que ele escapasse ao cerco, que fugisse e... um dia,
muito à frente, me procurasse, para eu recompensá-lo. Aquela noite, acordei
sobressaltada, julgando ter ouvido tiros muito ao longe. O guerreiro, meu
salvador, de quem eu nunca saberia o nome, tinha sido cercado, tinha tido seu
confronto final? Tombara com sua arma na mão como queria, como um guerreiro do
Walhalla?
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Permaneci naquela casa acolhedora por dez
dias, já que ali não havia nenhum telefone, o que foi bom para o meu
restabelecimento, apesar da preocupação em dar notícias tranqüilizadoras aos
meus, que deviam estar em ânsias, sem pistas do meu paradeiro. A boa mulher,
dona da casa, chamava-se Júlia, era viúva, com os filhos alistados no exército,
e vivia muito bem em sua solidão. Muito maternal, adotou-me naqueles dias, como
filha, numa dedicação a toda prova, mas curiosa e intrigada quanto a minha
pessoa. Contei-lhe minhas aventuras e desventuras, que ela acompanhava com os
olhos espantados, abanando a cabeça. Ela dizia:
— Guria, que vida a tua! Como te metes em
encrencas! Mas sabe, isso é destino, e o teu, afinal é belo apesar de tudo.
Apesar do preço que pagas pelos teus privilégios. Mas o que mais me impressiona
é tua relação com teu finado pai. Esse era um homem que nunca vi! Meu marido,
era um bom homem, mas duro e seco, tinha sido militar, e tratava os filhos como
recrutas, neste fim de mundo. Afinal deve ter servido para alguma coisa pois
foram mesmo recrutados para o serviço militar e não devem estar estranhando.
Mas eu sempre quis ter uma filha, que não tive, e a tua presença aqui me traz
uma doce sensação, como uma nostalgia. És uma doce guria, apesar das tuas
aventuras, e mais me faz ver a imensidão de minha perda, não tendo uma filha
mulher. Esta noite sonhei que tinha uma, e eras tu, que tinhas voltado estranhamente
do exército, da guerra. Sabe, “A donzela que foi à guerra*”, meu avô recitava
esse romance antigo, português, para nós, e agora voltei a lembrar dele. Para
mim, voltas ferida da guerra, eu te cuido, e tornarás para outras batalhas.
Sinto que sofrerei quando fores embora. Mas, agora, vira-te de bruços que tenho
de trocar estes cataplasmas. Tu verás, minha guerreirazinha, que a tua pele
fina e branca ficará como antes, com esta receita de minha avó. Teu futuro
marido não saberá que fostes à guerra. Poderás dizer que conheceram-te somente
pelos teus olhos verdes, “que por outra cousa não”.
Adorei Júlia conhecer aquele poema medieval,
anônimo e tão pouco sabido. Ela me surpreendeu, como, aliás, sempre o faz este
meu povo do sul. Eu senti que poderia ser feliz ali com ela, e uma nostalgia de
mãe, também me assaltou. Eu percebi que era carente de mãe. Já que a minha, eu
é que rejeitara um tanto, pela minha paixão por meu pai. Pobre mamãe! Quanto
deve ter sofrido comigo, seus sonhos frustrados em relação a uma filha dócil e
acomodada, e que, ao contrário, revelara-se uma poeta doida e delirante, ao seu
ver! Solange e Lúcia nunca puderam preencher esta sua expectativa em relação a
mim, a filha que fisicamente era o seu modelo, mas que espiritualmente era muito
complexa, e não a bonequinha manipulável que ela queria. No entanto, sempre fui
doce e meiga apesar de rebelde e aventureira, o que mais a confundia e
perturbava. Ela não podia entender essa junção paradoxal de características que
ela pensava opostas e inconciliáveis. Justamente aquilo que me faria amada e
desejada por tantas pessoas, como agora por esta boa mulher que teria um
pedacinho da minha vida e do meu coração. Eu tratava Júlia com tanto carinho e
gratidão, que ela se pôs a chorar pelos cantos com a perspectiva de perder-me,
eu percebia. Ela me banhava no próprio leito, com uma esponja embebida em água
morna, fervida na chaleira em seu forno de lenha, com tal doçura e desvelo, que
me comovia, e me apegava a ela. Decidi que viria visitá-la, no futuro, para
conhecer os meus irmãos recrutas, e que os teria como uma segunda família, em
meu coração. Estou convencida de que nada é acaso em nossas vidas e que
encontros como esses são sempre providenciais, e vêm para nos ensinar algo, ou
mesmo corrigir o nosso rumo. Afinal saí do leito, e comecei a passear com ela
lentamente apoiada em seu braço, pelo seu pomar, em volta da casa, cheio de
pereiras e pessegueiros, e ainda algumas macieiras que me fizeram lembrar
saudosamente a minha própria, sagrada. Eu cobria aquela mulher de carinho, e
falava seu nome como se dissesse a palavra “mamãe”, o que ela captava,
deixando-a cada vez mais comovida. Então, no décimo dia, afinal, a polícia
chegou, com o Rôdo, Galdério, o tabelião Donato e até o meu advogado o doutor Loredo.
Cercaram e assaltaram a casa um tanto intempestivamente como se eu ainda
estivesse seqüestrada, e a polícia quase prendeu a querida Júlia, como se fosse
cúmplice dos bandidos. Tive de intervir e dar um basta naquela intrusão,
explicando tudo e abraçando muito a Júlia, assustada, na frente daquela gente
toda. Havia também uma repórter que não parava de tirar fotografias com flash.
Os jornais de Alegrete, Livramento, e até de Porto Alegre, noticiaram a minha
libertação, contando detalhes fantasiosos e sensacionalistas, inúteis e aquém
dos verdadeiros acontecimentos. O fato de eu ter sido chicoteada, produzia
sensação no público e funcionou como uma catarse, ao que parece, para tantas
mulheres “rebeldes”. Eu era mais uma vez tratada como uma heroína que tinha
sido torturada. E tanto a imprensa insistiu que conseguiu fotografar minhas
costas ainda com pequenos vestígios das lambadas. Percebi que as fotos foram
retocadas digitalmente, nos jornais, para parecerem ainda lanhadas e
inflamadas, em carne viva. Eu comecei a me sentir usada, e que o
sensacionalismo estava afinal malbaratando tudo, a começar pelo sofrimento real
pelo qual eu passara. Resolvi fechar-me em copas e não receber mais nenhum
jornalista. Mas no meio daquilo tudo, fiquei sabendo de algo que me estarreceu
e que me preocuparia sempre, daí por diante: o corpo de Geraldo não fora
encontrado, somente o seu rastro de sangue que se perdeu, num bosque, pois
caíra uma chuva de haragano, que apagou as pistas. Eu não teria mais perfeita
tranqüilidade, sabendo disso. O dinheiro do resgate foi devolvido ao Banco com
um pagamento de juro, imenso, mas numa única parcela. O banco insistia em
emprestá-lo a juros extorsivos para nós investirmos na vinha, no aumento da
produção e das instalações. Mas eu recusei prudente, ou covardemente. Não sou
realmente uma empresária... Também não deixei o Rôdo aceitar a oferta que nos
faria reféns novamente, agora dos banqueiros. Agora eu afinal estava entre os
meus queridos, e as crianças me cercavam de um carinho emocionante. Laís
grudara-se a mim. E Aline que voltara, quando soube das notícias do meu
seqüestro, disputava-me com a sua nova rival, com o perigo de uma desavença
interna, em nosso lar. Eu as abraçava apertado, igualmente, e pedia à Aline que
compreendesse, e que aceitasse o meu carinho por Laís, o meu amor mesmo, que
nada roubaria do dela. Mas, reconhecia que isso era difícil. As outras mulheres
não são como eu. São muito ciumentas e exclusivistas, e portanto, eu agora
estava prestes a me ver no meio de uma guerra entre estas duas queridas gurias.
Eu contei à Aline o que acontecera com Laís, o seu estupro, mas omitindo,
claro, os acontecimentos preliminares que levaram àquele evento trágico. Mas
Aline, disse-me mais ou menos isto:
—Alma, você anda me traindo, e não é de
agora. Você omite fatos importantes, que ocorrem com você, isto não é leal! Eu
sei que algo se passou em São Paulo quando você foi ferida, durante a nossa
mudança. E eu tenho uma grave suspeita do que realmente aconteceu. Agora é a
hora de pôr cartas na mesa. Não ficarei com você se continuar mentindo para
mim. Não me sinto bem, é como se você não me amasse mesmo de verdade. Você quer
por panos quentes em tudo, como para me poupar de algumas coisas, da feiúra,
talvez, em nossa vida. Você como poeta, como artista é uma esteticista, e quer
somente a beleza rejeitando tudo o mais, varrendo o sujo e o feio para debaixo
do tapete, não é? Não, não, você precisa confiar em mim, ou não haverá
verdadeiro companheirismo. Estamos vivendo uma relação de fundo falso, e quando
a tampa se abrir vai ser aquela caixa de Pandora que você me contou: cobras e
lagartos sairão. Talvez alguns demônios.
Eu fiquei envergonhada. Tive que admitir que
Aline tinha razão. No fundo eu era um tanto covarde e não queria perder ninguém.
Mas não é assim, afinal, a humanidade inteira? Somos todos carentes. E aquele pistoleiro
solitário ou aquela Lillith fatal, não existem verdadeiramente, a não ser como
psicopatas predadores e perigosos. Ao pensar nisso, agarrei-me à Aline,
abracei-a apertado, com um medo imenso de perdê-la, e respondi:
—Sim, sim, Aline, meu amor, minha
querida, contarei tudo, contarei tudo, mas não me deixe, não me deixe nunca ou
morrerei. Olha, fecha a porta, vou contar-te tudo, desde aquilo em São Paulo.
Mas, olha, não tenho culpa, não sou verdadeiramente culpada. Eu nunca quis
fazer o mal, a ninguém! Só quero amar, só quero o amor! Tu me conheces! (Caí
num imenso pranto, como uma menina pega em mentiras.) Afinal, entre soluços
comecei a contar:
—“Olha Aline, amor da minha vida, a verdade é
que fui violentada... estuprada pelo Pedro, naquele dia terrível, no
apartamento, no meio dos caixotes... em cima deles, na verdade. Mas,eu juro,
não fiz nada para provocá-lo, a não ser ter te tirado dele, ter te roubado a ele,
como ele disse. Ele me odeia tanto que quis ferir-me e humilhar-me, além de
possivelmente comprometer a nossa relação. Mas seu ódio não era destituído de
desejo, como se viu, tu sabes como são os homens, seu machismo... Ele sempre
acalentou a fantasia de uma ménage-a-trois, entre nós, tu sempre soubeste
disso. Pois, isso, frustrado, gerou a violência que me vitimou. E eu escondi de
ti, realmente, pelas razões que enumeraste. Tenho horror ao horror, à feiúra, à
vulgaridade, mas sobretudo à dor. Ai, a dor, Aline, não suporto a dor, em mim,
na humanidade em geral, e sempre quis viver num sonho, o que na verdade não
consigo. Mas sou uma rebelde contra a dor e contra o mal, minha insistência no
amor, na liberdade positiva, na pureza e na beleza, nisso consiste a minha
rebeldia, o meu heroísmo já apontado por alguns! Eu não me entregarei jamais. A
vida é bela! A vida tem que ser bela, e o amor vencerá tudo no final!”
Voltei a soluçar e a chorar copiosamente,
sentindo-me patética, e com uma imensa dor, insuspeitada, subindo, subindo do
fundo de mim para o meu peito, tomando-me toda, afinal, num pranto dolorido,
e... universal, eu senti, enquanto Aline me abraçava, também em lágrimas,
acarinhando-me como a uma criança. Eu desabafara, enfim!
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Fim do Primeiro Capitulo do Romance A Ara dos
Pampas
A ARA
DOS PAMPAS
Capítulo
segundo Safira, eu e os ciganos
Na
minha pré-adolescência, na estância, ganhei de presente de meu pai uma
vaquinha, a Safira, que ordenhada todas as manhãs fornecia o leite para o nosso
café, compartilhado com meus irmãos, naturalmente.
Nessa época, eu já estava empenhada em
aperfeiçoar-me no desenho, quer dizer, nas artes plásticas, e passava horas
desenhando, principalmente retratos a lápis, para os quais posavam meus irmãos
(com exceção da Solange) e outras pessoas da casa. Eu ficava horas esboçando,
apagando com borracha e retocando, a fim de atingir a semelhança perfeita com o
modelo. Para isso eu era incentivada, como sempre, pelo Vati. Aconteceu que
passou pela estância um povo de ciganos, que fez acampamento próximo ao bosque,
com permissão de meu pai, que de um modo geral aceitava a entrada de alguns
estranhos, lastreado na sagrada lei da hospitalidade cujo critério e regras
eram para mim, ainda, um mistério. Custei a perceber que eram simplesmente
baseadas na sua intuição de homem experiente, vivido e sábio. Curiosa e
fascinada por esse povo do qual só sabia alguma coisa pelos livros, como, por
exemplo, o “Notre Dame de Paris”, de Victor Hugo (romance conhecido
popularmente como “O Corcunda de Notre Dame”) que continha a maravilhosa figura
da cigana Esmeralda e sua cabrinha, eu resolvi ir ao acampamento para observá-los
de perto, para conhecê-los melhor. Sendo uma guria aventureira e destemida até
certo ponto, dirigi-me sozinha, uma manhã, com um lápis, borracha e uma folha
de papel, para o acampamento cigano. Fui recebida entre as tendas e os
carroções, logo de saída, por várias gurias de diferentes idades, que me
pareceram muito “guapas” embora um pouco sujas, eu percebi. Elas sorriam muito
e logo agarraram minhas mãos para lê-las, estendendo as suas para cobrar,
simultaneamente, numa espécie de confusão. Entre elas havia uma, de
extraordinária beleza morena, misteriosa, que sorria de maneira enigmática, um
pouco irônica, me pareceu. Fascinada, pedi-lhe que posasse para mim, para um
retrato que eu faria ali mesmo, na hora, no papel, com o lápis que empunhava. Ela
aceitou, sempre sorrindo, com um simples movimento de cabeça, e isso motivou
uma verdadeira festa momentânea, atraindo a atenção de muitos que estavam por
ali e que me rodearam, sentada num tamborete que me ofereceram, para observar o
nascimento do retrato.
Eu me senti inspirada e desenhei mais rapidamente que o normal, embora apagando
e retocando alguns traços. O resultado me pareceu magnífico, a folha de papel
me foi retirada e circulou de mão em mão, entre exclamações, risadas e sinais
de aprovação. A seguir voltou às mãos da retratada que levantou-se de sua
banqueta, e com a folha nas mãos aproximou-se de uma mesa que estava ali perto,
ao ar livre, e colocando uma espécie de salsichão sobre ela, com uma grande
faca afiada, começou a fatiar, engordurando o papel que imediatamente ficou
cheio de cortes e nódoas, sobre o meu lindo retrato, minha “obra-prima”. Eu
estava horrorizada, e comecei a protestar. A cigana (eu a chamarei Rafisa),
sempre sorrindo, respondeu-me simplesmente:
–“Tu já fizeste o desenho, agora o papel serve para
outras coisas.”
Os ciganos já circulavam e dispersavam-se,
desinteressados. Saí dali, meio desnorteada, e voltei para o casarão, meditando
muito, embora ainda chocada. Vocês devem estar pensando: o que tem a haver a
vaquinha que ganhei com essa estória, não é mesmo? Bem, apesar do meu choque e
confusão com a experiência do meu primeiro contato com os ciganos, eu resolvi
voltar ao acampamento para conhecê-los melhor. E na segunda visita, sempre
escondida de minha mãe, claro, eu percebi que algumas crianças estavam muito
desnutridas e com manchas esbranquiçadas na pele. Elas me olhavam com grandes
olhos que me pareceram tristes, e, condoída eu tomei uma decisão. Fui até o
nosso estábulo e voltei puxando a minha vaquinha por uma corda em seu pescoço e
a presenteei à mãe da crianças para que fornecesse leite para elas todas as
manhãs. Era um final de tarde e permaneci por ali, percebendo a festa que se
armava, com rabecas e um “fole” ou gaita que se reuniam, e vestidos coloridos
mais vistosos, com muitas “jóias” nos pescoços, orelhas, testas, pulsos e
tornozelos das gurias. Começaram as danças, e eu me senti inebriada pelas
evoluções ondulantes das dançarinas ao som de rabecas tocadas de maneira
pirotécnica, virtuosística.. Então (ai de mim!) puxada pelas mãos e instada a
dançar com elas, eu me percebi arrastada em farândola, até próxima a uma grande
fogueira sobre a qual de repente percebi, à contra-luz, em silhueta negra,
horizontal, girando num espeto, algo que me pareceu um novilho, ou coisa
parecida. Um arrepio entretanto me tomou, e um pressentimento. Apontei e
perguntei, quase gritando: “O quê é isso?”
E alguém me respondeu:
-“Bueno, é uma vaca, ora, vamos churrasquear, é
festa de Santa Sara Kali.”
Dei um grito e desmaiei.
Acordei em minha cama e desatei imediatamente em
pranto, inconsolável, cheia de remorso, dor, confusão. Minha mãe aproximou-se
do leito e com ar severo (ela já sabia de tudo pelo Galdério que me vigiava
sempre à distancia, e que me trouxera nos braços) e ralhou:
–Já sei, já sei, querias o bem daquelas crianças,
não é? Mas já te disse muitas vezes: “de boas intenções o Inferno anda cheio!”
Caí num pranto maior ainda. E quereria morrer
naquele momento, se não fosse o medo de ir para o Inferno. Afinal, adormeci
soluçando, e tive um sonho em que realmente estava no meio do fogo, com a
Safira, as duas, dançando e chorando nas chamas, ela girando na horizontal e
eu, bem... rodopiando dolorosamente pela eternidade. Ao amanhecer fui
despertada pelo Vati, que afagava meu rosto segurando a minha mão, e com aquele
jeito manso disse-me, pausadamente:
–Alma, tu cometeste um erro de avaliação, deste uma
criatura viva que te era cara, e que acabou vítima, eu sei. Mas consola-te, não
leve em consideração o que tua mãe disse, pois na hora da pesagem, o teu grande
coração pesará como um rebanho na balança de Deus. Não te atormentes mais.
Meu coração distendeu-se e eu sorri grata ao meu
Vati, virei-me de lado e novamente adormeci.
________________________________________________
Com meu desabafo com Aline eu tinha passado a
limpo a minha vida, e sentia-me aliviada, muito mais leve. Eu podia amar os
meus amores como nunca, e unia em meu coração todos eles, todas as criaturas
que me cercavam. Mas no terreno amoroso, propriamente erótico, que tanto prezo,
eu juntava agora plenamente, sem nenhuma culpa, Aline Laís e Rôdo, que este
último era o primeiro, que sempre estivera presente dentro de mim. Eu sonhava
juntar a todos ao mesmo tempo em meu leito, e sabia que isso aconteceria um
dia, subitamente, eu tinha certeza disso. Laís estava um tanto dividida, agora,
entre mim e Rôdo, mas eu tentava ensinar a ela que não precisava ser assim, que
nós todos éramos conciliáveis, que inúmeros amores são conciliáveis desde que
nos livremos da culpa, dos maldito sentimento de culpa e de pecado que nossos
ancestrais atrasados e escravizados, nos legaram. Mas elas, Laís e Aline vendo
a nossa liberdade, minha e de Rôdo, nossa abertura para a multiplicidade, foram
também se soltando. Nós nos beijávamos e acariciávamos uns na frente dos outros
a todo o momento, e isso nos proporcionava enorme prazer. Logo estávamos nos
banhando todos juntos, nus, no açude e no ribeirão, em locais reservados, que
pensávamos secretos, ou nunca visitados pelos peões, se é que isso ainda
existia na nossa estância, como pude perceber durante os depoimentos contra mim
no julgamento. Naqueles dias, Aline, observando o meu amor pelas crianças, a
afinidade e carinho profundos que davam o tom da nossa relação, começou a ficar
com uma espécie de nostalgia de maternidade ainda não desfrutada, se posso
dizer assim, mais do que um simples desejo de ser mãe ela mesma. Rapidamente
isso foi crescendo dentro dela, e se tornou uma espécie de obsessão, de
pensamento único. Ela dizia:
—Alma, quero ser mãe, preciso ser mãe. Estou
feliz com você e com todos aqui, as crianças são maravilhosas, mas por isso
mesmo me deixam louca para ter um bebezinho que saia de dentro de mim. Ah!
Alma, como fazer, preciso de um bebê ou ficarei seca aos poucos. Você tem a sua
arte, seus quadros, seus desenhos, seus poemas, seus livros. Eles são seus
filhos, saem de dentro de você! Os artistas são assim, suas artes é que são
seus verdadeiros filhos. Eu não tenho isso... Ai, Alma queria ter um filho seu,
mas, que loucura, você é uma mulher! Ai, Alma, começo a sofrer com isso.
Deixe-me ter um filho, com você Alma!
—Aline—eu respondi—há uma solução. Eu já
venho pensando nisso, há algum tempo. Tenho uma bela solução, se topares. Olha,
presta atenção e não reajas de imediato. Prometa que pensarás nisso: Rôdo! Ele
poderá ser o pai do nosso filho. Se eu pedir a ele, tenho certeza que me
atenderá. Tu te deitarás com ele, o que será um imenso prazer para ele, que sei
que te deseja, pois que homem não te desejaria, minha linda? Só que vocês têm
que me prometer que a criança será minha e tua, ou pelo menos de nós três
igualmente. Terá um pai e duas mães, nós o criaremos assim, com muito amor, e
será a criança mais privilegiada do mundo. Tu tens que me prometer que não
terás ciúmes dessa criança e que a dividirás comigo, além de Rôdo. Em suma, eu
te “emprestarei” ao Rôdo, e vocês o conceberão na minha cama, comigo ao lado,
acordada ou fingindo dormir, ainda não sei. E eu os estarei abençoando nessa
relação. Tu sabes, Rôdo e eu nos sentimos quase como o prolongamento um do
outro, não há ciúmes entre nós. Sei que ele topará, se eu lhe pedir. Se tu o
fizeres, se fores tu a pedi-lo sozinha, ele pensará que me estás traindo e
recusará. Conheço meu irmão.
Aline ficou um pouco espantada, pensativa.
Ela não tinha pensado nisso. Não pudera imaginar que minha cumplicidade com
Rôdo chegasse a esse ponto. Chegou a pensar que já tínhamos repartido namoradas
antes. Questionou-me, estava perturbada, confusa. Mas, a minha idéia já
germinava dentro dela, e foi divertido observar como o seu olhar sobre o Rôdo
começou a mudar. Eu a pegava olhando de soslaio para o meu irmão, observando
seus movimentos, seu rosto, seus olhos, seu porte, tudo. O mais engraçado foi
notar como ela olhava agora com mais atenção, sem perceber, para o pênis do meu
irmão, quando tomávamos banho todos juntos e nus, no riacho, no meio do bosque,
ou no açude. Também ao chuveiro que passamos a usar coletivamente, claro, como
extensão natural dos nossos banhos de rio e de cachoeira. Uma vez ela pegou
delicadamente seu pênis com dois dedos, ao chuveiro, abertamente na minha
frente e na de Laís, para observá-lo. Sua pureza era tão evidente, e a nossa
cumplicidade a quatro já tinha ido tão longe, que Laís não fez caso, e sorriu,
por incrível que pareça. Aliás, já estávamos todos prontos para o nosso
maravilhoso “ménage-a-quatre”. Entretanto Laís não sabia do nosso plano de um
filho, e isso, eu temia compartilhar com ela.
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Rôdo não fora informado da terrível violência
que houvera com sua Laís, e eu tinha um pacto com ela, de nada contar a ele
sobre isso. Não era necessário. Ele ficaria furioso e impotente quanto ao fato
consumado, e qualquer vingança era impossível, pois a polícia considerava Geraldo
morto, embora não tivesse encontrado seu corpo. Como podia ser isso? (eu me
perguntava). O delegado dissera que seu corpo, ou melhor, sua ossada, seria
encontrada um dia, pois havia um rio ali perto, e ele devia ter caído,
gravemente ferido, nas águas, e morrido afogado, sendo seu corpo arrastado para
longe dali. Mas como a polícia poderia afirmar isso? Eram tão somente
conjeturas, embora o delegado me aconselhasse a esquecer tudo, e não mais me
preocupar. A quantidade de sangue no rastro visível, os autorizava a afirmar
isso. Passados dois meses do acontecido, tive uma enorme vontade de visitar
Júlia, na sua linda choupana. Minha nova mãezinha, que cuidara tão bem de mim,
a ponto de minhas costas e nádegas não mais apresentarem qualquer vestígio da
flagelação, adoraria conhecer as minhas “amigas”, eu imaginei. Pedi ao Galdério
que aprontasse o nosso carro cujos furos de balas já tinham sido maçados e
pintados. Galdério, e Rôdo que aceitara meu convite, na manhã da viagem, bem
cedinho já estavam a postos. Partimos, animados, com o passeio, as gurias
curiosas para conhecer minha salvadora. Quando, após duas horas de viagem na
magnífica manhã ensolarada, com minhas gurias encantadas com a paisagem
pampiana, afinal chegamos naquela trilha à direita da estrada, meu coração
oprimiu-se. Eu não pensara que teria que passar pela mesma trilha cujo bosque
tinha sido palco da minha tortura e humilhação. Fiquei muito perturbada ao
passar por ali e ainda reconhecer o ponto em que o carro parou e que penetramos
entre as árvores, eu arrastada pelo pulso por aquele homem horrível, meu
cunhado e carrasco. Lágrimas rolaram dos meus olhos, e fui consolada e
acarinhada pelas minhas duas namoradas, que me ladeavam no banco de trás. Rôdo
mantinha-se em silêncio, dirigindo o carro, com o Galdério, agora como
co-piloto. Afinal, chegamos na cabana de Júlia que não tinha sido informada de
nossa vinda, pois não tinha telefone e vivia isolada. A porta estava aberta e
ela não estava em casa. Meus quatro acompanhantes sentaram-se nas cadeiras e
poltronas sem cerimônia, enquanto eu saía para procurá-la no pomar, em torno.
Mas não a encontrei. Voltei e juntei-me aos outros numa espera ligeiramente
perturbada e ansiosa. Então, depois de uns quinze minutos, entrou ela com uma
braçada de ervas. Minha maravilhosa feiticeira! Abracei-a em lágrimas e ela
parecia surpresa e feliz. Apresentei todos a ela, que a cumprimentavam com
agradecimentos por mim. Nós iríamos passar um dia maravilhoso e perturbador,
pela razão que me apressarei em contar. Não me deterei nos detalhes daquele
dia, nas conversas das meninas com Júlia e o que se passou entre elas. Só sei
que as duas a consideraram uma espécie de feiticeira benfazeja, e ficaram
maravilhadas com suas palavras e receitas de ervas. Mas o que me perturbou foi
o seguinte: Júlia me revelou, que Geraldo estivera ali, fora recolhido por ela,
caído à porta de sua cabana, baleado, entre a vida e a morte durante uma
semana, e que ela o salvara com suas ervas, poções e cataplasmas,
surpreendentemente até para ela mesma. Ela não questionara quem era ele, pois
não era a primeira vez que cuidara de um homem baleado, ou esfaqueado. Em
geral, peões feridos vinham dar à sua porta e eram cuidados por ela, às vezes
enterrados no seu pomar, com uma muda de árvore por cima. Na verdade quase
todas aquelas árvores de fruta tinham um cadáver por baixo, ela me revelou,
causando-me um arrepio. O Pampa estava me revelando, através dela, a sua face
sinistra e sangrenta. Mas ela garantia que a maioria dos feridos ela salvara, o
que no caso de Geraldo não foi um consolo para mim. Esse homem horrível, mesmo
ferido a ameaçara de morte, o que para ela não fez diferença, pois cuidara
sempre de bons e maus e conhecia o coração e as fraquezas dos homens. Ela me
segurava as mãos carinhosamente, contando coisas terríveis, sempre com a mesma
serenidade. Contou-me que Geraldo partiu, ainda não totalmente recuperado,
quando um menino, pretinho, da região, que visitava sempre Júlia, e era uma
espécie de discípulo dela, chegou com a notícia de batidas na região, num raio
de cinco quilômetros, movimentos de procura, da polícia, pelo corpo de um homem
que fora baleado há uma semana daquela data. Geraldo ainda tinha sua arma na
mão e ameaçara Júlia. Eu tinha deixado aquela casa no dia anterior ao da sua
chegada, felizmente, pois ele, talvez, mesmo ferido teria me matado ali,
naquela casa abençoada, se me reencontrasse, para evitar o meu testemunho da
sua ignomínia. Cai num choro convulsivo, diante daquela revelação, numa súbita
crise histérica. Eu não teria mais completa paz com aquele homem, aquela ameaça
a mim, solta no mundo. Fui cuidada e acarinhada por Júlia e as gurias, que se
desvelaram em me consolar e animar. Mas fiquei sem condições de viajar, de
retornar aquela noite para a estância, e pedi, então a Júlia que nos permitisse
posar em sua casa. Nós partiríamos de manhã bem cedo, bem repousados. Júlia,
que eu percebi, não me negaria quase nada, abraçou-me carinhosamente, dizendo:
– Alma, minha guria, não sabes como tenho
prazer em ter-te na minha casa. Eu na verdade te queria junto a mim, para
sempre. És a minha guria, minha filha, da qual lambi as feridas. Todos dormirão
bem, aqui nesta casa. Tenho um sótão com uma cama e um colchonete, que poremos
no chão, Vocês, gurias dormirão se revezando na cama, se não couberem as três
no mesmo leito. Rôdo e Galdério dormirão no celeiro, sobre a palha. Venha, vou
mostrar-te teu quarto. — Júlia—eu disse — quero pedir-te ainda um imenso favor.
Necessito a tua complacência para algo que talvez aches estranho. Preciso ter
um filho. Aline necessita ter um filho comigo, ou eu a perderei logo. Tu
compreendes. O apelo profundo da maternidade chegou para ela. Eu lhe propus, e
ela aceitou ser fecundada por Rôdo, meu irmão querido, que nada me negará,
tenho certeza Não tive ainda a oportunidade de falar com ele, pois a idéia é
muito recente, mas pretendo fazê-lo hoje à noite, a sós, num passeio em teu
pomar. Tenho certeza que ele assentirá. Mostra-me agora, o quarto, querida
Júlia, pois, se concordares, terei que calcular a logística. Júlia sorria
maravilhada com a idéia, como se já soubesse de tudo. Demos uma gargalhada
juntas, como duas alegres alcoviteiras, e de mãos dadas reentramos na choupana.
Subimos ao sótão, que me pareceu encantador, acolhedor e aconchegante, com um
catre, não muito estreito, em que caberia duas pessoas, tranqüilamente. Ela
começou a arrumar o quarto, e a tirar de uma arca enorme, um colchonete e roupa
de cama. Arrumamos as camas, deixando tudo pronto. Eu estava somente preocupada
com Laís que eu não teria tempo de participar e preparar o espírito. No fundo
ela seria a única enganada, naquilo tudo. Mas eu acreditava que poderia
prepará-la a posteriori, dada a sua paixão revelada por mim, que ela conseguia
muito bem conciliar com a de Rôdo, dentro dela. Maravilhosa guria, revelação em
minha vida! Aquela noite, eu chamei Rôdo para um passeio a sós, no pomar, em
volta casa, sob um magnífico céu estrelado, de lua nova. Andando pelo pomar, em
torno da casa, ouvindo o canto dos sapos e grilos, de mãos dadas com meu irmão,
uma imensa calma tomou o meu coração e eu tive a consciência daquele momento
mágico, na iminência de um pedido profundo, decisivo em nossas vidas, que
poderia até mesmo mudar nossos destinos. Então, parando subitamente e olhando-o
nos olhos que brilhavam, refletindo a lua, eu lhe disse:
–Rôdo, meu irmão, quero fazer-te um pedido.
Preciso de ti mais que nunca, para solucionares uma questão vital. Preciso ter
um filho com Aline (ele abriu a boca, estupefato, mas logo sorriu). Ela está
tomada pelo sonho da maternidade. Ela anseia por isso, seu corpo mesmo anseia
por isso. É chegado o seu momento, e ela se frustrará, ou me abandonará se eu
não puder dar-lhe um filho, que ela espera criarmos juntas. Ora, isso é
facilmente contornável, se pudermos contar contigo. Só em ti eu posso confiar,
meu irmão. Eis o que te peço: deita-te com Aline, no nosso leito, com a minha
benção. Fecunda-a, dá-nos teus dons, tua beleza e teus gens. Não será nenhum
sacrifício para ti tal empreitada, não é mesmo? (sorri). Vocês homens estão
sempre dispostos quando se trata de uma bela fêmea, em seu leito, não? Rôdo
sorriu e seus olhos brilhavam, comovido, beijando as palmas das minhas mãos. E
disse:
—Claro, Alma, minha irmã querida. O que eu
poderia te negar? Entendi tudo. Mas falta saber qual será o meu papel perante
essa criança, depois de nascida. Não sei se estou preparado para ser pai...
—Rôdo, a criança que nascer, terá de ser a
mais privilegiada do mundo. Tu me conheces. Não quero ninguém vítima de nada, a
começar pela criança, é claro. Ela terá um pai e duas mães, que a compensarão
pelas tuas longas ausências, revezando-nos nos cuidados sobre ela. Tu poderás
viajar com Laís, e sempre retornarás para ver teu filho, e dar-lhe a referência
masculina, de pai, que ele, naturalmente necessitará. Sei que o meu plano pode
dar certo. Temos tanto amor para dar, não é, meu irmão? O Vati propiciou isso
em nós, com seu imenso carinho e liberalidade. Sei que seremos todos felizes,
muito mais ainda com um bebezinho entre nós. O único que me preocupa, é Laís
que não terei tempo de preparar, de pedir-te emprestado a ela, como te estou
emprestando à Aline. Mas sei que ela também me ama, e será generosa comigo. Não
posso naturalmente, deixá-la de fora desse projeto, que é coletivo, por assim
dizer. Ele envolve pelo menos cinco pessoas, contando com Matilde que nos
ajudará a criar nosso filho, como ajudou a nos criar. E ainda as crianças, que
serão como irmãos desse bebezinho. Ai, como tudo isso pode ser belo! Começo a
ficar entusiasmada! Então, aceitas, meu irmão?
Rôdo me abraçou dando uma gargalhada alegre,
e ficamos muito tempo assim, rindo, divertidos e felizes com a minha idéia e
nossa cumplicidade a toda prova. Eu me sentia plena, como se também estivesse
grávida. Só faltava preparar o terreno para aquela noite maravilhosa, de
fecundo sonho, de semeadura, de plantio.
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Outrora às vezes me batia aquela angústia, e eu
pedia para o Galdério selar a minha égua baia e saio por estas pradarias em
direção ao nada, ao sul... de mim mesma. E punha minha montaria num galope
doido, até a pobre ficar exausta e recusar-se a prosseguir nesse compasso. Aí,
já estava muito longe do casarão, e meio perdida. Mas minha égua, Altamira
sabia sempre retornar, e eu soltava a rédea para ela nos conduzir, voltamos a
passo, lentamente e chegamos em casa ao cair da noite. Entretanto, um dia, fui
parar numa propriedade desconhecida para mim, com árvores frutíferas,
macieiras, pereiras e cerejeiras em volta de um chalé modesto, mas encantador,
com um ar acolhedor, com a chaminé fumegando, denunciando proximidade do
jantar. Apeei, amarrei a rédea da minha égua na balaustrada da varandinha onde
havia uma cadeira de balanço austríaca, bati à porta, esta abriu-se e uma
senhora idosa, de cabelos brancos, rubicunda, de aspecto bondoso, com uma cara
redonda vermelhaça, polonesa ou russa, me acolheu com olhinhos azuis e um
sorriso que não se desfez mais. Como é que eu nunca soubera dessa vizinha? Ela
me fez sentar à sua mesa e imediatamente, sem nada perguntar ou falar, colocou
um prato fundo na minha frente e com uma concha, de um caldeirão, começou a me
servir sopa. Eu nada disse, e sempre sorrindo também, comecei a tomar. E era
deliciosa a sopa, tomei-a com prazer, acompanhada de um grande pedaço de pão.
Ao terminar, agradeci, e ela imediatamente pegou-me pela mão e levou-me a um
quarto, que tinha uma acolhedora cama arrumada, com uma linda colcha de
retalhos coloridos e um grande travesseiro. Ela fez um gesto de dormir com as
duas mãos do lado do rosto, sempre sorrindo. Eu já estava convencida que a boa
senhora era muda. Então pedi um telefone, gesticulando como se ela fosse também
surda e a senhora me levou de volta à sala, até um aparelho de madeira, antigo,
de parede, em que consegui a duras penas ligar para estância, e avisei a
Matilde que eu pernoitaria na casa de uma vizinha nossa e que só voltaria de
manhã. Matilde quis saber mais detalhes, meio alarmada, mas eu logo desliguei,
sem muitas explicações. A senhora então me pegou novamente pela mão, levou-me
de volta ao quarto, e de pé diante da cama ela começou a despir-me com desvelo,
meticulosa e carinhosamente como se faz com uma guria, uma filha, e estando eu
somente de calcinha, ela enfiou-me pela cabeça uma camisola branca bordada, e
colocou-me na cama para dormir. Eu permanecia curiosa com tudo aquilo,
respeitando e retribuindo a mudez e o sorriso permanente daquela criatura,
tanto que fechei logo os olhos enquanto ela apagava a vela, e realmente
adormeci. Acordei bem cedinho, com o cantar de um galo, e sentindo-me
maravilhosamente bem, repousada e sem vestígio da angústia da tarde anterior.
Levantei-me e saí do quarto, de camisola, para ver a minha hospedeira. Não a
encontrei. Procurei na casa, em torno dela, no pomar e... nada. Ela não
aparecia. Esperei uma hora e... nada. Então chegou a Matilde na charrete,
abanando a cabeça e dizendo: —“Guria, tu és doida mesmo. Pensei que se tratava
da outra chácara, vizinha, da dona Estela. Lá estive e disseram-me que não sabiam
de nada, que não estiveste lá. Que fazes aqui? Não sabes que esta casa está
vazia ? A moradora faleceu há quase um ano. Como pudeste entrar e dormir aqui?
A casa permanece fechada e deve estar uma sujeira aí dentro. Deixe-me ver.
Matilde entrou comigo, viu o prato de sopa vazio ainda na mesa, o caldeirão
sobre o fogão de lenha, o quarto com a cama desarrumada, e se pôs mais
assombrada. Enquanto eu despia a camisola e vestia minhas roupas, ela dizia,
inconformada:
—Que estranho, a casa não está suja
como eu pensava! Então dormiste aqui, nesta cama,com esta camisola? Quem te
acolheu, Alma? Que mistério é esse, guria? Como era a pessoa que te acolheu? Eu
descrevi a minha amável e nada loquaz hospedeira, sobretudo sua face
“rubicunda”. Matilde empalideceu, fez o sinal da cruz, caiu de joelhos, de mãos
postas e começou a tremer. Voltamos na charrete, puxando a Altamira pelo
cabresto atrás e tremendo as duas. Meu corpo tremia, sim, mas durante todo o
trajeto, meu coração, eu sentia, estranhamente preferia continuar sorrindo.
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Para que meu plano desse certo, eu precisava,
finalmente, do consentimento de Laís. Afinal, era do seu namorado que se
tratava, e não simplesmente do meu irmão. Ela teria esse desprendimento? Como
se sentiria em relação a uma criança de Rôdo que não viesse do seu ventre? Ela
acalentava também um sonho de maternidade? De um filho seu e de Rôdo? Eu
percebi que não sabia muita coisa ao seu respeito, além é claro, de que era
muito mais doce, frágil, e apaixonada do que eu esperara, no princípio. Ela se
mostrara tão amorosa e ardente, comigo, até aquele malfadado incidente do...
seu estupro! Ah! como eu odiava aquele Geraldo que viera danificar, sujar, a
felicidade comum a todos daquela casa! Eu precisava ter as coisas em pratos
limpos. Eu sabia que todos deviam estar bem conscientes do que íamos fazer,
pois havia o risco de cobranças e desavenças no futuro, e eu seria a principal
responsabilizada. Eu não podia deixar qualquer marca de manipuladora, de
influenciadora de pessoas pouco conscientes.Por outro lado, eu estava
convencida da pureza do meu propósito, embora no fundo, ele repousasse no medo
que eu tinha de perder Aline, simplesmente por não ter um belo pênis
reprodutor, meu mesmo. Essa é que era a verdade, eu sabia. Mas, o sonho de uma
criança querida, cuidada por todos nós, também era verdadeiro, e me manteve
firme no meu propósito. Fui procurar Laís. Encontrei-a colhendo ervas com
Júlia, e pedi-lhe para conversar a sós, reparando num olhar e num pequeno gesto
afirmativo, cúmplice, de Júlia que se afastou discretamente. Eu lhe disse,
abraçando-a e segurando-lhe as mãos:
—Laís, querida, preciso do teu consentimento.
Tu deves emprestar-me o Rôdo, para que ele fecunde Aline, que precisa de um filho
meu, ou me abandonará. Provavelmente voltaria para aquele Pedro, seu ex, para
ter um filho com ele, o que seria para mim uma tragédia. Tu compreendes? Não há
nenhum outro propósito. Preciso do sêmen de um homem bom, puro e forte como só
o Rôdo é, e no qual posso confiar. Eu lhe suplico, Laís, empresta-me o Rôdo,
para isso, esta noite mesmo. Sinto que tem de ser esta noite, mágica,
propiciatória. Olha esta lua, estas estrelas! Laís ficou um instante
estupefata, surpresa, mas logo se distendeu, sorriu e levando minha mão aos
lábios respondeu:
—Alma, meu amor, é isso que me pedes? Eu
faria muito mais por ti. Rôdo sabe? E Aline? Já aceitaram teu plano doido?
Olha, que é bem original, mas é lindo, e... excitante! Sim, sim, percebo o
alcance disso. Oh! querida, como és inteligente! Sim, sim, esta noite! Mas
quero ver, quero estar presente, devemos estar todos juntos, será uma
celebração do nosso amor. De nós quatro! Eu quis morrer de felicidade com a
reação positiva de Laís. Agarrei-a e cobri-a de beijos, às gargalhadas e
gritinhos, rodopiando como duas gurias travessas. Eu estava plena,
transbordante de amor. Minha alegria e meu amor se uniriam ao sêmen de meu
irmão fecundando a minha Aline, que teria um bebê que seria legitimamente de
nós quatro, que o planejáramos com tanto amor e desprendimento. O mais legítimo
dos filhos! Beijei mais vezes minha Laís, e corri então para o planejamento
final, da cerimônia preparatória da fecundação, que seria presidida por Júlia,
que já recolhia as ervas para isso mesmo. Subimos as três ao sótão, e Júlia
começou a queimar ervas num recipiente de metal. Fumigou o sótão, e desceu a
escadinha de costas para defumar a cabana toda. Depois, subiu novamente e
começou a colocar pequenos maços de ervas estrategicamente nos quatro pontos
cardeais do quarto. Enquanto o fazia, recitava versos numa língua desconhecida,
que me pareceu uma espécie de dialeto do alemão, arcaico. Eu estava
impressionada e comovida, queria apreender aquilo tudo e planejei um futuro
estágio com essa mestra da feitiçaria branca, benfazeja. Eu estava numa
estranha euforia, que duraria aquela noite toda. Júlia terminou a cerimônia
propiciatória, colocando flores no quarto, não como enfeite, eu senti, mas como
algo mais profundo e também em pontos determinados, e finalmente em cima da
cama, esparzidas. O quarto todo respirava a fragrâncias de ervas e flores, mas
de maneira suave, agradável, nada carregada. Então Júlia saiu, e voltou
trazendo dobrada, uma camisola branca, leve, parecida com uma túnica, e
despimos Aline, que nua, tremia de emoção, não de frio, naquela noite quente,
agradável. Vestimos, pela cabeça, aquela túnica em Aline que ficou linda, como
uma donzela na sua noite de núpcias. Ligeiramente transparente, aquela veste
insinuava o púbis delicado de Aline, com sua penugem negra, de uma forma
irresistível, convidativa. Senti que o Rôdo ficaria louco de desejo por ela.
Aliás eu já percebera seu desejo, discreto, em relação à Aline, há muito tempo.
E naquela mesma noite, quando lhe fiz o pedido, ao abraçar-me, eu já percebera
entre minhas coxas, sobre o vestido, o volume avantajado do seu pênis, que
ficara imediatamente túrgido, com a perspectiva de tanto prazer para aquela
noite. Os homens são assim... Afinal, reunimo-nos todos, menos Júlia, que se
retirara para levar, até o celeiro, uma manta para o Galdério, que dormiria ali
sozinho, o pobre. Em seguida ela se recolheria ao seu leito. Quase
cerimoniosos, olhávamos uns para os outros. E então Laís deitou-se no
colchonete estreito e eu deitei-me junto com ela abraçando-a por trás, mas
olhando para o leito de Aline e Rôdo. Eu queria ver tudo, não conseguiria
pregar os olhos, enquanto acariciava a cabeça de Laís, que fechou os olhos,
sonolenta. Logo adormeceu, como uma criança aconchegada em meus braços. Aline deitou-se,
estava em seu período fértil, tudo tinha sido planejado e retirando a túnica,
jazeu estendida, um tanto tensa, abrindo lentamente as pernas, olhando Rôdo nos
olhos. Este despiu-se, e admirei mais uma vez, na suave penumbra do quarto,
cuja janela aberta deixava entrar o fulgor da lua, as formas viris de meu
irmão, seu corpo muito branco, em que só a cabeça e os braços eram bronzeados
pelo sol do pampa. Seu membro, que sempre fora avantajado, estava imenso, em
riste, como uma lança, um pouco ameaçador, eu achei, enquanto Aline o olhava
fascinada, mas com um pouco de medo, eu percebi, dado o tamanho descomunal
daquele instrumento. Rôdo foi descendo sobre ela, mas como homem experiente que
era, deslizou suavemente por aquele lindo corpo, suas grandes mãos agarrando os
seios de Aline, recobrindo-os inteiramente, enquanto mergulhava sua cabeça
entre as pernas da minha amiga, que começou a suspirar alto, despertando Laís,
que olhou fascinada Nós duas nos sentamos, então, como espectadoras, e ficamos
assistindo, atentas a todos os lances. Meu irmão tinha um profundo conhecimento
da anatomia, das necessidades e preferências eróticas da maioria das mulheres.
Ele titilava com a língua, hábil e incansavelmente o clitóris de Aline, cujo
sumo abundante, já escorria de sua linda vagina rosada, sobre o lençol. Eu me
erguera e acendera a luz para perceber tudo isso. Não poderia deixar escapar
nada, nenhum lance. Percebi que Laís também queria assim, todos queriam assim,
na verdade, às claras, como um sexo coletivo, como a celebração do amor e da
fecundação que era de todos nós. Sentindo isso, Rôdo continuou, introduzindo
sua língua nos dois orifícios rosados de Aline, que gemia cada vez mais alto,
em múltiplos orgasmos, enquanto os sapos e grilos, lá fora, pareciam também
aumentar seu alarido, os cães a uivar e a latir ao longe. Uma sinfonia tomava
todo o ar, eu senti, e então, num mesmo impulso com Laís, nos precipitamos e
agarramos o imenso falo de meu irmão e o conduzimos, com as mãos,
diligentemente, insolitamente, para a fenda rósea de Aline que deu um grito de
surpresa, de alegria e prazer, enquanto o macho glorioso, como um touro
reprodutor da nossa estância, explodia seu sêmen viscoso, branco e abundante,
na vagina da fêmea receptiva e também gloriosa. Então, caiu em seu peito
extenuado enquanto eu e Laís, nos largamos, e embolamos sobre eles, naquele
catre um tanto estreito, para adormecermos todos juntos e nus, enroscados, numa
comunhão única, que talvez nunca mais se repetisse.
___________________________________________
Ao amanhecer, acordei novamente no chão,
sobre o colchonete, enroscada em Laís, com minha coxa entre as dela, molhada de
suor e de seus perfumados sumos. Creio que a possuíra durante uma parte da
noite, durante muito tempo, mas não me lembrava bem, estando meio confusa.
Olhei para o leito de Aline, e encontrei-a só, adormecida. Então subi no catre,
sem despertá-la, e ajoelhada ergui seus quadris, colocando seus tornozelos nos
meus ombros, e levantando-a mais e mais, fiquei com sua vagina próxima do meu
rosto, ela praticamente de cabeça para baixo, a bacia bem erguida. E assim
fiquei durante uma hora inteira, ela adormecida naquela posição, enquanto, eu,
distraída, cantarolando uma antiga canção de ninar, auria o perfume híbrido de
sua vagina repleta do sumo fecundante do meu irmão. Eu estava louca? Não! Meu
poderoso instinto me dizia que era preciso fazer aquilo. O sumo branco de Rôdo
tinha que ser ajudado a descer, até a abertura do útero da minha amada. Eu
sentia que devia fazer isso, ajudar... não sei por quê. Puro instinto, ou
desejo de controle, total, de tudo? Jamais saberei. Obscuros são os desígnios
do nosso inconsciente profundo, do leito insondável daquele rio subterrâneo da
alma que nos conduz a nós mesmos, às nossas raízes mais profundas, ancestrais.
Eu sentia que já tinha feito tudo aquilo em uma época remota, como escrava de
uma rainha talvez pouco fértil; uma memória vaga daquilo me assomava a
consciência, como o último sonho do despertar da manhã.
____________________________________________
Ao descermos, Aline, Laís e eu, com as roupas
de cama, sujas, nas mãos, com o intuito de lavá-las no ribeirão, e enfim, para
o café da manhã e para o banho de despedida, encontrei Rôdo e Galdério, no
jardim, lidando com o carro, preparando-o para a viagem, enquanto sorviam um
chimarrão cada um. Júlia saudou-nos carinhosamente abraçando-nos demoradamente
e sussurrando coisas nos nossos ouvidos. Essa mulher maravilhosa disse a coisa
certa a cada uma, que sentíamos que devíamos manter em segredo. A que me coube,
só revelarei no final desta narrativa. Depois conduziu-nos ao ribeirão onde nos
desnudamos, lavamos as roupas de cama, que ostentavam lindas e cheirosas nódoas
(que aspirei longamente, antes de mergulhá-las no rio), banhamo-nos em águas um
tanto frias, austrais. Isso nos deixou despertas e animadas, brincando de jogar
água umas nas outras, aos gritinhos como crianças, logo correndo, peladas pelas
margens, fugindo umas das outras, até que Júlia chegou com toalhas e nos
envolveu e esfregou, aquecendo-nos. Jamais esquecerei a beleza e a delícia
desses momentos. Serviu-nos, então, para nos aquecer, um maravilhoso vinho que
não soubemos de onde veio, e sobre o qual ela fez segredo. Senti que era um
brinde que ela nos fazia pela nossa maravilhosa e estranha noite. Ela disse,
com surpreendente humor, e erguendo sua taça:
—A vosmecês, gurias! Meu marido francês
dizia: “ La vie est belle, les femmes sont chères, et les enfants... faciles a
faire!” Caímos numa imensa gargalhada Após o delicioso café da manhã, com
tortas, bolos e geléias caseiras feitas por Júlia, chegou a hora da despedida.
Júlia mais uma vez abraçou a cada um, menos Galdério, talvez por hierarquia,
mas ao qual presenteou com uma faca gaúcha de churrasquear, que fora de seu
marido, coisa que muito o honrou. Galdério a colocou na cintura e disse-lhe:
“Buenas, senhora, pode contar com este peão, para o que der e vier”. Afinal
partimos, já com saudade daquela choupana deliciosa, para onde eu sentia que
poderia voltar, que seria feliz e acolhida ao seio por uma mulher de imensa
maternalidade, integral, telúrica, antiga como este pampa, cujo sangue da terra
lhe corria nas veias, embora fosse germânica, francesa alsaciana, celta e...
druidisa. _____________________________________________
Estamos, já há uma semana, em casa. E a vida
parece ter retomado seu fluxo normal, com o nosso cotidiano de pequenas
alegrias e prazeres, mas também de discreta expectativa, subjacente em todos
nós, sobre a gravidez de Aline. Ainda não temos a confirmação, talvez seja um
tanto cedo. Precisamos esperar para ver se a sua próxima menstruação não vem.
Mas eu acaricio a sua barriga, tanto quanto ela mesma, que já ostenta um olhar
terno e sonhador, lindo de se ver. Percebo também que ela olha de soslaio, embora
distraidamente, para Rôdo. Ela deve ter gostado muito de ser possuída por ele,
mesmo daquela maneira, coletiva, sem intimidade, por assim dizer. Quanto a
Rôdo, a mesma coisa: ele a olha disfarçadamente, quando Laís está por perto ou
junto dele. Queria que não precisasse ser assim, e que nos considerássemos
todos uns dos outros, para sempre, e que aquela nossa experiência não fosse
alguma coisa isolada, de exceção. Confesso que ter visto, assistido e até
participado da fecundação de Aline, foi para mim algo imenso, ousado e
excitante. Eu amei aquilo, e não quero jamais me arrepender... quero dizer, não
suportaria perder de alguma forma Aline por causa daquilo. Aline se apaixonar
por Rôdo, de uma maneira mais forte, mais profunda, do que está apaixonada por
mim? Não, não posso pensar nisso. Não posso pensar na idéia de ela deixar de me
amar, ou de estar apaixonada por mim, como eu por ela. Meu plano tem que dar
certo. Tem que dar certo. Às vezes, temo que eu tenha sido manipuladora, e que
o Destino, ou Deus, me puna por isso, embora eu não veja pecado, crime ou culpa
em meu plano. Uma inseminação artificial seria uma coisa hipócrita, em relação
a uma pessoa como eu, e com uma relação como a minha com meu Rôdo e minha
Aline. Então porquê penso isso? Creio que a minha imaginação literária, de
poeta, se antecipe sempre aos fatos e relacione tudo com tudo. Tavez minha
crença em destino, contribua para isso, embora eu tenha muito medo de perder a
minha felicidade, e de uma verdadeira tragédia acontecer em minha vida. Vocês,
leitores, já repararam que nem o estupro, a prisão, a humilhação sexual, e a
flagelação frente a testemunhas, representaram uma verdadeira tragédia para
mim, embora tenham me feito sofrer muito e derramar muitas lágrimas. Mas creio
que nada disso atingiu o cerne da minha integridade, nada disso foi capaz de
diminuir meu imenso amor próprio, ou, até mesmo, o meu orgulho. Pode até
parecer “machismo” o que vou dizer, mas parece que o fato de ser mulher me
tenha feito absorver ou tolerar tais humilhações, que se fosse homem, me teriam
destruído. Talvez séculos de violências e invasões tenham nos tornado, a nós
mulheres, paradoxalmente, mais íntegras e menos destrutíveis pela violação,
freqüentemente cotidiana, imposta a nós pelos homens. Mas, também pode ser que
isso se deva a minha natureza de poeta, de artista, que me faz ser tão auto-
condescendente com tudo que não atinja o cerne de minha arte, que na verdade me
parece mesmo indestrutível, por ser a própria alma.
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Minha avó alemã tinha muito de feiticeira,
coisa comum entre as camponesas de sua região natal. Lembro-me de que sua
figura me impressionava, e nem sempre positivamente. Meu pai, naqueles dias de
recém chegada de Novo Hamburgo, para morar definitivamente na estância de meus
avós, mostrou-me, creio que não por acaso, uma reprodução num de seus livros de
arte, de um desenho de Hans Baldung Grien (1480-1545), pintor renascentista
alemão, que representava magnificamente, de maneira muito viva e dinâmica, três
bruxas nuas, sendo duas jovens e uma velha, todas de longos cabelos, uma delas
de pé, frontal, com um penico fumegante ou mesmo em chamas, erguido na mão, bem
alto e com um pé nas costas da outra, também jovem, esta apoiada num só joelho,
e contorcida, no chão. Pois bem, a velha bruxa, cujo sexo, flácido, era mal
disfarçado pela posição da perna da jovem, era o retrato fiel de minha avó
camponesa, e fiquei ainda com mais medo dela depois de ter visto esse desenho.
Mas o que estariam fazendo as três bruxas nuas, naquelas atitudes, de dança
macabra ou ritual lúbrico, captado pelo olhar onipresente do artista? Sim,
porque a conotação sexual, erótica, era evidente no desenho, na nudez daquelas
mulheres, captadas com realismo e em movimento frenético. Obras como essa me
deram, muito cedo, uma consciência precoce da profunda natureza erótica e
animal das mulheres, feitas para o sexo, e para reprodução, e que tanto mais
belas quanto mais conscientes disso, ou assumidas, se tornam. Por isso mesmo,
eu me fascinei muito cedo pelas mulheres livres, pelas cortesãs e prostitutas
míticas da história, procurando seus mitos e biografias na biblioteca de meu
pai: Lilith, Frinéia, Safo de Lesbos, Cleópatra, Messalina, Taís, Bianca
Capello, Lucrécia Bórgia, Artemísia Gentileschi, Lola Montez, Gaspara Estampa,
Adèle D’Affry (a duquesa Castiglione-Colonna), Florbela Espanca, e tantas
outras. Muitos anos mais tarde, recentemente, meu descobridor e prefaciador
paulista, o poeta, pintor e desenhista Guilherme de Faria, mostrou-me um
desenho de sua autoria, feito quando era muito jovem, a bico de pena, que
também representava de maneira magnífica e igualmente dinâmica uma cena
similar, de dança lúbrica de feiticeiras, que faço questão de reproduzir aqui,
embora seja tenebroso. Mas, é claro, sempre temi o lado escuro da alma, e
procurei me manter distante de toda obscuridade ou malignidade, de uma maneira
quase supersticiosa, quero dizer, com receio de que essas coisas pudessem vir
até mim, por elas mesmas, atraídas justamente pela minha luz, minha beleza e
minha pureza ( me perdoem a imodéstia dessa colocação). Sim, porque
naturalmente, na infância, eu amava a Branca de Neve, a Rapunzel e a
Cinderella, como a maioria das meninas, mas mais do que isso, eu me
identificava com elas, acreditando mesmo, ser a minha história verdadeira, a da
minha alma. Minha mãe deixava, ou melhor, fazia questão que eu usasse os meus
cabelos louros arruivados, muito compridos, até a cintura, de maneira já
demodée, entre as meninas da época, mas que todos achavam lindo. Além disso,
havia a tendência de me embonecarem em vestidinhos de princesa, igualmente fora
de moda. Não admira eu ter crescido assim, com este ego desmesurado, e um tanto
mimada, que não obstante, me conduziu para uma atitude amorosa reverente e
apaixonada para com os eleitos do meu coração. Quando amo, torno-me até mesmo
subserviente, colocando o objeto amado acima de mim, e não na mesma altura,
embora não se possa dizer que eu sofra de baixa auto-estima, ou seja
propriamente uma co-dependente, conceito bastante atual, cuja sintomatologia
vem sendo bastante estudada nos dias de hoje. O que significa isso? De onde
virá essa paixão, cuja nota secreta, masoquista, já me surpreendeu tantas
vezes? Não consigo deixar de pensar, por exemplo, nas palavras de Júlia, quando
me revelou, en passant, que surpreendeu-se ao examinar, quando cheguei
desfalecida em sua casa, “minhas partes”, quer dizer, minha vagina, constatando
estar ela inundada de fluido, evidenciando prazer ou preparação para o prazer.
Eu acabara de ser açoitada, e a dor e o medo pareciam ter preponderado, mas...
terei, então, sentido prazer naquele imenso sofrimento físico de um momento?
Tenho medo de mim mesma... No entanto, esse lado obscuro, que sinto em mim, não
chega a me envergonhar, o que não deixa de ser surpreendente, embora
compreensível, dada a perturbadora escolha da minha alma, no terreno sexual,
profundo. Mas, por outro lado, isso não se dará com quase todas as mulheres, de
maneira não assumida ou consciente, como, ao contrário, acontece comigo?
Entretanto, tenho saudades da minha inocência...
Quando guria, ainda em Novo Hamburgo, antes de
mudarmo-nos definitivamente para a estância, eu, e Rôdo aproveitávamos ao
máximo o casarão em que vivíamos, quase sem sair à rua, além do período
escolar, graças a um imenso quintal com jardim, horta, pomar, e muitas flores,
que chegavam até um imenso muro de pedras que era o limite intransponível, dos
nossos “domínios”, como gostávamos de falar, entre nós, pomposamente, quando
fantasiávamos de nobres, nas nossas brincadeiras. Eu era, naturalmente, sempre
uma princesa, e Rôdo o meu fiel cavaleiro, já que nunca era o irmão somente,
mas o amado. Sim, era intransponível o grande muro, pois nos era proibido
galgá-lo, transpô-lo, como uma das poucas regras peremptórias do nosso pai. Ou
era de nossa mãe, esse mandato? Não sei bem. O fato é que esse muro
representava, ou ocultava um mistério, que instigava nossa curiosidade. Do
jeito que o Vati nos criava, essa restrição nos parecia instigante, e não
demoraríamos a transgredi-la. Uma noite, fui ao quarto de Rôdo, que ficava, por
sua escolha, na pequena mansarda do casarão, pois era o único menino, enquanto
eu tinha que dividir o quarto com minhas duas irmãs. A Mutti não queria que eu
subisse à mansarda em momento nenhum, sendo essa, outra restrição que eu não
respeitava. Ela, na certa, temia algo que naturalmente se passava entre nós, a
nossa profunda cumplicidade, eu supunha. Ali, naquela noite sentada na cama de
meu irmão combinei com ele transpormos o muro, na noite seguinte, quando todos
tivessem se recolhido aos seus quartos. Assim combinados, na noite seguinte, eu
esperaria Solange e Lúcia adormecerem, e sairia do meu leito, pé-ante-pé, para
encontrar-me com ele no fundo do quintal. Ele daria um rápido assovio, cuja
modulação combinada era a nossa senha, pois necessitávamos uma certa
ritualização para a nossa aventura, que estava, é claro, dentro do contexto de
nossas fantasias cavalheirescas. Era uma noite quente, de verão, eu trajava um
vestido leve, e meus indefectíveis sapatinhos de verniz, que ficariam esfolados
ao escalar o muro. Rôdo fez-me subir nos seus ombros depois de fazer um estribo
com as mãos para eu apoiar meus pés. Devo dizer que Rôdo aproveitou para
empurrar-me pela bundinha, por baixo da saia, com evidente intenção, que me
produziu uma espécie de cócegas, agradável, eu achei. Mas eu estava tomada pela
curiosidade e emoção da aventura, pela perspectiva de conhecer o lado obscuro
do quintal, da quadra, do mundo... ou simplesmente do vizinho desconhecido.
Logo estávamos no quintal de uma casa estranhamente iluminada com luzes
vermelhas, um tanto escura, mas que, misteriosamente, não parecia soturna, e
sim alegre, pois vindos de dentro ouviam-se risos, gargalhadas e suspiros nada
tristes. Eu estava excitada, e meu coração batia acelerado. Dei a mão a Rôdo, e
caminhamos em direção à porta dos fundos. Assim que adentramos, ali, numa
fascinante cozinha, fomos interceptados por uma moça espantosa, muito pintada,
com os seios praticamente de fora, e roupas transparentes, que fumava um
cigarro com piteira, coisa que eu jamais vira antes. Com um ligeiro ar de
surpresa, a moça abriu um indescritível sorriso manchado e disse:
—Ora, ora, o que temos aqui! Dois lindinhos!
De onde vocês saíram? Fugiram de casa? Ou vieram buscar seu papai?
Entreolhamo-nos, confusos, intimidados, Rôdo e eu, e de mãos dadas batemos em
retirada, saímos correndo pelo mesmo percurso, sentindo-nos perseguidos pela
gargalhada da moça, uma gargalhada estranha, que anos depois eu iria
identificar como “vulgar”, mas que naquele momento me soou assustadora.
Galgamos aquele muro de volta, pelo mesmo método, mas com maior rapidez, e
atravessamos nosso quintal, para logo estarmos de volta ao quartinho de Rôdo,
no sótão, para podermos conferir nossas impressões e emoções. E sussurrando,
para não despertarmos ninguém, eu tinha muitas perguntas:
—Rôdo, quem era aquela moça? Como ela conhece
o Vati? Porque ela perguntou se viemos buscá-lo? Papai estava lá? Ele não está
dormindo no quarto, com a Mutti? Rôdo, olhou-me de maneira enigmática, sem
sorrir, e respondeu-me: —Alma, acho que o papai conhece aquela casa, sim. Ele
sai, às vezes, de noite. Aquela moça sabia quem somos. Sou capaz de apostar que
ele não está em sua cama. Eu pediria para ires verificar, dizendo que tiveste
um pesadelo. O Vati te poria na cama com eles, até a Mutti te expulsar, como
sempre. Mas não vou faze-lo. Tenho certeza que ele não está lá. E prefiro que
fiques comigo, que passes a noite aqui, que durmas junto de mim. Algo me diz
que é o que devemos fazer. Vem Alma deita aqui, e vamos dormir abraçados, como
os adultos fazem. Aninhei-me nos braços do meu irmãozinho, guri magnífico, que
sabia sempre como agir, me parecia. Sabia sempre o que fazer, e quanto a mim...
sentia-me segura em seus braços, fizesse ele o que fizesse, eu sabia que meu
coração acompanharia suas ações, pela vida afora.
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Laís decidiu ir à Porto Alegre para visitar
seus pais. Disse que voltará logo, e, na partida, depois de muitos braços,
beijou-me demoradamente na boca, na frente de Rôdo, que apenas sorriu esperando
no seu novo carrinho esporte, um Jaguar, para levá-la até à estação de trem.
Aline e eu ficamos abraçadas olhando o carro partir, e depois fomos andar no
jardim, sob o calor delicioso daquele dia ensolarado, depois de eu colocar meu
grande chapéu de abas largas, pois quero manter a minha pele sempre muito
branca, sem sardas, coisa que consegui até hoje, surpreendentemente, num lugar tão
claro e luminoso como este nosso pampa. No meio das flores, de mãos dadas,
Aline virou-se para mim, e com certa brejeirice, exclamou; —Agora você será só
minha por uns dias, não é mesmo, Alma? Vamos aproveitar e você vai me contar o
que aconteceu, realmente, no seu seqüestro, salvamento, sua relação com a
Júlia, e com o bandido que a salvou. Conheço você, Alma. Eles também passaram
pelo seu leito? Conte-me tudo, não me esconda nada, sua feiticeirinha! Aquilo
me surpreendeu agradavelmente. Eu poderia contar tanta coisa para Aline, e
talvez conseguisse conscientizar, ao fazê-lo, certos pontos que eram obscuros
para mim mesma. Eu respondi: —Aline, minha linda, esta noite, no quarto, eu te
contarei tudo, e tu poderás me julgar, pois só tu sabes fazê-lo com profundidade
e sem me ofender. E se quiseres me dar uns tapas no bumbum depois de tudo, eu
aceitarei humildemente. Mas lembra-te que, sou mãe do teu filho tanto quanto
tu, hem? Por falar nisso, como vai esta barriguinha? Aline agarrou-me ali, no
meio das flores e beijou-me nos lábios apaixonadamente, enquanto meu coração
transbordava de amor e alegria. Quem poderia nos fazer mal, se tínhamos tal
cumplicidade? Mas subitamente, meu coração se nublou por uma fração de segundo,
pois a essa pergunta interna, intrometeu-se a imagem detestável de meu cunhado
bandido, cujo corpo não foi encontrado, nublando com isso a plenitude da minha
felicidade com minhas criaturas queridas. Mas, nesse instante, as crianças,
qual alegres abelhinhas, nos rodearam puxando-nos a saia, e Patrícia veio
dar-nos as mãos para passearmos juntas entre as flores, distraindo e liberando
novamente o meu coração. Começamos todos a colher flores e a tecer rapidamente
guirlandas para enfeitar nossos cabelos, entre risos pueris e exclamações
enternecidas. A beleza tinha voltado novamente aos nossos dias, e nada poderia
despojar-nos dessa nossa inclinação natural, legítima em nós. Éramos criaturas
puras, com direito à felicidade, que nada devíamos mais a reencarnações
passadas, embora no que me dissesse respeito, eu não pudesse ter absoluta
certeza disso, pois tinha sido recentemente fustigada, e parece-me que isso
sempre consiste numa punição. Não há injustiça no mundo. Eu disse para
Patrícia, num momento:
—Querida, tu precisas me contar, qualquer hora,
como vai o teu namoro. Ele já te beijou? Vais contar-me tudo, e eu te prometo
que não te darei conselhos, só ouvirei e aplaudirei, a menos que me peças. Está
bem? Patrícia, mais linda do que nunca, ninfeta no esplendor e talvez auge de
sua beleza de Psiqué, me enternecia, e até me comovia, lembrando-me de mim
mesma naquela idade, embora eu não fosse tão naïve como minha sobrinha, por
culpa talvez dos livros, que eu devorava, enquanto minha sobrinha quase nada
lia, pois não tivera um Vati como eu. Assim, ficamos naquela suave dança, por
uma hora, até Matilde chamar-nos para o almoço.
_________________________________________
Passadas três semanas, afinal comprovou-se a
gravidez de minha amiga, através de um teste de farmácia, e o sucesso foi
comemorado por todos nós, com grande alegria e brindes com o nosso melhor
vinho. Todos acariciamos a barriguinha de Aline e as crianças fizeram uma
pequena fila jocosa, para beijar o seu umbigo, em meio a muitas risadas e
exclamações. Os votos das crianças ao seu novo priminho ou priminha, eram
deliciosos e comoventes. A felicidade desses momentos atestavam desde já o
acerto de minha idéia e decisão. Rôdo olhava Aline com novos olhos, claro, e a
colocação de sua bela mão, forte, masculina, sobre o seu ventre a comoveu,
deixando-lhe os olhos marejados, coisa que não aconteceu ao meu toque. Confesso
que isso me preocupou um pouco. A relação de uma mulher fecundada com o macho
fecundante seria mais forte do que a nossa relação de amor e afinidade de
mulheres? Comecei a temer que sim. Mas a sorte estava lançada e eu não podia
conceber que Aline me tirasse a criança ao nascer, meu direito a ela, para
atribuí-lo todo ao pai biológico que era Rôdo. Sim, havia o risco, pois a
cabeça podia mudar, com a revolução hormonal que estava acontecendo naquele
corpo querido. Entrementes eu tratei de aproveitar aquela espécie de intermezzo
em nossas vidas, para pintar e escrever muito. Muitos poemas nasceram naquele
intervalo, e eu me sentia criativa e feliz. Mas devo contar um episódio
significativo daquele período. Rôdo gostara tanto da sua experiência de transar
com Aline que, naturalmente quis repeti-la. O mesmo pode-se dizer em relação à
minha amada. Eu dormia com Aline no nosso grande leito, cama de casal maior até
que o normal, como gosto, quando uma noite, senti uma presença no escuro dentro
do quarto. Por incrível que pareça não me assustei, pois tive imediata certeza
de que se tratava de Rôdo. Porque não pensei primeiro numa das crianças com
medo ou carência de mãe metendo-se quase sonambúlica em nossa cama, como
ocorria às vezes? Não sei, o fato é que na total escuridão do quarto, eu não
quis ou não me atrevi a acender a luz e senti a presença de um corpo adulto que
descia sobre a minha companheira enquanto eu imóvel, controlava a respiração,
para não deixar passar minha emoção e parecer adormecida. Senti o cheiro
adorável de meu irmão que penetrava Aline tentando controlar a sua própria
respiração, o que nitidamente era difícil diante de seu imenso prazer e emoção
que eu sentia ali, do lado, quase encostada neles. A cama começou a balançar e
logo estavam os dois gemendo e resfolegando até eu sentir um tremor súbito que
denunciou o duplo orgasmo. Triplo, eu deveria dizer, pois logo em seguida eu
própria tive o meu, pela tensão erótica daquela situação inusitada e
maravilhosa. Passados alguns segundos ouvi um estalido de um beijo rápido nos
lábios, e a sombra deslizou e retirou-se do quarto. Então coloquei como sempre
fazia, minha mão no sexo de Aline, como um movimento casual, e ela, imóvel,
suspendeu a respiração, eu percebi. Sua vagina estava inundada do esperma
adicional de meu irmão, como o “reforço” que ele queria deixar, expressão que
ele usaria, cinicamente, e que me fez rir muito no dia seguinte. Mas, naquela
noite eu dormi abraçada a Aline, degustando em minha mão, o cheiro maravilhoso
dos fluidos dos meus queridos, e essas sensações, eu sei, muito pouca gente
deve ter fruído neste mundo.
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No final de novembro as aves migratórias
retornavam ao Pampa para acasalar e construir seus ninhos, enquanto os pequenos
gaviões e corujas predavam a esmo diante de tanta fartura. Eu observava os
movimentos na terra e no ar e uma nostalgia persistia em mim, como nunca. Eu
esperava tanto daquela criança prestes a nascer, e mimava a minha Aline, com
seu lindo barrigão, que a deixava linda, com movimentos mais suaves e
delicados. Ela não andava de pernas abertas como uma “pata choca”, como
costumam dizer de algumas mulheres grávidas. Não, Aline, continuava linda e
suave, e eu sabia que sua criança, nosso filho, seria tão bela quanto ela e
Rôdo, que estava na Europa com Laís e mandava cartões postais engraçados e
carinhosos, para mim, Matilde, Aline, as crianças, e até para o seu filho que
ele prometia assistir nascer, embora eu duvidasse um pouco disso. Laís o
reteria, lá, eu pressentia. Tinha medo de perder seu homem, essa é que era a
verdade. Ela conseguira manter segredo sobre a sua violação, com medo de
perturbar sua relação com meu irmão. As mulheres são assim, eu que o diga, que
demorei tanto a contar à Aline sobre o meu próprio estupro. Afinal chegou o
grande dia, e a casa se movimentou, como outrora, no tempo dos meus avós, com
as mulheres se azafamando, com água quente, e toalhas limpas, desinfetadas, de
um lado para outro da cozinha para o quarto, em meio aos gemidos e gritos de
Aline, que talvez por influência minha aceitara ter um parto normal como sempre
fora tradição na nossa casa, como, aliás, no pampa em geral: à maneira antiga,
orquestrada pela parteira, que era a nossa Matilde, que fizera o parto de Rôdo,
há quase trinta anos atrás. Aline gritou e gritou, até todos nós suarmos frio,
menos a experiente parteira, é claro. Mas Marco nasceu, com o nome do avô
querido de Aline, Marcantonio de Marco, que assim era chamado, embora eu
preferisse o nome de Werner, de meu pai. Era um bebezinho adorável e eu o senti
meu filho imediatamente, que o recolhi nos braços, diretamente da vagina muito
aberta de minha amada, que sangrara a ponto de eu me preocupar. Matilde
tomou-me a criança dos braços e foi lavá-la em água morna fervida, numa grande
bacia ali e ao lado, enquanto ressoavam todos aqueles oh! pelo quarto, cheio de
mulheres. Sim porque fiz questão que minha sobrinha Patrícia assistisse tudo,
para se tornar mulher, um pouco mais, e conhecer a bela crueldade da vida e da
carne. Ela diria mais tarde que estudaria medicina, o que me surpreendeu.
Poucas coisas na vida são mais cruas e impressionantes do que um parto. Talvez
somente a dor da morte, e o estupro dos inocentes. Mas a disposição das pessoas
é um tanto diferente, e o alívio geral, subseqüente, quando cessam aqueles
gritos primais, os mais pungentes da vida, é próximo do orgasmo. Começava
então, mais um lindo período em nossa vida, e olhando o rostinho de Marco em
meus braços, eu me congratulava comigo mesma por ter tido aquela idéia. Um bebê
em nossa casa, depois de tudo, de salvarmos nossa estância, era a verdadeira
celebração, e também a renovação de uma família que me parecia um tanto
decadente, depois da morte do Vati, e mesmo de Solange. A propósito, eu
percebia que, de um jeito ou de outro, coubera a mim, já há algum tempo, a
liderança daquela família, dadas as ausências prolongadas de meu irmão. A mim,
ironicamente, a artista doida da família, já que Lúcia sempre fora um tanto
apagada e neutra, embora um enorme coração, mais prático que o meu. Aline
amamentava o nosso bebê ao seio, uma das coisas mais lindas da natureza. E seus
seios pequeninos tinham se tornado enormes tetas, abarrotadas de leite como a
das mammas italianas. Ela emagreceria novamente um dia? Seu sangue italiano,
vêneto, se manifestara naquela exuberância, e eu me admirava daquela
transformação, numa nova forma de beleza, percebendo quanto a natureza é sábia
e adaptável. Eu experimentava colocar, por experiência e também por volúpia, o
bebê com a boquinha em meu seio, pequeno de bico rosado, para vê-lo e senti-lo
sugar, mas Aline logo me retirava Marco dos braços, dizendo: “Ah! Vem,
filhinho, deixa essa tetinha seca pra lá, e vem mamar de verdade na mamãe”; e
eu sentia que ela, consciente ou não, queria me ferir. Comecei então a perceber
que eu teria, como um trabalho de Sísifo, de reconquistar Aline, ou conquistar
aquela nova mulher, mãe ciumenta, que aparecera, e que estava se distanciando
de mim, sutilmente. Isto ficava cada vez mais difícil, e eu temia que Aline
começasse a me odiar, por achar, surpreendentemente, que não tinha uma
verdadeira família, pois sua mãe não se manifestara, praticamente renegando-a,
lá de São Paulo, e Rôdo não aparecera para o parto, o que mais lhe doía. As
coisas estavam ficando difíceis. Eu continuava cobrindo todos de ternura e
amor, mas sentia a reação cada vez mais irritada de Aline, àquela minha
maternalidade difusa. Eu me perguntava, com o coração apertado, se iria
perdê-la em breve. Eu precisava que Rôdo viesse urgentemente, e se assumisse
como pai, ou iríamos perder Aline e o bebê que partiriam, nos abandonando, eu
senti. Afinal, que tinha Aline verdadeiramente com aquele pampa, ela que viera
do Brás, e era urbana, até a raiz dos cabelos? Mas diante daquele bebê eu me
recusava a reconhecer que tinha cometido um erro. Eu sonhara, muito alto, muito
idealisticamente, sem levar em conta as profundas raízes das pessoas, e do
instinto fundamental da maternidade, da fêmea nutris e do macho provedor. Eu
contrariara a natureza? Comecei a suspeitar que sim. Então, Rôdo voltou,
afinal, com grande atraso, acompanhado de Laís. Aline o recebeu com o semblante
carregado, com lágrimas nos olhos, atirando-lhe imediatamente uma escova do
bebê em sua testa, ferindo-o ligeiramente. Meu irmão sorriu meio sem graça e
nada disse. Aquela era uma família que corria o risco de ser classificada como
“desfuncional”. Não conseguíamos suprir os profundos anseios de “normalidade”,
instintivos também, devo reconhecer, em Aline. É claro que o bebezinho
florecia, alheio a tudo aquilo, e quando Aline passeava com ele ao colo, no
nosso magnífico jardim, eu me reconciliava com a minha idéia inicial, diante
daquela visão de paz e beleza privilegiada, sabendo que no Brás nada daquilo
existiria, e que Aline levaria isso em conta, e não nos retiraria a criança
roubando-nos o novo sonho. Rôdo, depois dessa recepção, ficou um tanto arredio,
pois nunca suportou ser cobrado por nada, em sua vida, prezando demais sua
independência. Para ele ficou claro que Aline queria dele uma responsabilidade
de pai, uma presença constante, a partir do próprio parto de seu filho, a que
ele não comparecera. Chamou-me na biblioteca para desabafar comigo: —Alma, o
que está acontecendo com Aline? Está começando a se comportar como uma burguesa
cobradora. Lembra-te da Solange? Pois é! Aquilo! Não suporto isso! Nunca
prometi nada, a não ser registrar meu filho e aparecer de vez em quando. Vocês
mulheres, tão maternais, que criem o bebê, e eu dou uma supervisionada, por
cima, para que nada falte! Estamos combinados? Gostava mais dela quando só
queria meu esperma! Quase dei uma bofetada em meu irmão. Aquela última frase
passara do ponto e soava quase cafajeste, não fora a franqueza absoluta e o
cinismo sincero e corajoso que era a marca do meu irmão, que eu costumava
apreciar. Mas respondi, pondo panos quentes:
—Rôdo, meu querido, não leve em consideração
a atitude atual de Aline. É uma atitude pós-parto, com algum atraso. Ela se
magoou por não teres vindo para assistires o nascimento do teu filho. As
recém-paridas ficam muito sensíveis e precisam da proteção do macho. Isso é uma
exigência de seu inconsciente profundo, de sua ancestralidade. Talvez do tempo das
cavernas, quando um grande urso ou um tigre de dentes de sabre poderia entrar
pela abertura. Nós mulheres continuamos com dificuldade para manejar o tacape,
que nos parece muito pesado. Tu sabes... Rôdo riu e me abraçou, já
descontraído: —Alma, Alma, continuas a mesma, sempre com as tuas metáforas, ou
com tuas anedotas poéticas. Eu te adoro, sabias? Contigo sim, eu queria ter um
filho, desde criança. Mas sei que nasceria um monstrinho, por todas as razões,
não é mesmo? Que pena! Dei-lhe um tapinha no rosto e nos abraçamos de novo,
ficando muito tempo assim olhando-nos nos olhos e dando beijinhos na boca como
dois namorados, até sentir o grande falo de meu irmão erguendo-se lentamente
entre minhas coxas, quase arrepanhando-me as saias. Então, a custo, balançando
a mão, com um assobio, e dando uma risadinha meio constrangida, bati em
retirada.
______________________________________________
Aline durante algum tempo chorava por
qualquer coisa, estava hipersensível, mas ao mesmo tempo feliz com o nosso bebê.
Eu a cobria de carinho, a ela e ao nosso Marco, criança linda e risonha, cujo
semblante revelava paz e conforto, de um modo geral, embora tivesse suas
pequenas crises eventuais de cólicas pelo leite, ou qualquer outro fator
imponderável, que nos deixava a todos atormentados e aflitos, principalmente
Aline, como mãe. Mas isso tudo era normal, e a vida na estância transcorria
agradável, pois todos nos gostávamos profundamente, e estávamos conscientes
disso. Gostar é ótimo quando se ama. É uma palavra que revela afinidade e
tolerância. Minha amiga estava realizada, na verdade, com seu bebê, e foi
amansando diante da nossa complacência, e aos poucos voltou a ser aquela Aline
adorável, de ótimo temperamento, que me conquistara desde o primeiro dia,
quando chegou no meu estúdio, contratada por mim, para posar para os meus
quadros, na verdade para suprir minha própria carência e solidão dos primeiros
tempos no meu auto-exílio paulista, como já contei no livro “Contos da Alma”,
no conto que leva o nome dela, e no meu primeiro ciclo de Sonetos. Mas mesmo
assim, diante da maternidade poderosa de Aline, eu me afastei um pouco e voltei
a ser a artista solitária, fazendo longos passeios sozinha, como se fosse o
macho da caverna, com a diferença que trazia dessas excursões, pequenas flores
dos prados, ou pedrinhas graciosas, como presentinhos para o Marco. Na verdade
eu me sentia supérflua diante do bebê, e mesmo de Aline. Talvez nosso ciclo e
minha missão tivessem terminado. Comecei a pensar assim. Rôdo fora novamente viajar,
e desta vez, Laís não quisera acompanhá-lo. Ela alegara simplesmente cansaço de
tantas viagens. Na verdade Laís se tornara mais frágil e assustada, depois
daquela grave ocorrência, que ela continuava ocultando de Rôdo e que,
recalcada, minava o seu relacionamento. Percebi também que ela queria ficar
comigo, como se apesar de tudo, se sentisse mais protegida ao meu lado. Essa
guria me amava, e começou a ficar gradativamente mais presente em meus
pensamentos que a própria Aline. Eu também a amava. Com a chegada do verão
recomeçamos a tomar banho juntas e a fazer longos passeios. Ela voltou a querer
dormir comigo, na minha cama, o que fez uma noite, sem cerimônia, saindo do seu
quarto e sorrateiramente metendo-se nua sob meus lençóis como há tempos atrás.
Aline não ocupava mais o mesmo quarto que eu, com o berço do bebê, pois
acordava de madrugada para dar de mamar. O caminho estava livre para Laís,
embora nos primeiros tempos tivéssemos desfrutado de uma gloriosa
ménage-a-quatre, que agora não era mais possível. Tudo são ciclos.
FIM DO SEGUNDO CAPÍTULO DE "A Ara dos
Pampas"!
___________________________________
A Ara dos Pampas
(Capítulo terceiro)
“O Condestável Gottfried”
O condestável Gottfried suspendeu a caçada,
entregando sua balestra ao seu escudeiro e estendendo a mão enluvada, apanhou o
bilhete que lhe trazia um pajem que chegara a galope. Leu, e em seguida amassou
o bilhete, e com ele cerrado no punho deu rédeas ao cavalo, que por sua vez
galopou de volta ao castelo. O fidalgo, visivelmente irado, cruzou a ponte
levadiça a galope, e apeando do cavalo ainda em movimento, atravessou parte do
pátio, espantando as galinhas, e saltando alguns degraus adentrou o amplo
portal, e a passos largos, como um furacão, foi direto à cozinha, onde
encontrou Lady Margareth, a inglesa que desposara, depois de um tempestuoso
caso diplomático que incluíra paixão e intrigas palacianas, e ali em frente aos
cozinheiros, copeiras e outros serviçais, homens e mulheres, agarrou
brutalmente sua esposa que quis esboçar um sorriso, mas logo assustada e
horrorizada, foi virada de costas e inclinada sobre a grande mesa da cozinha,
teve sua ampla saia e as suas sete anáguas levantadas e suas brancas nádegas
expostas. Retirando seu imenso membro rubro e vibrante, da braguilha estourada,
o duque enterrou-o de imediato e brutalmente no ânus rosado de sua mulher, que
soltou um imenso grito, sodomizando-a, ali, na frente da criadagem. Depois do
violento orgasmo, agarrou-a pelos longos cabelos ruivos e arrastou-a pelo salão
e corredores, até o quarto, onde empurrou-a sobre a cama de dossel, desfigurada
e em lágrimas, atirando-lhe por cima o bilhete amarfanhado, em seguida
retirando-se imediatamente, sem nenhuma palavra, cerrou a porta, trancando-a
por fora, à chave. Lady Margareth engravidou depois daquela noite, e durante
toda a sua gestação, corria no palácio, principalmente entre a criadagem, que
fora fecundada pelo ânus, coisa que muitos testemunharam, e que a criança
seria, portanto, “filha de Sodoma” e nasceria, literalmente “por ali.” Ao
nascer, a criança foi arrancada aos braços da mãe e entregue a um casal de
camponeses para que a criassem longe dali, mas ainda em terras do duque. Minha
avó Frida, que eu considerava uma espécie de bruxa, contou-me esta estória
quando eu tinha doze anos, sem maiores considerações pela minha inocência, para
explicar as origens camponesas de nossa família, que seria descendente, assim,
de um duque e “condestável”, como ela o designava, justificando nosso retorno à
posse de terras, embora tão distantes daquela Alemanha medieval onde estava a
origem de tudo. Nunca saberei se ela inventava aquilo, mas o detalhe da sodomia
me impressionava sobremaneira e presumo que o grotesco daquela cena se devia a
uma necessidade de minha avó de rebaixar tão alta linhagem, para tornar mais
verossímil a sua estória. Ela queria dizer que, de qualquer maneira, éramos de
linhagem espúria, pois nosso antepassado tinha sido gerado e parido “por trás”,
como os criados e camponeses acreditavam. De qualquer maneira, qualquer que
tenha sido a verdadeira história das origens da nossa família, eu não podia
deixar de admirar instintivamente o cunho folclórico de tudo aquilo, e
sobretudo, a veia satírica de minha avó, seu amor do grotesco, que ela
evidenciava entremeando sua narrativa com gargalhadas finas, cacarejantes, que
mostravam seus poucos dentes na boca horrenda e murcha. Eu tinha certeza que
estava diante de uma bruxa, mas permanecia fascinada. Muitos anos mais tarde,
vim a saber que aquilo era possível, senão provável, pois o esperma de um homem
corria longe, na sua procura do óvulo, e escorrendo sobre a vulva, a partir do
orifício anal, poderia fecundar a mulher, e que isso ocorria mais
freqüentemente, até hoje, do que as pessoas supunham. Na adolescência tive um
período de medo de sentar-me na banca da privada, pois amiguinhas da escola me
diziam que se podia engravidar, se um homem tivesse se sentado ali primeiro,
sobretudo se o assento ainda estivesse quente. Tais superstições, todas com uma
pequena base real, poderiam ter assombrado a minha infância e pré-adolescência,
não fora a sabedoria de meu pai, que desvelava e explicava todos os fenômenos
da natureza, sem roubar-lhes a poesia e mesmo a quota de mistério, subjacente a
toda vida do homem sobre a terra. Entretanto, apesar do caráter picaresco
daquela estória, minha avó também queria embasar um pequeno mito corrente na
família, e estendendo aquela sua mão ossuda, que parecia uma garra de pássaro,
e tocando meus cabelos dourados, e minha face muito branca, disse, fechando a
narrativa: —Alma, tu és a prova da parte nobre da nossa linhagem, com tua
aparência de princesa, assim como o Werner é a própria imagem do Condestável.
Quanto a Solange e Lúcia, são a parte camponesa. O Rudolf, teu Rôdo? Bem, este
é um caso à parte, que te contarei outro dia. Agora vai, vai princesinha,
brincar no pequeno reino do teu jardim, que te coube, afinal.
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Eu me dividia entre os cuidados à Aline e ao
bebê, que precisavam de mim, como mãe, e à Laís como nova amante, eis a
verdade. Aline via que Laís passara para o meu quarto e para o meu leito, de
uma vez, mas conformou-se depois que eu lhe disse: —Aline, querida, não quero
ciumeiras e disputas entre nós três. Lembra-te quando eu te dividia com o
Pedro? Pois bem, agora tu me divides com Laís. Podemos ser felizes todos nesta
casa, se jamais cultivarmos os vícios burgueses de exclusividade e egoísmo.
Lembra-te que somos criaturas de exceção! Sou uma artista e não perco tempo e
energia com disputas e ciumeiras. Lembra-te, esse é o nosso pacto, desde o
início da nossa relação. Minha querida, eu nada te roubarei, do amor que sinto
por ti e pelo bebê. Se pudermos voltar a reunir-nos todas no mesmo leito, como
naquela noite, que glória será, não é mesmo? Aline, então, abraçou-me e
beijou-me apaixonadamente, como há muito não o fazia. Entramos, depois disso,
num novo período feliz, quando nossa sensualidade chegou ao auge. Eu tinha as
duas, novamente no meu leito e freqüentemente dormíamos, as três, abraçadas na
larga cama que instalei no quarto de Aline para vigiarmos o bebê ou acordar
quando ele chamasse com seu choro, para as mamadas. Mas confesso que fazíamos
isso apenas alguns dias por semana, pois acordar toda a noite com o choro do
bebê me deixava exausta. Nesses dias, quando isso acontecia, eu levantava-me
antes de Aline, que ficava preguiçosa com minha presença ali, para fazer o bebê
calar, pondo-o para sugar o meu seio, que aos poucos começou, talvez por
somatização, a secretar uma espécie de colostro, que aliviava o bebê por um
minuto, antes dele novamente manifestar sua frustração e fome, mas dando tempo
para Aline conseguir erguer-se da cama. Mas isso, desta vez não produziu mais
ciúmes em Aline, que ficou, surpreendentemente enternecida. Mas a primeira vez
que isso aconteceu, vendo aquele arremedo de leite escorrer dos meus seios, eu
fiquei um tanto abalada, pois veio, de repente, à minha mente uma memória
profundamente recalcada, que nunca revelei antes nos meus textos, mas que
resolvi fazê-lo agora: minha filha perdida, Psiqué, morta com menos de dois
meses de nascida, fruto do meu amor por Gino, o violinista, filho do “maestro
liutaio” Bertellazzi,, e do qual contei nossa história na novela “Narciso”, da
“Trilogia Mítica”, inédita, e que termina com a descrição do meu parto. Nunca
quis mais falar disso, que me fez chorar por um ano inteiro antes de procurar,
afinal, alguém para amar, para me salvar, e que veio a ser justamente Aline,
que escolhi a dedo num cadastro de modelos, por ser mulher, bela e modelo nu de
pintores, como narrei nos meus “Sonetos da Alma”, e depois no conto “Aline”, já
publicado. Como dizia, meus seios, apesar de pequenos, ficavam doloridos e
vazando esse líquido estranho, que não chegava a ser nutriente, para o
pobrezinho do Marco. Esse fenômeno, perturbador, no início, e logo
enternecedor, não durou muito, naturalmente, mas fez-me novamente desejar, por
minha vez, ter o meu próprio bebê. Só que eu não podia confiar em homem nenhum
e não podia contar com Rôdo para isso, naturalmente. E eu comecei a devanear,
com a idéia de voltar a ser mãe, a gestar, mesmo, dentro da minha própria
barriga. Mas muita água teria que correr antes disso ser novamente possível.
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A avó Frida continuou a contar, durante um
período, a pedido meu, as histórias do Condestável Gottfried e da sua pobre
esposa inglesa Lady Margareth, que para o resto de seus dias foi possuída
somente pelo fiofó, e a seco. É claro que com o tempo, ela também,
somaticamente começou a secretar um fluido lubrificante, por ali, o que
amenizou as coisas para a coitada. Minha avó ria tanto quanto eu com aquela
estória, que desconfio que ela tinha inventado inteiramente, e começo a
suspeitar que foi dela que herdei minha imaginação literária, e meu humor
satírico, que não exploro muito, mas já denunciado por alguns. Verdadeiro ou
não, não importa, o mais incrível quanto àquela lady, foi ela ter tido muitos
filhos, depois daquele primeiro entregue aos camponeses; e pelo fato de que as
coisas não se repetem sempre da mesma maneira, a tal teoria do escorrimento de
sêmen, não colava mais, o que nos faz deduzir que o responsável por aquelas
inseminações continuava sendo o desconhecido amante de Milady, que não parecia
nominalmente na estória e cuja identidade permanece um mistério. O fato é que o
duque passou a ter uma fama de sodomizador emérito, a quem as mulheres, que
tinham dificuldade de conceber, recorriam em peregrinação, vindas de longe, de
outros castelos. Na tardou a começar a receber também camponesas, e por isso
foi considerado muito caridoso e magnânimo, sendo que essas criaturas mais
rudes freqüentemente eram trazidas pelos seus próprios maridos estéreis, e
nessas ocasiões eram recebidas no celeiro do duque, sobre a palha, para que o
cenário e o leito adequado as ajudasse a conceber. Diante da minha divertida
estupefação, afinal, de guria de doze anos, minha avó revelou o segredo
daquilo. Tudo não passava de um truque do duque que amava aquela modalidade, a
de Sodoma, e fazia parceria com o amante de sua mulher, já que ele mesmo era
estéril. Com isso, as mulheres saíam coniventes com o truque, para poderem se
vangloriar, depois, da estirpe nobre de seus rebentos, pois o cavaleiro anônimo
era de fato plebeu, camponês mesmo, mas bonitão e de impressionante virilidade
e fertilidade, possuindo uma ferramenta estupefaciente e abismal. Louvado seja
Deus que inspira no homem soluções para todos os problemas!
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Com as crianças nos rodeando, felizes, nós
três, Aline Laís e eu, tínhamos a nossa ménage, que não escondíamos delas,
confiantes de que a nossa pureza e autenticidade não destoariam, naquele
contexto familiar inusitado, mas profundamente saudável, que construíamos
instintivamente. Quantas vezes, as crianças invadiam nosso quarto, de manhã bem
cedo, subindo na nossa cama, onde estávamos, as três, ainda mal despertas, nuas
sob os lençóis! Patrícia, por emulação, querendo se sentir mais próxima e
também mais mulher, às vezes entrava debaixo dos lençóis conosco, o que me
produzia um ligeiro escrúpulo, que eu tratava de disfarçar. Afinal, nós três,
mulheres feitas, éramos amantes mesmo, parceiras sexuais bastante assumidas a
essa altura, o quanto é possível sê-lo, no ambiente provinciano de uma
estância, no extremo sul desse nosso país preconceituoso. Se Rôdo estivesse
aqui, provavelmente estaríamos formando o nosso quatrilho, como há algum tempo
atrás. O importante era sentirmo-nos felizes e irmanadas, exercitando a
sensualidade pura dos nossos jovens corpos, saudáveis e belos. Nós nos
sentíamos como jovens espartanas ou atenienses, e queríamos brincar no nosso
jardim florido, totalmente nuas, no meio das crianças, naquele verão
maravilhoso. Mas isso, infelizmente não era possível, dada as presenças dos
peões, de Galdério e da própria Matilde, que embora percebesse, mantinha-se
discreta quanto essa nossa forma de ligação e amizade sem peias. Mas, um dia,
ela me disse: —Alma, minha guria, deves tomar cuidado com o que dizem, de ti.
Desde o teu julgamento que estás na berlinda, na boca do povo, que te absolveu,
é verdade, porque se comoveu contigo. Mas aqui, perante esta peonada, deves tomar
mais cuidado do que com o povo urbano. Sabes o que dizem, não sabes? Abanam a
cabeça quando te vêm, murmurando: “Que lástima, tão bela... não gosta de homem,
que homem a quererá a sério? É mulher para uma só noite”. Vês, Alma, deves
tomar cuidado, para não te desrespeitarem. Fiquei furiosa. Quase atirei algo
que tinha nas mãos. Gritei, pela primeira vez na vida, com minha querida babá:
—Que falem, que falem! Mesquinhos! Nada lhes devo! Não sou para o bico de
nenhum deles. Eu amei um artista, um virtuose do violino, um Orfeu, um deus
grego! Não deixo por menos! E que homem, senão Rôdo, chega aos pés destas duas
mulheres? Ai! Não agüento a vulgaridade! Matilde ficou chocada com a minha
reação. Seus olhos se encheram de lágrimas como os meus. Abraçamo-nos, enquanto
eu explodia num pranto copioso. Ela me fizera ver a realidade do mundo lá fora,
da maldade do mundo que eu tão facilmente esquecia.
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Lady Margareth estava já no seu quarto
rebento, e continuava andando como pata choca, após os longos períodos de
gravidez. O povo dizia que era pela continuada técnica de Sodoma, e que seus
filhos todos seguiriam o manual. Mas a verdade é que, talvez por aquela razão,
aquele era um ducado feliz, pois tal prática, de um jeito ou de outro
aproximava o grão-senhor do seus súditos, embora por trás, coisa que não
acontecia em nenhum outro feudo. Então, após longo período de paz, em que a
população do feudo cresceu graças ao Grande Sodomita, estourou afinal a guerra
necessária, que deveria evitar a fome, com a supressão de expressiva parte da
população jovem, e a reacomodação dos mais espertos, senão dos mais aptos. A
batalha de Wolfsburg, também chamada a batalha dos lobos, pois esses foram os
que mais lucraram, com o campo de vinte mil mortos e feridos, o
Sodomizador-mór, como também era chamado, venceu seus inimigos e submeteu-os a
todos à especialidade que o consagrara, o que motivou uma revolta para além dos
seus domínios, que acabou por derrubá-lo politicamente, já que pelas armas o
vencedor era ele. O rei da Prússia exigiu sua demissão como condestável, e que
confinasse sua prática a intra-muros do seu castelo. E que fosse mais discreto,
desistindo de instituí-la como tradição de seu feudo. O duque e seu ducado
iniciavam sua decadência. Gottfried começou a definhar, com o término da Era
Feliz, que ele, paradoxalmente, iniciara com a suposta humilhação pública, ou
de copa e cozinha, de sua mulher estrangeira, de ruiva cabeleira e penugem. E
alvas nádegas. Não sei, realmente, se esse episódio me foi também contado por
minha avó Frida, ou se eu o inventei. De qualquer modo, tem tudo para ser
verdadeiro.
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Patrícia me procurou no pomar, para ter uma
conversa sobre algo que a inquieta. Olhei seu lindo rosto, de uma perfeição
comovente, com seus doces olhos de gazela, transparentes, cuja expressão guarda
aquela pureza infantil, que os seres humanos não deviam perder nunca. Ela
disse:
—Tia Alma, queria lhe fazer uma pergunta. Mas
não sei como fazê-la... é sobre ti, Aline e Laís. Foi algo que Pedrinho me
disse, que não entendi direito.
—Querida- eu disse- o quê teria o
Pedrinho dito, que te perturbou? Foi isso, o que ele disse te perturbou?
Conta-me, exatamente, suas palavras, para eu poder te responder.
—Ele disse, tia Alma, que Aline é tua namorada, e
que Laís também é. Como pode ser isso, tia Alma? Pedrinho está mentindo, não
é?
—Não, querida, não está. Pedrinho é um amor, nunca
mente, tu sabes, e gosta muito de todos nós. Elas são mesmo minhas duas
namoradinhas queridas. Não vês como a gente namora? Quando você for moça mesmo,
isto é, adulta, você vai ver que há muitas maneiras de namorar e que a gente
pode amar muitas pessoas, dos dois sexos. Desde que sejam bonitas,
principalmente por dentro. Se não, porquê iríamos namorá-las, não é mesmo?
Patrícia sorriu, deu-me um beijo, mas eu senti que a minha resposta não foi
totalmente satisfatória. Pedrinho, como típico menino, embora muito puro, teve
ter feito no mínimo um ar de mistério, ou de descoberta de um segredo, ao dizer
aquilo à sua irmã. E portanto, ficara, no ar, um tom de coisa proibida, que
minha resposta não podia levar em conta, para não levantar a lebre. Patrícia
não estava pronta para saber que sua tia perpetrava algo, que grande parte do
mundo condenava, às vezes mesmo, como abominação. Como levantar questões tão
complexas, diante de um bichinho tão ingênuo, puro e despreparado como a minha
sobrinha? Solange, a tinha preservado do contato com as realidades da vida, por
pura dominação, pois não conseguira poupá-la do mais sórdido: sua relação com
um homem sem caráter, um criminoso, sem escrúpulo que ela por fraqueza ou
ambição pusera dentro de casa, junto a seus filhos, trocando afinal insultos
violentos nas horríveis discussões, diante deles, que lhe causaram a morte,
chocante, na frente daqueles anjinhos. Mas, a verdade é que, eu percebi naquele
momento, que não tinha uma boa resposta para minha sobrinha. Nem tudo na vida
tem real explicação. Há um mistério persistente, na vida e... no coração
humano.
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Passamos um verão delicioso, onde reinou a
harmonia, entre seres que se amavam, conscientemente, e que sabiam desfrutar as
benesses e privilégios do destino. Rôdo telefonava e mandava cartões de
diferentes partes do mundo, e logo de regiões mais remotas, se é que se pode
hoje dizer isso, da Rússia, do oriente médio e depois do extremo oriente. Eu
dormia as minhas noites, feliz, nos braços de minhas duas namoradas, observando
também elas se amarem cada vez mais, o que me parecia um milagre alcançado.
Mas... havia uma sombra que me incomodava, que se insinuava em meu sono, e que
me fazia acordar algumas noites, sobressaltada, com o coração disparado.
Pesadelos que se desvaneciam antes de eu poder me lembrar deles, mas que eu
sabia a que se referiam. Uma noite senti as chicotadas nas minhas costas e no
meu bumbum. O monstro me chicoteara em meu sonho. Outra vez foi pior:
dolorosamente estuprada, meu estuprador tinha dupla face, que misteriosamente
eu não via, e no entanto reconhecia, a fusão dos rostos de Pedro e Geraldo.
Acordei sobressaltada, com o coração acelerado, e colocando instintivamente
minha mão sobre meu sexo, verifiquei aterrada, revoltada, que estava molhada, e
não era de xixi. Meu corpo me ironizava, minha alma me traía. Como poderia
sentir qualquer prazer naquela intrusão, naquela violência, naquela invasão de
minha privacidade mais íntima? Eis aí, outra dessas coisas para as quais não
tenho explicação. Comecei a ansiar pela volta do meu irmão, pois sempre pensei
nele como meu protetor, aliás, não sei bem porquê, já que nunca estava por
perto quando fui atacada. Talvez por que Rôdo, no meu inconsciente, funcionou
sempre como um arquétipo da masculinidade, já que o meu pai era mais do que
isso, era um deus. Aline, que agora sabia do ocorrido com Pedro, me abraçava
apertado, nesses momentos, condoída, com o coração apertado, e revoltada com
seu ex namorado, dizendo: “aquele monstro,.. ele me paga!”. Laís chorava junto
comigo, lembrando-se da sua horrível violação. Como podíamos, na verdade ser
completamente felizes, com essas memórias? Mas, a verdade é que esses pesadelos
estavam se tornando mais freqüentes por se tratar de uma premonição. Eis porque
voltavam agora, num momento que tinha aparentemente tudo para ser feliz. Sim,
aconteceu. Geraldo reapareceu finalmente, na estância, como eu temia,
pegando-nos, no entanto, mais uma vez desprevenidos.
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Eu passeava, às vezes, sozinha, pelos arredores
do casarão, principalmente quando queria escrever poesia. Procurava o bosque,
que me inspirava com seu silêncio sonoro, cheio de agradáveis modulações, de
insetos, e dos raios de luz filtrados entre as copas, que faziam ver o ar
saturado de pólen, dançando infinitamente, indo e vindo do nada, como a própria
alma. Eu lançava novos ciclos dos meus sonetos, num estado de espírito próximo
do sublime, somente aquém daquele instante indizível do orgasmo, mas na
verdade, diferente, pois extenso, duradouro. Os momentos de Inspiração, em que
a alma respira o ar puríssimo do mundo Ideal! Foi num momento assim, tão raro e
fecundo, que, no entanto, fui apanhada pelo mal, mais uma vez, desabando num
súbito abismo que era interior e exterior ao mesmo tempo. Meu cunhado me
surpreendeu mais uma vez, com o revolver na mão, apontando-me, vindo das
sombras do seu inferno intruso, de seu reino do mal. Meu coração quase parou.
Eu estava horrorizada, aquele homem abominável voltara e me apanhara numa
armadilha, afastada de casa, num lugar ermo, distante do casarão. Eu quis
correr, mas ele me agarrou pelo braço. E puxou-me para junto de si, dizendo com
sua boca detestável muito junto à minha:
—Peguei-te novamente, cunhadinha! Agora
não me escapas, vais me pagar definitivamente tudo o que me deves. A começar
pelo teu corpo, que tanto me tentou, sempre, como uma maldição! Agora estamos
sós, não há ninguém que se interponha, nem sequer com um olhar. Ninguém verá!
Ninguém para te socorrer. Vais saber o que é um homem, lésbica safada! Vais
aprender a gostar! Eu me senti, mais uma vez perdida e horrorizada, quase
desmaiei de medo. Geraldo estava com o cabelo todo branco, envelhecido de
rosto, mas com o mesmo ríctus detestável de desprezo, que era a marca de suas
feições. E a mesma força física, que me fazia debater-me, impotente. Eu
esmurrava seu peito e mesmo sua face, sem resultado, a não ser espicaçá-lo
mais. Ele me lançou sobre o solo alcatifado de folhas secas, úmidas e frias. Eu
me debatia, empurrava seu peito chorando e gritando, num estado de terror. E...
mais uma vez me urinei toda, como uma criança num pesadelo. Eu estava, ainda
por cima, sem calcinha debaixo de minha saia leve, indiana, vaporosa, como
usava naqueles dias, menstruada, quando me afastava do casarão, para curtir meu
sangue escorrendo pelas minhas pernas, com volúpia narcísica, enxugando-me, a
espaços, com um grande lenço vermelho, que enrolava na cintura, para disfarçar
o sangue, ao meu retorno. Agora isso se voltava mais ainda contra mim. Eu, não
sabendo, tentei usar isso em minha defesa. Gritei, balbuciando:
—Geraldo, Geraldo, não! Estou menstruada,
vais sujar-te. Fiz xixi, estou imunda! Não vais gostar. Deixa-me! Não! Não! Ai!
Aquilo, aquelas palavras só fizeram aumentar o seu desejo, e eu já sentia o seu
membro, enorme, suspender-me a saia, enquanto com uma mão ele me segurava pelos
cabelos e com a outra, me rasgava a blusa e agarrava o meu seio, com enorme
força. Eu gritei de dor, enquanto seu pênis, forçando-me, adentrou minha
vagina, infelizmente ensopada de sangue e xixi, o que facilitou sua intrusão.
Ele começou a mexer os quadris, vertiginosamente, com grande rapidez, e
explodiu seu sêmen espúrio dentro de mim. Eu quis morrer. Dei um soluço. E um
longo grito. Agora sim, me sentindo suja, conspurcada, larguei-me, cessando de
me debater, enquanto ele ainda se mexia, agora lentamente, para curtir a
lambança que se passava ali em baixo. Um estranho silêncio caíra sobre o
bosque, eu incrivelmente reparei, naquela situação de derrota e humilhação
supremas em que estava. Invadida, suja, usada. Os insetos e passarinhos tinham
cessado seus cantos e eu ouvia somente os estalidos melados, obscenos, da minha
vagina sendo bombeada, curtida pelo monstro lúbrico. Então ele retirou seu
membro de dentro de mim, e mostrou-o, coberto de sangue e esperma, para
humilhar-me com aquela visão, e limpou-o em mim, esfregando-o no meu rosto, na
minha boca, enquanto gargalhava. Cerrei os olhos como uma criança diante do
pesadelo, e ouvi um tiro. Abri os olhos imediatamente e vi o corpo de Geraldo,
seu cabelo branco no ar, desabando sobre mim, o choque de seu peso quase
esmagando-me. Gritei mais uma vez, empurrando aquele corpo, retirando-me
penosamente de debaixo dele, aos gritos, virei-me, de joelhos, e vi o meu
salvador, o jovem bandido do seqüestro, da flagelação e da casa de Júlia,
aproximando-se com um rifle na mão. Ele matara Geraldo, afinal, o sangue do
monstro empapava o meu vestido, confundindo-se com o meu próprio. Eu, imunda e
desfigurada, estendia os braços para aquele homem, o cavaleiro do Walhalla, que
mais uma vez chegara tarde, e no entanto... me salvando.
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As estórias do Condestável Gottfried
cessaram. Mas elas tinham servido para me aproximar de minha avó, que eu agora não
via mais como uma bruxa, mas como uma druidisa ou bardo de saias, que narrava
as sagas picarescas do nosso passado germânico e celta, já que havia sangue
inglês e irlandês, envolvidos nas nossas origens familiares. Não muito tempo
depois disso, eu iria velar seu corpo no salão da estância, toda de preto no
caixão, com seu grande nariz adunco, quase encontrando a ponta aguda do seu
queixo proeminente, e sua boca sumida, sem lábios, enrugada, que completava o
retrato de feiticeira que me impressionava tanto, e que eu, de certa forma,
admirava. Seu longo cabelo branco (ela nunca fizera o coque usual das
velhinhas), estava esparzido sobre os seus ombros esqueléticos e misturava-se
às flores. Eu olhava fascinada, embora não vertesse uma lágrima, pois minha avó
não me comovia, estranhamente, pois eu a associava ao sentido humorístico da
vida, achando, mesmo, acreditem, que naquele momento, a melhor forma de
homenageá-la seria contar uma anedota histórica ou folclórica, coroando o seu
fecho com uma grande gargalhada coletiva. Esse pensamento, me fez sorrir
ligeiramente, o que foi notado por minha mãe que me deu um ligeiro tapa no
rosto. Eu nunca seria compreendida por minha mãe. Como poderia, afinal, eu, a
esquisitinha alegre, a extravagante, ao seu ver, uma excêntrica precoce apesar
de minha ingenuidade encantadora, deixar de ser incompreendida por aquela
criatura convencional que... no entanto, me amava, isso sim, incompreensível?
Diante daquele tapa, me comovi finalmente, mas comigo mesma, com minha solidão
em relação à minha mãe, da qual arranquei um movimento de cabeça aprovativo às
minhas primeiras lágrimas, adequadas, naquele velório da nossa bizarra
matriarca, estranha... e querida, afinal.
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Meu salvador, o jovem bandido, estendeu–me a
mão para me erguer, pois estava ajoelhada e atônita. Mas não consegui manter-me
de pé e desabei. Ele então, pousou o rifle na relva e ergueu-me como uma pluma
em seus braços, e logo pôs-me nas costas dobrada de bruços sobre seu ombro, e
apanhando novamente a arma com a mão esquerda, saiu andando comigo, para fora
daquele bosque. Ele ia direto para o nosso galpão, para apanhar uma pá, ele
dizia, enquanto andava. Pedi para pôr-me no chão, pois estava meio de cabeça
para baixo, e sentia-me enjoada. Ele então me fez deslizar de seu ombro e
colheu-me nos seus dois braços e continuou a carregar-me assim, digamos, de
maneira mais cômoda e... romântica. Exausta, apoiei o rosto no seu largo peito
e adormeci, sentindo-me afinal protegida, como uma criança. Dentro do galpão,
despertei quando ele pousou-me sobre a palha e pegando uma pá, disse-me:
—Senhorita Alma, fique aqui, logo virei
cuidar de ti. Agora vou enterrar o corpo, para que não o encontrem. Caí
novamente num sono profundo, de depressão, eu acho. Quando voltei a mim,
despertada por um ligeiro sacudir em meu ombro, revi o meu salvador e ainda
tonta, ou deprimida, perguntei-lhe o seu nome.
— Meu nome é Günter– ele revelou — e
perdoe-me ter chegado tarde. Mas creio que ele iria matá-la, senhorita. Ele
mereceu o que lhe coube. Estive no rastro dele durante meses, para terminar o
serviço, desde que soube que escapara apenas ferido do primeiro tiroteio.
Agora, não precisas mais temê-lo, nunca mais. Acabou. Está debaixo da terra e
só eu sei onde.
—Günter,—eu disse—eu preciso vomitar, por
favor, erga-me para que me apóie na balaustrada. Ele ajudou-me a vomitar, e eu
percebi que o fez com solicitude e quase com ternura. Esse homem era
surpreendente, e eu me perguntava apenas porque chegava sempre tarde, e cuidava
de mim depois de eu ser vitimada, nunca antes. Era um homem frio, na verdade,
um matador, isso é o que ele era! Eu ter sido estuprada era um detalhe; sua
meta pessoal, matar Geraldo, provavelmente por razões que eu estava longe de saber,
era a sua missão, afinal cumprida. Eu recomecei a chorar, dizendo:
–Günter, estou machucada, estou muito suja... veja,
de sangue, preciso me lavar. Tu poderias me levar até o riacho, para eu
banhar-me, pois não posso chegar assim no casarão. Não quero assustá-las, às
gurias e às crianças. Preciso chegar o mais composta possível, não posso contar
a eles o que aconteceu. Por favor, carregue-me novamente, até o rio. Ai! Vou
vomitar novamente. Eu me sentia péssima, mas ele me carregar, novamente, foi um
grande reconforto, e aninhei-me em seu peito, enquanto ele caminhava. Aquilo
era a única coisa que poderia me fazer bem, agora, entregar-me como uma criança
nos braços poderosos de um homem forte, que cuidaria de mim. Confesso que
queria que ele me lavasse como um bebê... Eu senti que se ele fizesse isso, eu
estaria salva, eu me recuperaria para os homens, para o ser humano.Do
contrário, eu correria o risco de encolher, de virar-me para dentro, eu senti
assim. Günter carregou-me, ao crepúsculo, e eu me admiro hoje, de ninguém notar
as nossas andanças, eu, nos braços de um homem enorme, e mais ainda do que se
seguiu, no riacho. Aquele homem notável, despiu-me e entrou no rio comigo,
completamente vestido, amparando-me dentro d’água, e lavou-me, sim, lavou-me inteira
segurando-me como um bebê numa banheira. E eu me salvei, pois instintivamente
me entreguei completamente àquele banho, fazendo inclusive que enxaguasse com
as mãos enormes, carinhosas e suaves, minhas partes mais íntimas e doloridas.
Só assim me salvei. ___________________________________________
Eu voltei ao casarão com o vestido molhado,
lavado no ribeirão, mas nos braços do bandido que todos ali já conheciam de
vista. Isso assustou-os muito, mas eu pedi que não se alarmassem e não o
entregassem. Contei a todos, reunidos na sala, somente parte da história,
omitindo naturalmente o estupro que sofrera. Contei que fora salva de ser morta
por Geraldo, no momento em que este ia atirar em mim, pelo tiro certeiro e
salvador de Günter, que já uma vez me salvara, episódio que eles já conheciam.
As crianças acabaram apertando-lhe a mão. Aline permanecia desconfiada. Ela
sentia quando eu lhe omitia alguma coisa. Mas nada disse, apenas olhava Günter
com frieza. Pedrinho, menino necessitado de herói masculino, já que para ele a
heroína era eu, olhava o jovem bandido com admiração. Os gêmeos, ao saberem que
o pai fora morto, estavam confusos, sem saber o que sentir, pois aquele sempre
fora ausente, ou brutal. Creio que todos estávamos aliviados. Sentíamos que agora
não tínhamos mais inimigos. E que a vida poderia correr novamente, sem
sobressaltos. Quanto a Laís, olhou-me nos olhos e reconheceu a sombra do
estupro. Sim, a sombra do nosso estuprador comum, e soltou um estranho e longo
gemido, que ninguém entendeu, exceto talvez Aline. Nós teríamos que ter uma
longa conversa, as três, e elas teriam que me perdoar, pela minha dor, pela
minha fraqueza, de mulher, que não podia protegê-las, não podia proteger
ninguém, éramos todos carentes e frágeis, ai de nós! Por quê Rôdo não voltava?
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Capítulo
quarto
Estórias das amadas
Nossa vida entrava na normalidade, e
estávamos todos aliviados e felizes, de certo modo. Mas, o que significa isso,
na verdade? Ser feliz... Será realmente possível, uma vez que todos carregamos
uma “caixa preta”, de sofrimentos passados? Essa caixa pesa, com sua tampa
fechada. E se a abrimos, os vapores mefíticos e os miasmas das dores passadas
são liberados, mas ameaçam nos sufocar, como às pobres Pandora e Psiqué. No dia
seguinte ao do estupro, eu tive a minha conversa com Aline e Laís. Eu ainda
estava abalada, e ficaria por muito tempo. Assim, minha confissão, se devo
dizer assim, acabou sendo dramática, pois choramos muito, abraçadas no final. Aline
estava horrorizada, pois nem sequer sabia do estupro de Laís, e tudo veio à
tona naquela hora da verdade. Não poderia mais haver segredos entre nós, eu
prometi a uma Aline quase furiosa. Eu lutava interiormente para não deixar-me
contaminar pela própria dor da minha experiência, quero dizer, para não
assumi-la como trauma, se é que isso é possível num caso de violência extrema,
como a que me ocorrera. Eu sentia que a essência, o próprio sentido da minha
singularidade, da minha história e personalidade, se fundamentavam na “alegria
mais profunda do que a dor” nitzscheana, que era como que um legado espiritual
de meu pai. Eu não podia sucumbir, ser enfim derrotada por um ser do mal, como
o finado Geraldo. Se eu não recuperasse a minha alegria, minha joye-de-vivre,
seria a vitória daquele crápula, e eu, Alma Welt, que sentia um certo sentido
de missão na minha felicidade e beleza, pois elas embasavam toda a minha obra
de artista, tinha muito ainda o que dizer, transmitir ao mundo. Eu sou assim.
Tenho consciência dos meus dons e um sentido de compromisso sagrado com eles.
Minha sensualidade? Faz parte da minha alegria. Amo o prazer, os prazeres. Sou
hedonista confessa. E tenho tesão de viver. Continuei, portanto, a viver o
mesmo estilo de vida: o sexo com os meus amores, o meu sexo permeando tudo,
todas as minhas atividades, a minha poesia, como meus banhos de rio. A minha
pintura, como os prazeres da mesa. A contemplação da natureza, como os prazeres
da literatura e da música.. O gosto de chorar pela beleza, pela própria
sensibilidade, pela nostalgia e mistério da beleza. Pela suave dor de existir
em plenitude, em pureza intrínseca. Mas, dada a estranha recorrência de certo
tipo de violência sofrida por mim em minha vida, agressões à minha beleza, e
mesmo, insisto, à minha pureza, desde a infância; episódios que venho narrando
nos meus livros confessionais, eu sinto que devo meditar e descobrir, se
possível, as razões desses fatos terem acontecido e estarem se repetindo até
hoje comigo. A razão é uma só: minha feminilidade extrema, quer dizer, a
sensualidade assumida do meu sexo, vivido num corpo que é a própria imagem da
sexualidade. Quero dizer, tudo em mim, no meu corpo e na minha alma, é feito,
construído mesmo, pela natureza, para o toque, o olhar, o olfato, enfim: os
cinco sentidos do prazer do outro... e da penetração pelo outro. Estarei
fazendo o elogio do estupro? Ou, pelo menos, justificando-o? Espero que não.
Estou procurando uma explicação, não um antídoto. O veneno... eu o conheço, não
me diz respeito. Com isso, quero dizer que entrei num novo período
introspectivo, um pouco mais silencioso, de reflexão, que foi confundido com
depressão, pelas gurias. Confesso que o ocorrido comigo deixou seqüelas, claro,
pois eu não tinha a mesma segurança desabrida de antes. Eu temia estar sozinha
em lugar ermo, no bosque, por exemplo. As meninas quiseram voltar lá para ver
se identificavam o “túmulo” de Geraldo. Tanto insistiram que as acompanhei. Mas
não percebemos nenhum vestígio, o serviço tinha sido muito bem feito pelo
Günter, e não seria dessa vez que identificaríamos o local do enterro do vilão.
Melhor assim, eu não estava preparada ainda para qualquer emoção forte
relacionada àqueles fatos tão violentos, pois identifiquei o local do meu
estupro, e saí correndo dali. O bosque nunca mais seria o mesmo para mim.
Quanto a Günter, meu salvador, este ficou escondido na estância por dois dias,
somente, para esperar um parceiro que ele chamou por telefone para vir buscá-lo
de carro. Nós não o denunciaríamos jamais. Houve uma visita da polícia para
fazer as últimas perguntas antes de encerrar o caso, e eles davam Geraldo por
morto (eles não sabiam quanto isso era agora verdade), mas alertavam-me para o
fato de que havia um dos bandidos seqüestradores ainda foragido. Eles não
poderiam imaginar o quanto eu sabia disso... Aliás, confesso que a lembrança
daqueles momentos, no rio, me faziam devanear. Nunca um homem tivera aqueles
desvelos tão ternos e suaves comigo. E eu ainda sentia seus toques em mim. Como
esquecer uma coisa assim. Desejava profundamente que aquele bandido voltasse.
Não contei jamais às gurias aqueles detalhes do meu salvamento. Nem tudo pode
ser dito entre as pessoas que se amam. E eu amava os segredos, que desvelo
somente aos meus leitores sem rosto. Eu via que as minhas meninas precisavam da
minha atenção, uma como jovem mãe e a outra, em processo de recuperação do
trauma sofrido. Minhas maravilhosas gurias! Laís era uma moça vinda da classe
média alta, mas que se afastara da família, um casal de engenheiro e advogada,
que tinham um sítio de lazer, nos arredores de Porto Alegre. Seu pai traíra a
mãe, que sendo advogada, arrasara o ex-marido nos tribunais, e o perseguira
juridicamente tanto, que Laís saíra de casa. Mas essa era, naturalmente, a
versão de Laís, escolhida pelo seu amor por seu pai. Ela abandonou a faculdade,
o curso de direito, por causa da atuação de sua mãe. E se pôs a viajar de
mochila pelo Brasil, e em seguida pela Europa. Rôdo, no seu Porsche, a
encontrara numa estrada do sul da França pedindo carona. Ali começaria um
romance jovem e descompromissado, a princípio. Ela elevaria seu padrão de
aventuras, para os cassinos e pousadas requintadas, e os jogos de pôquer de
altas apostas, do seu companheiro, sempre um tanto perigosos, que lhes acarretaram
alguns apuros, fugas e perseguições. Mas sempre acreditei que Rôdo nunca roubou
no jogo. Seu caráter não permitiria. Era, sim, um bom blefador, e destemido, o
que produziu desconfiança ou ciúmes entre jogadores. Assim creio eu. Mas,
percebi também, que Laís guardava um segredo quanto a algo ocorrido em
Biarritz, que ela não tinha coragem de me contar e que começou a espicaçar a
minha curiosidade. Eu haveria de descobrir, um dia, algo perturbador. Aline,
por sua vez, tivera uma infância feliz no bairro do Brás em São Paulo, no meio
da colônia italiana de seus pais e avós, e me admira que ela não tenha aquele
sotaque italianado paulista, falando, ao contrário, um razoável português,
baixinho, com voz suave e macia, que é sua característica mais encantadora, um
milagre (de Santa Queropita?), dadas as suas origens. Aliás, por isso mesmo, é
muito engraçada a imitação caricatural que ela faz da voz e do sotaque de sua
mãe e avó. Quanto a mim, a esse respeito, é bom que o leitor saiba que também
falo muito baixo e suave, com o mais belo sotaque do Brasil, o da colônia
açoriana de Santa Catarina, de minha mãe. Aliás, só por isso, reconheço que
deveria ser mais grata a ela, do que demonstro. Mas, voltando a Aline, o fato
de se tornar modelo nu, de pintores, só foi tolerado depois de algum tempo,
pela família, pelo fato de seu avô materno, Marcantonio, falecido nos anos 80,
ter sido um pintor acadêmico, aliás, bastante bom, que usava modelos, para
belos nus, dos quais, aliás vi alguns exemplos na casa deles, no seu bairro. Na
ocasião da visita, com Aline, presenteei sua simpática avó, muito idosa, com um
retrato nu de Aline feito por mim, que encantou a velhinha, que o pendurou
imediatamente ao lado de outro nu, dos anos quarenta, que retratava uma amante
de seu marido, bastante bonita, e de quem a avó de Aline sabia muito bem a
história, segundo minha amiga me contou. Aquilo me pareceu notável, no meio de
uma colônia tão tradicional, e com a fama de gelosi, que não costuma tolerar as
traições, freqüentemente banhando-as em sangue. Mas isso, segundo Aline, se
refere mais aos italianos do sul, da Calábria e da Sicília, o que não era o
caso da família de Aline. Não sei. O fato é que dona Giulia, mantinha em sua
parede o retrato de uma amante de seu marido, e minha imaginação voou.
Infelizmente, Aline não soube me fornecer mais dados sobre aquela estória que
deveria ter lances interessantes. Bem, para que serve a imaginação, não é
mesmo? Bem posso imaginá-la, e por isso contarei aqui, aos poucos, essa estória
familiar insólita, segundo a teoria da poesia, como “o autêntico real
absoluto”. Não haverá meio de não ser
verdade.
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No final de fevereiro, Rôdo voltou, sem
avisar. Chegou de madrugada no seu carrinho esporte, e entrou no nosso quarto
para pegar-nos, as três, na cama dormindo nuas e abraçadas, naquela noite
quentíssima. Mas, nossa ménage era duradoura e levantou-se imediatamente em
nós, que nos alvoroçamos, felizes. Foi assim: ao vê-lo ali ao pé da cama, sob a
luz acesa sem cerimônia por ele, com aquele seu sorriso safadinho, dei um grito
de alegria, que despertou as outras duas, e erguendo-me nua, atirei-me em seus
braços. Aline e Laís fizeram o mesmo, e todas ficamos abraçadas a ele, que foi
arrastado para a cama, embolados, enquanto arrancávamos suas roupas. Que
saudade daquele guri! Que saudade do seu sorriso e de seu corpo maravilhoso,
másculo, musculoso! Depois da fecundação de Aline, de que todos participamos,
não havia mais barreiras ou inibições entre nós quatro. Ele fazia parte de nós.
E a alegria por seu retorno confundia-se com a fome de nossos corpos jovens,
por aquele corpo mais firme, viril, que tinha aquele atributo complementar,
essencial, e enorme, que foi disputado ou dividido entre nós três. Na nossa crescente
empolgação, emocionadas e arfantes, quase sem fôlego, fizemos, instintivamente,
muitas das variações do Kama-sutra, coletivamente. Felizmente era ainda de
madrugada, e as crianças não acordaram com o barulho, os risinhos, e gritinhos
que dávamos. E quando caímos exaustos, enlaçados e enroscados, para voltar a
dormir, fui a única que fez um esforço para levantar-me para trancar a porta à
chave, evitando assim o encontro das crianças, pela manhã, daquela cena que
poderia talvez chocá-las ou confundi-las. Congratulo-me comigo mesma por esse
esforço, quase sobre-humano, antes de cair exausta, de volta, sobre eles. De
manhã repetimos algumas variações, mas preguiçosamente e... foi outra
experiência maravilhosa! Cada uma de nós pegou o enorme falo de meu irmão e
introduziu nas outras duas, como um brinquedo, mas lentamente, ritualmente,
como um abraço, uma recepção de boas vindas, sem mais a intenção do orgasmo.
Devo dizer, que estando no meu período fértil, pedi que elas o fizessem, em
mim, por trás, bem lubrificada com o caldo delas mesmas. Foi dolorido, apesar
disso, devido ao calibre exagerado de meu irmão, que, a propósito, ficou
especialmente comovido nesse momento, e não se conteve: ejaculou dentro de mim.
Então, chorei de comoção e felicidade, pedindo para ele ficar ali, quentinho,
melado, bastante tempo dentro de mim, até escorregar sozinho, amolecido. Foi
lindo. Meu irmão tinha sido condignamente recepcionado.
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Naturalmente, depois daquela noite, e manhã,
queríamos repetir aquela experiência em todas as oportunidades que
conseguíamos. Estávamos altamente erotizadas e felizes, mas tínhamos que
disfarçar por causa das crianças. Isso produzia mais excitação e emoção, e
assim estávamos vivendo mais intensamente do que nunca. Foi um dos períodos
mais gloriosos de nossas vidas, pois avalizada pela experiência comum, eu podia
extravasar o antigo e tantas vezes reprimido desejo pelo meu irmão, que agora
estava livre, solto e testemunhado pelas minhas amigas, que eram cúmplices e
parceiras minhas, nisso também. Era perfeito. Rôdo, percebendo isso, soltou-se
como nunca antes comigo, e sua virilidade dava conta ainda das outras duas,
enchendo-nos, às três, de seu branco, viscoso e... maravilhoso sumo. Havia
ainda os banhos de rio, as cavalgadas nuas, sempre os quatro, e as brincadeiras
no galpão, sobre o feno. Vocês conhecem isso: quanto mais fazíamos, mais
queríamos fazer. Estávamos nesse período sob a égide do epicurismo, se posso
dizer assim. Em épocas assim, perdemos um pouco a perspectiva e as metas de
futuro perdem o sentido. Eu não pensava mais em fazer exposições ou planejar
edições de meus livros, embora continuasse escrevendo poemas e contos por puro
prazer, o que é melhor. Como o ato de criar pinturas ou textos só tem sentido
no olhar do outro, isto é, se olhados e lidos, bastava-me ler os meus poemas e
mostrar os meus quadros para os meus queridos, que me cercavam, que desfrutavam
tudo de mim, para o meu próprio prazer: meu corpo, minha mente e... minha alma.
Mas é preciso que eu diga, que para mim, como artista, tudo faz sentido se o
meu fluxo criativo não se interrompe. Enquanto estou me expressando o mundo faz
sentido, o mundo gira. O desejo está justificado por si mesmo, e a beleza do
momento fica registrada, não se perde no tempo e no vazio. O tempo deixa de ser
um ralo devorador, e o mundo não é um bueiro de ações automáticas sem sentido.
Como escreveu Eça de Queiroz: “A arte é tudo, o resto e nada”. Acompanhando,
assim, os lances da minha felicidade anímica e corporal, saíam telas e mais
telas, poemas e contos. Resolvi escrever as “estórias das amadas”, ocorridas
realmente ou não, com Laís e Aline, pois as verdadeiras estórias são aquelas
“do que poderia ter sido”, como disse Fernando Pessoa. Por isso, vou contar
aqui mais um pouco da estória da avó de Aline. Dona Giulia mantinha dependurado
o retrato nu da amante de seu marido, o pintor Marcantonio de Marco, e isso era
um fato corriqueiro, assimilado pela família, que simplesmente não percebia o
insólito daquela situação. Aline cresceu sem reparar muito naquele retrato, e
foi preciso uma pessoa de fora da família, mas profundamente ligada a ela, como
eu, para levantar esse fato como questão. Qual tinha sido a relação de Dona
Giulia com aquela bela mulher, amante do seu marido, para que ela mantivesse o
retrato na sua parede, junto com outros retratos pintados por seu marido,
inclusive os dela própria, desde moça, em diferentes idades? Esse era o
mistério, que Aline não sabia me ajudar a desvendar. Então presumi o seguinte:
A linda modelo de Marcantonio tinha sido sua primeira amante, o grande amor de
sua vida, e posado para ela no dia em que lhe entregou sua virgindade. Isso era
visível nos olhos do modelo, naquela pintura, bem como insinuado simbolicamente
na imagem de um pote, ou vaso rachado, e com um buraco, mas que tinha uma única
rosa vermelha desabrochada, nele, ali, sobre um criado mudo ao lado da cama
onde estava sentada o modelo. Bem, esta moça maravilhosa, amada por
Marcantonio, morreu no parto do filho deles, gerado naquele dia da primeira
relação, e da pose para o retrato. A criança, que sobreviveu, foi entregue pela
família da moça, que se chamava Fabrizia, a um orfanato, já que Marcantonio não
via mais a moça havia meses, pois fora afastada dele pela família inimiga.
Marcantonio nunca soube do nascimento e da existência da criança, seu filho,
mas conservou o retrato, que continha um filho seu potencialmente representado
naquele ventre magnífico, cujo umbigo fora pintado de maneira magistral e... abismal
(esses detalhes pictóricos me chamaram a atenção). Dois anos mais tarde,
Marcantonio conheceu, namorou e noivou de Giulia, a avó de Aline, com quem se
casou. Sua mulher ficou sabendo dessa estória de seu marido pintor, e comovida
com o triste destino da moça, mesmo sem saber da existência da criança,
pendurou o quadro na parede, dizendo:
—“ O retrato de Fabrizia ficará sempre
conosco nesta casa. Não permito que você o venda jamais. O primeiro amor é
sagrado e eu sou a primeira a reverenciá-lo, pois que você é o meu primeiro.
Ela velará pelo nosso amor, eu sei, de onde ela estiver, pois uma beleza assim,
só pode vir da generosidade”.
Resolvi conferir essa estória
totalmente deduzida (acreditem se quiser), através de uma pesquisa a
posteriori. Combinei com Aline que viajaríamos de ônibus com o Marco, até o
bairro do Brás, em São Paulo, para apresentá-lo à avó Giulia, bisavó dele.
Assim eu teria a oportunidade de colher um único dado que poderia iniciar a
pesquisa sobre o paradeiro e a existência do filho de Fabrizio e Marcantonio
que devia ser um homem ou mulher de meia idade, que fora criado em orfanato,
provavelmente até a maioridade. Minhas deduções baseavam-se num processo de
desenvolvimento lógico, que eu considerava quase infalível. O “quase” era por
conta de acidentes imponderáveis do destino, ou pelo menos não presumíveis de
antemão: as chamadas “ironias”. Vejam, por exemplo, Aline se tornara um modelo
nu, de pintores, sem reparar nessa coincidência, claro, já que nada a ligava ao
retrato, em sua mente. . Mas batizara nosso filho com o nome de Marco derivado
de seu avô, continuando, cumprindo, ou corrigindo assim o destino de Fabrizia,
que não pudera acalentar o seu bebê, que provavelmente teria esse nome, do pai,
se eles tivessem podido continuar juntos. Mas a criança teria nascido sem o
conhecimento do pintor, pois Fabrizia dera a luz e morrera entre os seus pais
que renegaram a criança, fato monstruoso, claro. Assim fizemos a viagem, quando
Marco tinha quase um ano, e diante de Giulia, em sua casa no Brás, fiz-lhe a
pergunta que iniciaria a procura:
—Dona Giulia, qual o nome de família de
Fabrizia, o modelo desse quadro? A idosa senhora, muito espantada,
contra-argüiu :
—Mas, Alma, como sabes que ela se chamava
Fabrizia? Nunca revelei isso a ninguém. Nem mesmo à Aline. Como você ficou
sabendo?
—Dona Giulia, perdoe-me, isso não vem
ao caso É apenas um dom meu. Mas preciso saber o sobrenome da moça, pois seu
filho que deveria se chamar Marco ou Marcantonio, pode estar vivo, embora possa
também já ter falecido, foi criado num orfanato e só a família de Fabrizia pode
dar-me o nome e endereço dessa instituição. Preciso saber o destino do filho ou
filha de Fabrizia, pois se faleceu, tenho certeza de que o nosso Marco é a sua
reencarnação. Aline ficou boquiaberta, como sua avó. As duas protestaram:
—Mas Alma, como podes saber disso? Isso tudo
é imaginação sua. Ninguém nunca soube nada sobre Fabrizia, depois que se
separou de Marcantonio, sua história perdeu-se. Que loucura, Alma! Que
imaginação!
—Não, não, queridas—eu disse—Minha intuição
não falha, vocês vão ver. Temos o dever de saber o destino dessa infeliz
criatura, que é parente de vocês, e compensá-la, por um segundo, pelo menos, se
estiver viva. Ou reverenciá-la em nosso pequeno Marco, o que é mais provável.
As duas ficaram atônitas, mas Giulia forneceu-me o nome de família de Fabrizia:
Aldobrandi. Dormimos na casa da Avó de Aline, que era a sua casa também, onde
passara a sua infância. No dia seguinte, de manhã, procurei na lista o telefone
dos Aldobrandi. Havia vários telefones de pessoas com esse sobrenome, mas optei
pelo primeiro, e atendido uma senhora, eu me apresentei como uma escritora que
estava fazendo uma pesquisa para um livro sobre a colônia italiana de São
Paulo. A senhora, que disse chamar-se Lina, aceitou me receber, dando-me seu
endereço, no Brás mesmo. Antes ainda do almoço, partimos, Aline e eu, deixando
Marco com a sua bisavó. Depois de poucos minutos, estávamos diante do portão de
um casarão antigo, decadente, mas que denotava ter sido faustoso no passado.
Recebeu-nos uma senhora idosa, de aspecto fino e altivo, com os cabelos
pintados, e com um belo penteado matronal. Depois de nos fazer sentar e
oferecer-nos um licor, que aceitamos, eu lhe perguntei:
—Dona Lina, eu soube que a senhora teve uma
filha chamada Fabrizia, que morreu jovem, não é mesmo?
Dona Lina ficou um tanto surpresa, e
perguntou-me como eu sabia disso. Respondi-lhe que nós escritores, como os
jornalistas, também cruzávamos informações e consultávamos arquivos de bairro,
como os dos tabeliões e cartórios, essas coisas. Isso pareceu tranqüilizá-la.
Mas ela não parava de olhar Aline, de maneira inquieta e surpresa. Afinal ela
disse:
—Essa moça, como é mesmo o seu nome? Aline?
Vocè me lembra muito minha filha Fabrizia. Ela era assim, quase igual em tudo,
a você. Sim, minha filha morreu muito jovem, e me faz muita falta. —Dona Lina,
sei também que Fabrizia morreu de parto, não é verdade? A italiana levou outro
susto e voltou a indagar, quase em pânico:
—Sim, sim, mas como você pode saber disso? É algo
que nunca comentamos com ninguém. E no seu atestado de óbito não consta isso,
por exigência do meu marido, quero dizer... Como você descobriu isso?
—Dona Lina, fique tranqüila. Minha pesquisa
tem uma finalidade espiritual. Estou convencida de que tenho de descobrir o
paradeiro ou o destino da criança que nasceu no parto de sua filha. Se estiver
viva é uma pessoa de meia idade e precisa saber de muitas coisas, para ser
compensada de ter sido separada de sua mãe, pela morte dela, e de sua família,
por outras razões. Dona Lina ficou assustadíssima, com o coração acelerado, e
preocupadas, corremos a providenciar na sua cozinha um copo d’água, com a
empregada. Afinal, tranqüilizada por nós, disse:
—Menina, não sei quem você é, mas isso é
bruxaria, ninguém poderia saber disso. É um segredo de minha família, aliás
somente meu, e de meu marido, que o levou para o túmulo, que eu esperava também
levar. É também um pecado de família, pois... (ela calou-se).
—Eu sei, eu sei tudo, Dona Lina, ou quase tudo. A
criança foi entregue a um orfanato, não é mesmo? A senhora e seu marido
consideravam uma vergonha Fabrizia ter tido aquela criança, solteira, sem
casamento, e sem o consentimento de vocês, não é mesmo? Dona Lina ficou rubra,
desta vez de cólera, e de repente revoltou-se. Disse quase gritando:
—Não vou dizer mais nada! Você é uma
feiticeira, mocinha. Como pode saber disso? Não falarei mais nada. Não
revelarei nada! Fora daqui! Fora! Não quero mais vocês aqui. Façam o favor de
se retirarem! Saímos as duas, muito constrangidas e frustradas com o desfecho.
Não saberíamos o nome da instituição e a data da entrada da criança. O resto da
pesquisa ia ser muito difícil. Então, quando já estávamos na rua, andando,
fomos chamadas por um homem de meia idade, que correndo um pouco nos alcançou,
e ofegante, nos disse:
—Senhoritas, ouvi tudo, sou o filho dela, e
quero contar a vocês o que sei. O nome do orfanato é San Genaro, e fica no Bom
Retiro. E foi no dia 30 de novembro de 19... , vocês encontrarão seu registro
de entrada, no arquivo da instituição, se ela existir ainda. Senti que deveria
revelar isso a vocês, porque me impressionou muito o que você disse à minha
mãe. Mas se voltarem a estar com ela por qualquer razão, peço-lhes que não lhe
contem o que revelei a vocês. Está bem? Adeus! Ficamos uns segundos paradas na
rua, olhando-o afastar-se de volta ao casarão, entreolhando-nos com um sorriso
e um suspiro, depois batemos as palmas das mãos. A seguir pegamos um táxi, e
tocamos para o Bom Retiro. Lá perguntaríamos pelo orfanato. Depois de algumas
paradas para pedir informações, afinal estávamos diante do prédio do Orfanato,
uma espécie de palacete caindo aos pedaços. Tocamos a sineta e um porteiro
depois de olhar-nos bem, deixou-nos entrar, pensando, certamente, que duas
moças bonitas e finas, querendo entrar, só podiam ser pessoas da sociedade
querendo ajudar ou ser voluntárias nos cuidados às crianças. Deixou-nos entrar
sem perguntas. Fomos direto procurar a diretora do estabelecimento. Era uma
senhora simpática, Dona Esther e após apresentar-nos, contei-lhe uma estória
que a impressionou, para que me permitisse olhar os arquivos, para encontrar a
ficha da criança que deu entrada naquela data fornecida pelo filho da Dona
Lina. Foi-nos permitido, e depois de procurar nuns arquivos muito velhos,
encontramos a ficha correspondente àquela data. Tratava-se de um menino que
entrou sem nome, e que a diretora, na ocasião, batizou com o nome de Andrei, um
nome russo, por ser a origem dos antepassados dela. Perguntamos à Dona Esther
sobre aquele interno, e ela lembrou-se: Andrei saiu do orfanato com vinte anos,
como jardineiro. E que excelente jardineiro ele era! Despedira-se muito grato a
todos, e nunca mais voltara. Nunca souberam da vida dele fora do orfanato.
Ficamos desoladas. Se o Andrei saíra e não mais voltara terminava ali a minha
pesquisa, não haveria como seguir-lhe o rastro fora daqueles portões. Ou
haveria? Talvez um golpe de sorte. Esse golpe de sorte aconteceu de novo: à
saída fomos interceptadas no portão por outra senhora idosa, que nos disse:
—Ouvi a conversa que vocês tiveram com a
diretora. Sei algo sobre o Andrei. Ele faleceu o ano passado, como jardineiro
de uma família muito rica, que parece que o apreciava bastante. A família
Monteschiaro. A mansão deles fica aqui no Bom retiro, na rua.... mas não me
lembro do número. Mas é fácil de encontrá-la, pois o terreno da casa ocupa
quase a quadra toda. Boa sorte para vocês nessa procura, que não sei a que se
deve, mas só pode ser coisa boa, porque vocês têm umas carinhas de anjo.
Sorrimos, demos-lhe um beijo e despedimo-nos agradecendo. Estávamos na pista
novamente. Do quê? Eu pressentia de quê.
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Naquela temporada maravilhosa na estância,
com minhas duas namoradas, com Rôdo e as crianças, meus amores todos, eu vivi
os momentos mais quentes de minha sexualidade. Quero dizer, os mais eróticos
mesmo. A ménage-a-quatre tinha sido retomada, e a verdade é que os três
pareciam querer me devorar, mais do que eu a eles. Eu me deixava manusear e
invadir por Aline, Laís e Rodo, com todas as armas que dispunham: dedos,
lábios, seios, línguas e... o imenso falo de meu irmão que selava tudo, nos
cobria como éguas, ou como cadelas. Como vacas? Também. Era maravilhoso, sermos
banhadas por seu esperma abundante, embora perigoso, pois somente Laís poderia
se dar ao luxo de engravidar agora. Eu tinha que estar sempre tomando pílula,
pois era impensável conceber um filho de meu irmão. Poderia nascer degenerado,
e transformar nosso prazer em tragédia. Mas éramos todos muito bem informados e
atentos, apesar de tudo. E pudemos fruir essas deliciosas sensações da ménage,
sem problemas e sem culpa. A não ser... Sim, houve um problema, Matilde
percebeu e chocou-se. Minha babá era moralista, afinal, sua formação era
tradicional, de origem rural, muito rígida. E censurou-me amargamente:
—Alma, isso é pecado. Vais pagar isso de uma forma
ou de outra. É uma pouca vergonha, minha filha. Não vês? Com tuas amigas? E com
teu próprio irmão? Deus nos perdoe. Onde foi que eu errei ao criar o Rôdo, e
também ao educá-lo? Sim, porque o Rôdo é obra minha. Nem a dona Ana, nem o
doutor Werner, se ocuparam tanto dele como eu . E ele age assim agora? És tu,
Alma, a responsável. És estranha, sempre foste. És indomável, rebelde e fora
dos padrões das pessoas normais. Olha que vais pagar caro se o povo souber, se
descobrir.
—Matilde—eu respondi— tu não contarás nada
para ninguém, não é mesmo? Estou feliz, estamos todos felizes, as crianças
também.Veja, não há mal quando há felicidade. Tu não podes entender, mas confia
em mim. Sei o que faço. Meu pai aprovaria. Ele mesmo me ensinou a ser livre, e
a amar fisicamente, que é a maneira mais sincera que uma moça bonita pode
demonstrar o seu amor. Tudo mais são repressões e superstições. Não podes
compreender, mas eu te peço, Matilde, cala-te e não te preocupes. Quem já foi
absolvida pelo povo, como eu, naquele julgamento, não tem mais nada a temer.
Lembra-te: “a voz do povo...” Matilde ficou olhando para mim, triste ou
assustada, não sei, e abanando a cabeça negativamente. Mas não disse mais nada.
Lembrei-me, então, que eu já tivera
esse confronto perplexo e desolado por parte de uma servidora humilde, no
meu auto-exílio paulistano:
No meu apartamento-ateliê na rua Oscar
Freire, minha amiga Vânia, uma manhã me telefonou bem cedo convidando-me a
encontrá-la num barzinho ali perto na para tomarmos um café e botarmos o
papo em dia. Jamais esperaria que ela tivesse uma segunda intenção e que esse
telefonema tivesse as conseqüências que ora passo a narrar a vocês, meus
confidentes leitores. Depus a paleta, limpei os pincéis, dei uma última grande
olhada na tela nascente no cavalete e passei a ocupar-me de uma caprichada
toilette: banho, escova nos cabelos, e uma esmerada escolha de uma roupa
“casual” mas elegante. Foi como se meu inconsciente captasse alguma coisa, um
prenúncio, uma aurora. Saí depois de deixar um auspicioso e sintomático bilhete
brincalhão para minha faxineira que chega sempre um tanto tarde devido à viagem
que necessita fazer para chegar neste seu emprego. Minha querida Luíza, minha
nova “mãe-preta”, como acostumei-me a chamá-la:
“Querida Luiza, fui ao encontro do “grande
amor da minha vida!”. Tem comida na geladeira. Esquente e coma o que você
quiser. Não me espere para o almoço. Pode matar a goiabada com queijo: Romeu e
Julieta, é todo seu. Vou ao encontro da alegria. Beijos”
Alma
Duas quadras depois topo com minha amiga na
mesinha da calçada mas não sozinha, há uma moça com ela. Estremeço: é linda,
estendendo-me a mão à apresentação de Vânia que troca beijinhos comigo, aos
gritinhos, como é do seu feitio. Perturbada, esqueço de soltar a mão da moça
que no entanto não parece constrangida. Olha-me atentamente, parecendo também
fascinada. Não ouvíamos mais o bábáblá de Vânia. Nossos olhos não mais se
desgrudariam. Prima de Vânia, Letícia é o seu nome, parece vir de longe, mas de
um outro tempo, de dentro de mim mesma. Vocês conhecem, leitores, o meu
temperamento romântico e minha procura incessante pela felicidade amorosa.
Trata-se de uma idiossincrasia, eu reconheço, nestes tempos tão pragmáticos que
esperam tudo de uma artista jovem, “contemporânea”, menos isso! Entretanto,
tenho cada vez mais a tendência, como vocês já perceberam, de assumir minha
alma lírica, “sáfica”, no melhor sentido. Eis porquê cada vez mais exercito
minha veia de sonetista, produzindo até mesmo alguns de timbre camoniano, como
este:
Quando
criança (de Alma Welt)
Quando criança, o amor já desejava
E sonhando construía meus enredos;
Tornar-me escritora eu almejava,
Ser poeta e espalhar os meus segredos.
Ser pura, secreta e desbragada;
Confessional pelo mais puro pudor,
Abrir o coração, e, alargada,
Conter o essencial do meu amor:
Aquilo que devora e me conserva
Jovem para sempre enquanto morro
Um pouco a cada dia que percorro.
E assim, da Natureza alegre serva,
Manter do coração a chama eterna,
Heróica, ao sol acesa a vã lanterna.
E agora estava eu ali, à beira de um novo amor,
feliz desde logo, de puro encantamento por uma adorável jovem, reflexo da minha
própria beleza, juventude e alegria. Eu já estava novamente vivendo a glória de
uma nova paixão, única razão legítima de se viver, o próprio sentido da vida,
evanecente embora, segundo a experiência. Uma embriaguez eufórica, que produz
frequëntemente, uma espécie de “apagamento", como o alcoólico. Não sei
dizer como nos desvencilhamos de Vânia. Só me lembro de caminharmos um
quarteirão de mãos dadas, trêmulas de emoção. Depois a porta aberta do estúdio,
com Letícia já atirando o sutiã para cima, numa explosão de peças deixadas pelo
caminho, numa verdadeira corrida até o quarto onde nos atiramos uma sobre a
outra, no imenso leito. Nosso encantamento nos conduzia numa longa viagem, que
fatalmente iria pela tarde e pela noite até o dia seguinte... pela eternidade.
Eu me esquecera de Luiza, a mãe-preta, que chegou e nos pegou juntas na cama. A
pobre negra, uma mulher quase idosa, coitada, teria mesmo que ficar um tanto
chocada... Mas a boa mulher recuou rapidamente da porta do quarto, com o meu
bilhete na mão. E permaneceu discreta na cozinha, calada, de cabeça baixa. Fui
ao seu encontro e encontrei-a assim, com lágrimas nos olhos, tentando limpar a
pia. Segurei-a pelos ombros, ergui-lhe o queixo com dois dedos e
disse-lhe:
–Luiza, querida, não fica assim. Lembra-te, sou eu,
Alma, a tua “guria”, sempre a mesma, que adotaste como tua “filha branca”, não
sou? Olha, não é melhor assim, uma bonita garota, pura afinal, do que um belo
cafajeste, ou aproveitador, ou ainda um “macho” com o cabresto numa mão e a
sela na outra, como diríamos lá no meu pampa? Vamos, vamos, não fica assim.
Agora eu te peço, Luiza, toma aqui a tua diária e volta amanhã. Nada temas. Eu
estou feliz, não é isso que importa a ti ?
Luiza, olhou-me sem entender. Tocou meu rosto
com sua mão áspera de faxineira, e disse:
— Alma, eu não entendo isso. Duas moças...
isso é pecado, minha filha! Você assim não casa, não vai ter filhos. Isso não
leva a nada, minha filha! Olhei seu rosto negro, seu cabelo pixaim que começava
a ficar grisalho, suspirei e retruquei:
—Luiza, já fui casada, tu sabes disso. Não
gostaria de repetir a experiência. Os homens interessantes ou são neuróticos ou
são bêbados, é perigoso meter-se com eles. Tu mesma, não foste casada com um
bêbado? Que te batia, que te fazia sofrer? Essa garota não baterá em mim e me
fará feliz, eu te garanto. Luiza abanou a cabeça, com lágrimas nos olhos, tocou
novamente meu rosto, e murmurou:
—Que pena... Tão linda... que pena!
Luiza pegou sua bolsa e o dinheiro que lhe
estendi, enfiou-o nela, retirou o avental e saiu de cabeça baixa visivelmente
deprimida e chocada. Ela nos vira nuas na cama. Teria visto mais que isso?
Voltei para o leito onde Letícia permanecia adormecida. O seu maravilhoso corpo
nu, tão entregue, numa bela posição, estética e natural ao mesmo tempo! Uma
obra de arte! Sentada ao seu lado contemplei longamente o seu puríssimo rosto
de menina. Esse rosto banhara-se de lágrimas de emoção, da pura emoção do nosso
encontro, e eu bebera a suas lágrimas como elas as minhas. Estava tudo certo. O
amor era lindo, e nós certamente não iríamos para o inferno, pois já estávamos
no paraíso.
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Segui com Aline para a tal mansão dos
Monteschiaro, para tentar saber do Andrei. Lá chegando, uma impressionante
mansão, muito bem conservada e pintada, indicava que aquela família não estava
decadente, pelo menos não aparentemente. Pensei no nosso casarão da estância
que já apresenta sinais de deterioração, e suspirei. Tocamos a campainha e uma
voz no interfone nos interrogou. Apresentei-me como a escritora Alma Welt e
perguntei sobre o Andrei, que eu precisava entrevistá-lo, pois encontrara a
família dele. O portão se abriu automaticamente, ao mesmo tempo que um porteiro
apareceu para receber-nos e conduzir-nos até a porta da mansão, muito distante
do portão, e belíssima. Ali nos esperava uma linda senhora, elegante, que
examinando nosso aspecto, sorriu e fez um gesto para entrarmos e sentarmo-nos
em grandes poltronas em torno de uma mesa de centro fenomenal, em frente a uma
lareira que parecia o palco de um teatro de marionetes, maravilhosa. A sala
toda era um espetáculo, e lancei o olhar em todas as direções tentando
assimilar as maravilhas que havia ali, quadros, esculturas e objetos de alta
qualidade e requinte. Começamos a conversar. Eu disse:
—Senhora Monteschiaro, desculpe-nos visitá-la
sem nos apresentarmos ou combinarmos antes ao telefone. Mas estamos vindo
direto do orfanato SanGenaro, que criou Andrei, seu jardineiro. Sou Alma,
escritora poeta e pintora, e tenho motivos para acreditar que Andrei, o seu
jardineiro é tio da minha amiga aqui, Aline de Marco. Contei-lhe a estória do
pintor e sua modelo, e a tragédia no nascimento de Andrei. A senhora
Monteschiaro ficou comovida e disse:
—Senhorita Alma, isso tudo é incrível! Eu
nunca soube de nada disso. Apenas sabia que Andrei tinha sido criado num
orfanato, de onde viera direto parta o meu jardim, onde foi feliz. Era um ótimo
jardineiro e nós o queríamos muito bem. Era um excelente caráter, mas mais do
que isso, era um rapaz muito puro. Infelizmente morreu no ano passado com cerca
de 50 anos de idade.
Fiquei imediatamente abalada com aquela
notícia. Perguntei à senhora:
—Mas senhora Monteschiaro, quando foi que morreu,
em que dia, mês e hora. Pode dizer-me?
—Alma, posso chamá-la assim? Foi no dia 14 de
novembro, às 2 horas da madrugada, em seu leito, no quarto que fica nos fundos
do jardim. Morreu dormindo, e o legista calculou mais ou menos a hora,
lembro-me bem disso, pois morreu dormindo, seu coração simplesmente parou, como
um passarinho. Troquei um olhar perplexo com Aline. Era a mesma hora, dia , mês
e ano do nascimento de Marco. Não podia ser simples coincidência! Pedi para dar
olhada no quarto dele, e para ela dar mais informações sobre a vida dele. Mas
havia pouco a ser contado, e nada a ser visto no quartinho anódino, pois já se
passara quase um ano e havia outro ocupante naquele quarto. Uma vida simples,
senão monótona, de um homem puro e bom, em meio às suas flores, num belo parque
em torno a uma mansão de gente muito boa e generosa. A essa altura, Aline e eu,
muito comovidas, já estávamos segurando as mãos da senhora Monteschiaro,
enquanto ouvíamos. Depois a beijamos, não aceitando o convite para o almoço,
pois estávamos abaladas e comovidas com a morte de Andrei e... seu renascimento
em Marco de Marco, que viera para corrigir o destino de Fabrizia, por via de
Aline, a herdeira de sua bela profissão de modelo nu.
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No final de Abril, passeando, sozinha, em meu
jardim, em meio às flores, uma bela amanhã, de repente ouvi um assovio, e
lançando os olhos em torno, divisei atrás da sebe do nosso caramanchão florido,
o rosto, o tronco e o braço de Gunther, meu querido bandido. Ele me acenava,
disfarçando, ressabiado, logo se escondendo ali dentro. Ele voltara! Fui, sem
hesitar, ao seu encontro, com alegria. Assim que me aproximei da entrada, ele
me puxou para dentro, pelos ombros, e me beijou nos lábios ardentemente. Meu
coração palpitava. Eu estava emocionada. Meu salvador me queria, ele me amava!
Sim, era isso que eu pensava, naquele momento, romântica que sou. Diante da
minha receptividade, ele me fez deitar, imediatamente, sobre a relva daquele
espaço cercado, que permitia privacidade. E erguendo minha saia, puxou minha
calcinha, retirou-a e cheirou-a, com grande prazer e naturalidade. Aquele
gesto, acabou de me cativar e, então, puxei-o sobre mim para recebê-lo inteiro,
aquele homem enorme, cujo calibre só se comparava ao de Rôdo. Então penetrou-me
com delicadeza, lentamente, com cuidados, apesar do tamanho desmesurado de seu
pênis, que me causou um pouco de dor. Mas eu queria tudo, queria até mesmo
sofrer nos braços daquele homem, como se o fato dele ter-me salvado duas vezes,
lhe desse o direito, agora, de me causar tanta dor quanto quisesse. Por quê sou
assim? Na verdade, jamais saberei totalmente. Eu queria que ele me tomasse com
força, e que dissesse coisas assim: —Vem, minha Alma, dá-me tudo, quero
penetrar-te até o sangue correr, quero todos os teus orifícios, todas as tuas
aberturas, que selarei para sempre com o meu esperma, para fecundar-te, para
perpetuar a minha estirpe de bandido. É evidente que ele não disse isso, mas
faltou pouco, e no fundo, em seu silêncio, era mesmo o que queria dizer, para
mim era claro e... comovente. Ele se movimentava devagar, subindo e descendo,
para não me machucar, pois seu membro, além de grosso, era muito comprido e ele
sabia que podia bater no colo do meu útero, de maneira perigosa e dolorida. Mas
ele sabia o que fazia. Sem perguntar se eu estava fértil ou não, explodiu seu
sêmen dentro de mim, que estava enganchada, avidamente nele, com minhas longas
e brancas pernas muito erguidas, abarcando seus rins. Então, subitamente senti
uma presença ali perto, e erguendo um pouco a cabeça, dei com Patrícia de
olhinhos arregalados e mão na boca, de espanto. Ela vira tudo, em detalhe. No
ângulo em que estava, vira até a penetração, explícita, o que para ela deve ter
sido especialmente chocante. Uma menina, ingênua, preservada, que nem sequer
ousava sonhar tais coisas com o namoradinho, por quem era apaixonada! Eu tentei
erguer-me imediatamente, mas estava penetrada, enganchada naquele homem, e tive
dificuldade, tornando as coisas mais patéticas. Levantei-me afinal, empurrando
Gunther, e correndo atrás de Patrícia, que chorava, correndo. Alcancei-a antes
de ela atingir a varanda, e abracei-a, enquanto ela soluçava, com o rosto
afundado em meio peito. Ela balbuciava:
—Tia Alma, Tia Alma o que era aquilo? Porque
tu estavas fazendo aquilo com aquele homem? Não é só com o marido que a gente
faz isso? Ah! Tia Alma era tão... assustador!
—Patrícia, Patrícia, —eu disse— me perdoe, eu devia
ser mais cuidadosa. Mas olhe, deixa-me explicar-te... Se souberes mais coisas,
não vais te assustar mais. Eu devia ter conversado mais contigo! Olha, é assim
mesmo, entre homem e mulher e... não precisam ser casados, não. Casado é bom
também, quando se ama, mas o importante é o amor.
—Mas Tia Alma, tu amas o Gunther? Ele é um
bandido, não é? Como podes amá-lo? E Aline, e Laís? Tu disseste que as amava!
Não entendo mais nada, tia!
—Patrícia, minha querida, lembra que eu te
disse que podemos amar muitas pessoas, ao mesmo tempo? Eu, pelo menos, posso.
Talvez isso não seja comum, mas eu sempre fui assim, e, olha, não sou a tua tia
querida? Não sou boa? Não sou hipócrita. Entendes esta palavra? Não sou
fingida. Reconheço que certas coisas devem ser feitas mais discretamente. Mais
reservadamente, mas... Tu me perdoas? Quero-te tanto minha querida! Sinto tanto
ter te chocado... Patrícia ficou ali, muito tempo, com o rostinho entre meus
seios, e seus soluços terminaram. Ela me abraçava apertado e eu sentia o quanto
aquela criatura inocente e pura me amava.
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Eu continuei encontrando-me com o Gunther.
Mas agora tomando muito cuidado, e fora dos limites do nosso jardim. Era quase
um mistério como ele aparecia e desaparecia, sem ser notado pelos peões, e suas
mulheres, nossas colhedoras de uvas. Ele era um mestre no despiste, e na
ocultação. Eu, no início não ousava perguntar a ele o local de seu esconderijo.
Sim porque ele devia estar baseado em algum “covil’ de bandido, conforme minha
imaginação. Ele estava sempre armado, e eu sabia que ele receberia à bala,
qualquer pessoa que o ameaçasse, principalmente a polícia. Ele devia estar fora
do território brasileiro, já que estávamos relativamente próximos da fronteira
uruguaia. Mas suspeito que ele permanecera ali, nas nossas terras, somente por
minha causa. Tive essa comprovação, quando lhe ofereci dinheiro, para sua fuga.
Ele pareceu ficar constrangido, e respondeu:
—Alma, queres te livrar de mim? Porquê me
ofereces dinheiro para eu partir? Esqueceste que eu te devolvi todo aquele
dinheiro roubado por teu cunhado? Não preciso de nada, a não ser de ti. Não vês
que ainda não parti porque estou apaixonado por ti? Não me queres mais?
Experimentei uma grande alegria com aquelas palavras, e o abracei apertado. A
verdade é que aquele homem, forte e aven tureiro, desvinculado de tudo, solto
no mundo, ao seu bel prazer, ou ao sabor das tramas de um destino intenso e
radical, me fascinava, me hipnotizava, me fazia sentir mais feminina do que nunca,
pois não esperava de mim, nada de forte ou independente. De mim, que ele
salvara duas vezes, de maneira tão romântica, malgrado as violências escabrosas
que antecederam sua ação salvadora. A estrutura intrínseca de nossa estória era
romântica, eu sentia. E ele, com seu cavalheirismo nato, de cavaleiro antigo,
era digno desse timbre romântico que existira desde o início da nossa relação.
Lembrei-me do quadro de Magritte, que representava um violino pousado de pé
sobre um colarinho branco engomado, sobre uma mesa . “Un peu de l’âme des
bandits”, o título do quadro, dava a exata conotação do sentido que eu via no
mistério do destino marginal daquele homem, que, na verdade, não estava “à
margem”, mas no centro mesmo da verdadeira ação do mundo. No olho do furacão
que não percebemos. Uma vez consciente disso, eu não me preocupei mais com o
perigo que ele corria, e com os nossos destinos, agora cruzados. Gunther me
amava, o quanto um bandido pode amar. Ele era um homem frio, e misterioso. No
entanto, sua delicadeza para comigo revelava a sua capacidade de ternura, e eu
sentia que podia confiar num homem assim. Mas ele queria me levar com ele. Essa
idéia absurda tinha a sua lógica: se eu aceitava ser dele na cama, ser
preenchida por ele, recheada por ele de seu leite viril, por quê não o seguiria
até à morte? Estava aí o perigo. Ele era um homem simples, no fundo, e por isso
já me considerava dele. Então, eu lhe disse:
—Gunther, querido, sou tua somente nos nossos
momentos... Podes entender isso?Não poderei seguir contigo, ser mulher de
bandido. Tenho minha família, meu deveres para com ela. Deves partir, pois já
sabem de tua presença aqui na estância, e podes ser delatado à polícia por
algum peão. Em mim tu podes confiar, devo-te a vida, jamais te entregarei, mesmo
se for presa por isso. Serei fiel ao meu amor por ti, meu bandido, mas deves
aceitar os meus termos. Também sou uma mulher livre, apesar dos meus vínculos
de família. Mas não irei contigo.
Gunther olhou-me profundamente, com o seu
olhar indefinível, que podia causar um certo medo, mas que eu aprendera a
confiar. Eu era sagrada para ele, porque me possuíra depois de me salvar, e ele
jamais me faria mal. Ele voltaria sempre, de tempos em tempos, eu sabia, pois
afinal, eu, Alma Welt, era o “repouso do guerreiro”, para um bandido especial,
amoroso. E sabia, de antemão, que um dia choraria por sua morte, talvez mesmo
sobre o seu corpo maravilhoso, crivado de balas.
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Aline gostara de brincar de dominação, no nosso
leito. Era uma forma dela compensar-se pelo que ela perdia com a maternidade em
relação a nossa disponibilidade, minha e de Laís, de sair por aí, pelo”mundo”,
a galope. Depois, havia também a sua suspeita do que acontecera entre mim e
Gunther. Pobre Aline, no fundo devia sofrer, de ciúmes, pelo tanto que me
amava, carnalmente. Quanto a isso, vou fazer uma declaração definitiva, a
vocês, meus leitores:
"Declaro solenemente que não acredito em
dicotomia entre corpo e espírito e numa suposta espiritualidade que exclua o
sexo, ou que pretenda pairar acima dele. É justamente esse pensamento
discriminador que considero filho da hipocrisia e, portanto, da escravidão e da
repressão. O sexo para mim é sagrado quanto mais pleno, livre e total. Eu só
acreditaria num deus que soubesse copular, por isso sou devota de Zeus, o
Grande Fodedor. Sexo é espírito, fiquemos, pois, combinados. Dito isso,
prosseguirei nas minhas confissões, de minhas alegrias corporais e de minhas
dores, não menos gloriosas. Sim, eu queria sentir meu corpo: seus deleites e
suas dores que me fazem sentir tão viva. Desenterrei de uma velha arca, um
rabo-de-tatu do meu avô, de couro cru. Eu iria instigar Aline a açoitar-me com
ele. Leitor querido, se quiseres interromper a leitura de meu livro, faça-o
agora. Ou continue para sempre!
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Laís conhecera Rôdo, numa estrada da
Provence, pedindo carona. Começara ali um affaire itinerante pelas cidades do
sul da França, que continuaria em Cannes, e na Côte D’Azur inteira, onde os
dois fariam uma interessante parceria, no pôquer, desfiando um rosário de
cassinos até a Costa Brava, na Espanha. Mas foi em Biarritz, que algo saiu mal.
Rôdo, caiu em desgraça, após uma rodada, e provavelmente de maneira injusta foi
acusado de desonestidade. Ambos foram interceptados na estrada, após uma
perseguição perigosíssima, em que Rôdo, sendo um excepcional piloto, teria
levado vantagem, com seu Porsche, não fosse uma bala que lhe furou um pneu,
quase fazendo-o capotar. Obrigados a parar, foram arrancados do carro, e
surrados brutalmente. Rôdo e Laís tiveram suas roupas arrancadas e deixados
nus, na estrada, despojados do dinheiro que ganharam no jogo, e só tiveram o
carro poupado de ser destruído, provavelmente para evitarem um caso policial
que Rôdo levantaria, em que o corpo de delito seria o próprio veículo. Laís me
contou que ficaram muito machucados, caídos na beira da estrada, completamente
nus. Mas o pior foi o detalhe humilhante: os bandidos jogadores pouparam Laís
do estupro, talvez para evitarem denúncia de crime hediondo, mas urinaram
demoradamente, cinco homens, sobre Rôdo e Laís desmaiados, no chão. Esse
episódio doloroso, me foi contado por Laís num momento confessional muito
íntimo, e eu percebi então como ela era muito mais sofrida do que eu percebera
no princípio, até acontecer a terrível violação que ocorreria com ela em nosso
galpão. Entretanto, mesmo com essa coincidência, duas violências sofridas, de
um jeito ou de outro no âmbito de Rôdo, ela não fizera essa associação em seu
espírito, e permaneceu entre nós. Ela percebia que nós a amávamos realmente, e
isso era suficiente para compensá-la de tudo. O destino, sempre insondável em
seus desígnios, fora um tanto brutal no preço que cobrara a ela para pô-la em
nosso caminho, que lhe parecia tão essencial. Agora eu estava disposta a
dividir todo o amor que tinha por Rôdo e Aline, com ela, embora consciente de
que não conseguia protegê-la, eu mesma, que tantas vezes fora, também, vitima
de brutalidades. Mas eu imagino que a chave mesma, desse apego de Laís, a Rôdo
e a mim, estava na indestrutibilidade da nossa aliança com a felicidade e a
alegria, que ela via em nós. Nossa capacidade de recuperação, pelas bases
sólidas de crença na vida, na beleza, na Arte e no Amor, que era a herança
verdadeira de nosso pai.
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Naquela primavera nossa paixão carnal atingiu
seu paroxismo. Nós nos procurávamos a todo momento, ou saíamos de mãos dadas,
os quatro, e por isso éramos olhados de maneira desconfiada pelos peões, suas
filhas e mulheres. Mas como éramos gentis e humanos quanto a seus problemas e
necessidades, conseguíamos neutralizar, até certo ponto, os preconceitos
renitentes de suas moralidades tradicionais. Eles não tolerariam a explicitude,
claro, e tentávamos esconder nossos momentos de verdadeira orgia, que amávamos
tanto realizar. Nunca me esquecerei dos lances radicais que praticávamos e
tenho saudade daquilo, até hoje. Meus fiéis leitores, vocês devem estar
querendo saber daquele rabo de tatu do meu avô, não é mesmo? Pois bem, ele foi
usado, sim. Eis como: Aline e Laís estavam inquietas aquela noite. As crianças
tinham ido dormir cedo, depois de ouvirem-me contar uma linda estória como eu
fazia todas as noites, para todos, inclusive os adultos. Até Matilde, saia da
cozinha e vinha ouvir minhas estórias. Porque, graças a Zeus, não tínhamos
televisão na estância, nem nunca teríamos. Então depois da estória e do beijo
em cada um deles em suas caminhas, eu me sentia livre para viver uma parte
“adulta” da minha personalidade, que coincidia com a minha libido desabrochada,
irrequieta. Meu olhar mudava, diziam minhas amigas. Eu perdia a inocência? Não
acredito. A libido não tem idade, e a minha era pura e edênica, nascida sob o
signo infantil da minha macieira, e ninguém, nem minha mãe em seu caráter
repressivo, conseguira domá-la. Mas admito que meus olhos verdes adquiriam um
acento felino, selvagem. Eu ficava, admito, “meio louca”, às vezes. Nessa noite
eu retirei de sob as minhas calcinhas, na cômoda, aquele rabo-de-tatu, do meu
avô, objeto a que já me referi. Ele dava medo só de olhar, com o seu couro cru
e áspero, trançado. Pus-me nua, e disse às minhas gurias:
—Aline, Laís, hoje quero sofrer. Não discutam e me
obedeçam, por enquanto. Depois eu obedecerei a vocês. Vamos brincar de escrava
branca. Comecem me amarrando à guarda da cama, com esta corda. Assim, assim,
Laís, bem forte. Ai! Quero sentir dor! Meu coração não cabe no meu peito, vou
sufocar de entusiasmo de viver, se vocês não me reduzirem. Eu não caibo em mim.
Dêm-me dor! Dêm–me alguma dor!
Aline começou a bater com o
rabo-de-tatu em minhas costas, a princípio fracamente, e logo aumentando a
intensidade e a força das chibatadas, e descendo até as minhas nádegas brancas,
que ficaram logo avermelhadas. Laís estava horrorizada, e as duas estavam tão
ofegantes quanto eu. Eu gemia e me contorcia, balbuciando, em lágrimas de dor e
de prazer:
—Aline, bata-me, bata-me, meu amor. Eu
mereço, sou uma guria levada, eu vou ser boazinha, eu vou ser a sua escrava,
lamberei seus pés, limparei a sua sujeira!
Aline interrompeu a sessão de chibata,
subitamente indignada, com os olhos úmidos, atirando o instrumento de tortura,
longe, contra a parede e saiu correndo do quarto, para colher Marco em seu
berço, no quarto ao lado. Começou a acalentá-lo e a encostar sua boquinha
rosada em seu seio, embora estivesse adormecido. Suas lágrimas corriam. Eu
fiquei desolada e envergonhada. Laís estava perplexa e... horrorizada. Minha
necessidade vital de sofrer não levara em conta a atitude de violência que eu
impingia a seres tão delicados, que não podiam exercer esse papel, sob pena de
violentarem suas naturezas. Eu teria que desistir dessa modalidade de prazer?
Dei-me conta, então, que ela surgira, ou desabrochara, melhor dizendo, depois
da minha flagelação por um verdadeiro inimigo. Por isso Júlia detectara o meu
prazer devassando a minha vagina, após a tortura cruel, verdadeira, a que me
submetera o meu inimigo. Então, nada poderia substituir a realidade da dor e da
crueldade paroxísticas do ódio verdadeiro? Eu comecei a chorar, enquanto era
desamarrada por Laís. Eu chorava pela minha necessidade de vida, da crueldade
da vida, que nada podia satisfazer a minha sede de realidade, de toque, do
sangue da terra!
FIM
do Capítulo Quarto (Estórias das Amadas) de A Ara
dos Pampas
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A VINHA
DE DIONISO
Capítulo Primeiro
A Rainha Devassa
Desta varanda, sentada em minha cadeira de balanço,
avisto o meu Pampa inteiro à minha frente, até o horizonte, que parece
chamar-me, nestes dias magníficos. Aqui vivo cercada das minhas queridas
crianças e dos meus amados Rôdo, Aline e Laís. Meu irmão vai e vem, do mundo,
no seu carrinho esporte, e o balanço de suas ausências e retornos marca o ritmo
anímico que coincide com as estações nesta estância, como em meu coração
incestuoso e ardente. Entretanto, espero ainda algo que corresponde à parcela
mais romântica desta nova fase da minha vida. Sim, pois meus amores assumidos,
que me cercam, tornaram-se familiares e... cotidianos. E vocês, meus leitores,
sabem o quanto necessito do mistério, da nostalgia e mesmo da... exceção, em
minha vida. Do perigo? Também, mas sobretudo das emoções do lado escuro da
alma, aquele lado que não conheço bem, e que me instiga, apesar do medo. Ando
pelas pradarias, a pé, ou cavalgando com minhas amigas e amantes. Mas
freqüentemente o faço só, solitária, olhando os longes, e o entorno, como quem
espera, espera. Aline e Laís sabem deste meu novo “desvio”, quer dizer, desta
paixão, e estão perplexas, senão amedrontadas. A verdade é que perderam a
segurança comigo, e agarram-se, agarram-se a mim, com medo de perder-me. Aline
tem o “nosso” bebê, o pequeno Marco, mas sente que não tem um marido, e seu
filho não tem um verdadeiro pai. Não quero dizer, com isso, que ela esteja
arrependida de sua “produção independente”. Ela sabe que eu não poderia,
obviamente, fazer esse papel, e Rôdo, o pai biológico, é tão somente isso, por
enquanto. Irá ele, algum dia, “assentar o facho”, e permanecer junto ao seu
filho, para ajudá-lo a crescer, a seguir, pelo menos, o seu exemplo de jovem
aventureiro? Não creio. Somos uma “família desfuncional”, evidentemente. Mas
como nos amamos, todos, uns aos outros! Meu coração inquieto, no entanto, me
leva a sonhar e esperar... sempre, sempre.
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Quando eu tinha uns treze ou quatorze anos,
pus-me a escrever poemas, diariamente, que funcionavam como um diário secreto, para
driblar a minha mãe, que certamente invadiria minha privacidade se eu
mantivesse um diário em prosa corrente. Nos meus versos eu fazia uso de um
simbolismo oculto, sem abusar de metáforas, de maneira que meus pensamentos
pareciam obscuros, mas inofensivos. E assim, Ana Morgado, minha mãe,
desinteressou-se dos meus versos e nunca percebeu que a verdadeira história e
percurso da minha alma já estava ali, camuflada, de maneira sutil, e os
segredos do meu coração foram preservados... até certo ponto. É verdade que um
ano antes, eu fora flagrada com Rôdo, peladinhos os dois, sob a nossa macieira,
fato que já contei sobejamente em diversas ocasiões, nos meus textos em prosa e
em verso. Mas isso não evitou que nós, Rôdo e eu, continuássemos a desenvolver
nossas relações tão profundamente físicas, como já narrei. Mas, o meu universo
interior, de base romântica, transcendia em muito qualquer namorico, e a
ardência do meu coração me levava a vôos insuspeitados pela visão tacanha de
minha mãe, que quisera tão somente montar guarda na minha “xotinha”, essa é que
é a verdade. Em vão. Eu continuei me encontrando com Rôdo, de maneira mais
hábil e secreta. E naquele bosque em que muitos anos mais tarde, recentemente,
eu fui violentada pelo meu cunhado Geraldo, ali, quase no mesmo local, numa
clareira oculta, ali, eu me encontrava com Rôdo, e entregava-me a ele, de todas
as maneiras. Num dos meus ciclos de sonetos, eu contei o episódio do balanço,
que armáramos num galho forte da minha macieira.Na verdade, isso se passara na
nossa clareira secreta, no bosque.
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Agora, eu me sentia no limiar de uma nova
fase em minha vida. No fundo, eu sabia a que se referia essa espécie de
expectativa calma, de espera. O novo amor que se instalara em mim, com a força
da exigência romântica do meu coração, era, vocês sabem, o de Gunther, o meu
“amor bandido”, o cavaleiro do Walhalla, que se insinuara em minha vida a
partir de um olhar meu de desespero, um bilhete de pedido de socorro e depois
de sua ternura insuspeitada, e momentos de delicadeza inusitados num homem
assim, desraigado, soldado da fortuna e bandido romanesco. Eu olhava o
horizonte, ali, da minha varanda, freqüentemente com o pequeno Marco
engatinhando ali, perto de mim, puxando-me a saia até eu colocá-lo deitado
sobre as minhas compridas coxas, para brincar com os seus pezinhos, e sorrindo
para ele, contemplar o seu sorriso maravilhoso. Mas eu sempre estava sondando
os longes com o meu olhar, como um fanal da pradaria, por onde viria, navegando
na ondulação das coxilhas, o meu amor, nascido na adversidade e que tinha
promessas nunca feitas, de uma plenitude incompreensível, porque sem raízes e
sem futuro. Eu deveria cumpri-lo, esse amor, com seu potencial trágico, já meu
“cavaleiro” era um fugitivo da polícia, procurado por mais crimes do que eu
quereria saber. Mas, eu conhecia uma parte do seu coração, que avalizava minha
entrega, minha confiança no seu caráter. Ele tinha razões secretas para todos
os seus crimes, um álibi fundamental, um ponto de partida trágico, alicerçado
na honra. Eu assim acreditava. Eu tinha a certeza do coração apaixonado. E
esperava, esperava. Eu estava cercada dos meus amores, que me olhavam
inquietos, sentindo-me partir aos poucos, para uma aventura que não as incluía,
e tentavam chamar-me a atenção,Laís e Aline quase desesperadas. As crianças,
por seu lado, tinham uma atitude mais sábia e confiante, e permaneciam calmas,
brincando entre elas. Elas confiavam em mim. Eu as...
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Rôdo estava novamente longe, rodando pela
América Latina, pelos países andinos, com uma nova companheira, uma chilena que
ele conhecera em Porto Alegre. Laís não se importava mais. Tampouco Aline, que
já se resignara a ter “um pai ausente” para o seu filho. A propósito, é preciso
que eu conte que Aline, tendo novamente experimentado asa delícias da
penetração fecunda, estava insatisfeita comigo e ansiava entregar-se a um
homem, ter um novo filho, e olhava-me com um laivo de ressentimento. O quê
podia eu fazer? Usar, ao menos, aquele falo de silicone que ela mesma
providenciara, adquirindo-o em São Paulo, num Sex-Shop, escondida de mim? E, no
entanto, ela é que o usara ativamente em mim e em Laís. Eu me recusava a usar
aquilo, afivelá-lo em minhas ancas, apoiado em meu púbis. Eu me sentiria
grotesca. Laís, também, nem pensar. E assim, estávamos todas insatisfeitas,
pela primeira vez, em nossa tríplice relação. O quê tinha acontecido? O quê se
perdera? Eu nunca fora viril na minha maneira de ser na cama. Sou bem mais
passiva do que ativa, embora já tenha experimentado, no ardor da relação, a
introdução do meu punho inteiro dentro de Aline, depois do seu parto, que a
deixara muito mais aberta, vocês sabem. Mas falta-me o verdadeiro componente
ativo, o Animus, que em mim é muito rebaixado. Basta dizer que não sou capaz
sequer de dirigir um carro, e sempre necessitei de motorista. Em São Paulo eu
só andava de táxi, embora tenha experimentado o metrô, às vezes. Bem, mas isso
não vem ao caso. Eu tenho a tendência a divagar, a perder o foco. A questão é
que eu não poderia ser o “macho” dessas mulheres que me cercam, simplesmente
isso! Pronto, essa é que é a verdade! E se elas não vão embora, por outro lado,
é porque realmente me amam, mais do que gostariam, ou do que lhes é
conveniente. Freqüentemente, na cama, elas me assaltam, exasperadas, e por sua
vez me penetram e me machucam, com os dedos, com os punhos, com as unhas e com
os dentes. Começam já a bater em minhas nádegas muito brancas, com as palmas, e
a mordê-las. E seus beijos, então? Deixam marcas inconvenientes, que tento
disfarçar com pomadas para não escandalizar as crianças. Aline, recentemente,
prendeu meu clitóris com os dentes, e não o soltava mais, ameaçando decepá-lo.
Fiquei apavorada. Começo a crer que corro perigo, com estas duas louquinhas
desesperadas. A verdade é que a solidão, inerente a este Pampa, neste casarão
perdido no meio da infinita pradaria, no meio desse mar de coxilhas, produz um
gradativo enlouquecimento em pessoas como nós. A beleza perpétua, o isolamento,
o tempo que se escoa mais lentamente que em outras partes do mundo, com exceção
das montanhas, como os Andes, segundo me diz Rôdo em seus postais, isso tudo
nos mina, nos corrói gradativamente, cobrindo nossa alma como um musgo à pedra,
produzindo uma vertigem de decadência, profundamente romântica e demencial.
Somente as crianças parecem imunes a esses venenos corrosivos, do tempo e da
solidão. Elas têm um impulso ascendente, que já nos falta, a nós, que embora
jovens, já sentimos a vertigem do abismo, uma volúpia de soltar o corpo e
rolar, agora que atingimos o auge dos nossos potenciais e de nossa beleza de
mulheres. Ai! Que será de nós, loucas mulheres, se não chegar um cavaleiro? Três
cavaleiros? Levem-nos com vocês, homens fortes, seguros! Vocês existem? Homens
maduros, talvez, que nos apartem como rezes, escolhendo uma, cada um. E nos
levem, para desfrutarem de nossa beleza, possuindo-nos e fecundando-nos, até o
nosso sangue e sumos escorrerem entre seus lábios e dentes fortes! Estamos
aqui, venham! Ai! venham!
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Então, finalmente, eu avistei, uma manhã, ao longe,
um cavaleiro que vinha a passo, e depois a trote em direção ao casarão. Eu me
ergui da cadeira de balanço desta varanda e fiquei alerta, tensa e... logo
trêmula, inclinada para a frente. Ergui um braço, apontando, depois o outro, e
começava a precipitar-me, ofegante, quando fui agarrada por Aline e Laís, que
gritavam:
—Não, não, Alma, não vá! Não nos deixe! Alma,
sua louca, tu não podes! Não podes! Laís, de joelhos, agarrara-me as pernas. E
Aline segurava-me os braços por trás. Eu me debatia. Desvencilhei-me delas com
violência e corri. Corri em direção ao cavaleiro, que se aproximava agora a
galope! Diante dele, Gunther, o cavaleiro, que fez o cavalo estacar, quase
empinando-o, eu estava ali, no meio da pradaria, de braços estendidos, com um
sorriso estampado em meu rosto, olhos brilhantes e úmidos. Gunther apeou do
cavalo, e abraçou-me. Eu me afundei profundamente naquele peito forte, que me
abarcou toda. Senti-me pequena e ao mesmo tempo plena, plena. Por alguns
minutos, não precisei de mais nada. Mais nada, na vida.
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O avô Joachim me assustava, com a sua
catadura de nenhum amigo, seus lábios finos como uma fenda na queixada
poderosa, quadrada, no rosto comprido de imenso nariz. Com dois metros e alguns
centímetros de altura, e mãos enormes, falava pouquíssimo e trabalhava muito.
Eu, simplesmente não podia compreender um homem assim. Tanto mais que o Vati,
meu querido Vati, era falante, doce, carinhoso, embora também forte. Como
pudera sair assim, nascido daquele casal estranho, de alemães, tão diferentes
do povo deste sul, de homens falantes, cantadores e extrovertidos? Meu avô
considerava os gaúchos uns “gargantas” (ele fazia um gesto com as costas da
mão, sob o queixo, que me desagradava pelo seu desprezo). Quanto à minha avó,
já contei como ela revelou-se interessante, com sua veia picaresca, de bruxa
gargalhante, cheia de estórias inusitadas, e algumas receitas alemãs, de origem
camponesa, que me cativaram o paladar. Mas o Vati, saíra cedo da colônia, do
vale do Itajaí, para estudar na Europa, e se tornara um homem culto até à erudição,
abrindo assim um abismo, aparentemente, entre ele e seus pais, ou mesmo seus
ascendentes camponeses. Quem, como ele, tocava os clássicos, desde Bach até os
grandes românticos, tinha percorrido um longo percurso, transpondo em si mesmo
um abismo cultural e até mesmo social, milenar. Eu sou a sua herdeira. E só
recentemente pude enxergar em mim mesma algo da raiz camponesa, da rusticidade
e talvez do primarismo em minha estrutura emocional, quando me atraí, e me
apaixonei por um homem forte e simples, monolítico, como o Gunther. O que teria
esse jovem bandido para me atrair, já que o mundo propriamente “intelectual”
não existia dentro dele? Ele era todo instinto e combate. Um guerreiro. Um
antigo germano, um viking. Mas os guerreiros sempre foram grandes amantes
primários, irresistíveis. Eu me lembrava imediatamente de Odisseu, ou de
Aquiles, ou ainda do jovem Páris, que seduziu a mulher mais bela do mundo,
Helena, esposa do seu hospedeiro, o rei Menelau, de Esparta. Esses guerreiros
deviam ter algo irresistível às mulheres de seu tempo, e até hoje fascinam quem
lê os seus feitos. Talvez porque eram, simplesmente, homens de ação, mas no
sentido mais pleno e profundo da expressão. Assim eu via Gunther. É verdade que
Rôdo, também, sempre me deu essa impressão, e por isso mesmo a minha atração
por ele, desde menina. Eu, uma artista, sonhadora e... amorosa. Apaixonada pela
beleza, pela música, a poesia, a pintura, e a dança. Pelas crianças. Eu me
surpreendia com essa atração primitiva pelo homem de ação, pelo guerreiro, pelo
homem forte e até mesmo brutal, simplesmente porque não via vulgaridade nele.
Sim, a única coisa que me causava repulsa no ser humano, a vulgaridade, não
havia nele. Ele podia matar... os seus inimigos, ele podia roubar os ricos e
acumuladores, que nada disso diminuía a minha atração por ele. Como disse
alguém: “O que é um assalto a um Banco, comparado a um Banco?” Sim, eu sempre o
absolveria de tudo, ou quase tudo, desde que não houvesse verdadeira crueldade,
ou melhor, vulgaridade. O demônio da vulgaridade. Eu via, como exemplo de
oposição a um homem assim, justamente o meu finado cunhado, monstro bestial, o
Geraldo. Eis onde a vulgaridade o levou. Quando penso nisso, sinto-me
conspurcada e impura, só de lembrar. Sou pura, sou bela, e amo o ser humano em
sua diversidade. O meu guerreiro pode tomar-me, plantar-me um filho no ventre,
um guerreirozinho ou uma donzelinha, que estará tudo bem. Tudo certo. Quero ser
a fêmea vaporosa de um guerreiro coberto de ferro da cabeça aos pés. A armadura
de aço me fascina, só os homens fortes se revestiam delas. Os fracos se cobriam
de seda.
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Gunther entrou em minha casa e “teve” que ser
aceito por todos. Aline, Laís, Matilde, Galdério, tiveram que aceitá-lo.
Afinal, eu sou uma “rainha” de minha estância, essa é que é a verdade. Era hora
de assumir o meu papel, definitivamente. A minha vontade devia prevalecer. Era
o que se impunha, pelo encadeamento de circunstâncias, começado muito tempo
atrás, com a morte do Vati. Talvez mais atrás ainda, no velório de Frida, que
me chamara princesa, quando era ainda menina. Quanto às crianças, elas já
respeitavam o Gunther desde que eu o apresentara a elas como o meu salvador nos
momentos de grandes perigos. Elas estavam predispostas a amar o herói. Aline e
Laís não tardaram a ficar fora do quarto, ouvindo nossos gemidos de prazer.
Meus gritos de êxtase e alegria. Nunca fui tão cruel, como nesses dias. Agora
tenho medo disso... em mim. Como pude fazer isso com elas? Eu estava louca de amor,
ou desejo. Mas não me arrependo. Não se trata disso. Estou apenas perplexa com
as reviravoltas da paixão, e comigo mesma, por nunca chegar a me conhecer
verdadeiramente. Que mistérios, que vulcões existem dentro de mim! De onde vem
esse fogo volúvel, esse fogo-fátuo de desejos, alguns inconfessáveis? Mas
confessarei. Sim, tudo. Estas páginas servem para isso. Contarei coisas que uma
moça não conta nunca, pelo menos neste século, nesta virada de século. Não
tenho mais peias, nem mordaças. Contarei como depois de ser tomada “mil vezes”
pelo meu guerreiro, como que ouvindo os soluços de minhas gurias amantes atrás
da porta, afinal chamei-as para que participassem, pedindo ao Gunther que as
conclamasse para o nosso leito, que as possuísse para eu ver, e para ouvir os
seus gemidos de prazer e de dor. Eu continuava “generosa”, eu repartia meus
amores, meus dons e privilégios. Elas pareceram compreender, nos primeiros dias
e noites, embora não sem acumular ressentimentos, principalmente Aline. Ela
esperou ver-me só, no quarto, um dia, para gritar:
—Alma, sua bruxa, você é má! Olhe o que
está fazendo conosco, com todos nós! Você no fundo é depravada. Olhe, olhe o
que está acontecendo conosco! Somos animais na cama desse bruto. Ele é belo,
mas é frio, ele não ama. E você, nos ama? Não sei mais! Você nos manipula, você
sempre nos manipulou, essa é que é a verdade, até mesmo quando pede para nós a
açoitarmos! É você que comanda, e sempre por um capricho insano, que nos corrói
por dentro, você não vê? Olhe o que está acontecendo com Laís: tornou-se uma
marionete, um belo farrapo humano. E eu? E eu? Vou pelo mesmo caminho! Mas eu
tenho um filho para criar, não vou mais corroborar seus caprichos, que não
param, não cessam e tendem a se tornar mais graves. Você tem que parar. Tem que
mandar embora esse homem. Ele não é um príncipe, ou cavaleiro. Ele é só um
bandido, você não vê?
Eu fiquei estarrecida com esse desabafo de
Aline, mas depois de hesitar um segundo, protestei:
—Aline, querida, o que é isso? Como
podes dizer isso de mim? Eu sempre fui assim mesmo, e te amo, desde o
princípio. E você me amou me conhecendo, sabe que reparto, que não tenho
ciúmes, que amo o amor e o sexo, não aceito peias nem repressões. Não sou uma
burguesa, e tu, parece, às vezes, ter recaídas nesses padrões do Brás. Somos
artistas, lembra-te? Tu és um modelo nu, glorioso, de artistas, não te
esqueças. Não deixa os padrões morais pequeno-burgueses te dominarem, subirem
dentro de ti, vindos lá de trás, da família italiana, de classe média. Não fomos
felizes? Não te dei um filho, de um jeito ou de outro? Por quê te queixas?
Aline, furiosa, respondeu-me com uma bofetada. Ela interpretara como cinismo as
minhas palavras. Talvez fossem mesmo, pois eu sempre admirara o cinismo, cujo
modelo mais pleno e assumido, sem vulgaridade, eu vira sempre em meu irmão.
Botei a mão sobre o meu rosto, onde ela o esbofeteara, e permaneci calada, um
tanto chocada, por um minuto. Depois continuei:
—Aline, perdoa-me. Não me expressei bem. Mas acho
que estás sendo injusta: não tenho essa força de... manipulação. Olha dentro de
mim. Perscruta teus próprios desejos. Veja se já não estavam todos aí, desde
sempre. Nada posso, se vocês não quiserem. O prazer, o desejo, para mim são
sempre belos e sagrados. Sou feliz, apesar de tudo, de toda a dor. Esse é o meu
segredo. Quero a vida, quero tudo, quero todas as experiências do coração e dos
sentidos. Não posso parar se me ordenam. Só quando meu próprio coração o faz.
Vem, Aline, beija-me agora, e vê como sou sempre a mesma! Coloquei sua mão
sobre o meu seio, que palpitava emocionado, e ofereci-lhe meus lábios. Ela
retirou a mão e recuou, virou-se, ia sair, mas estacou paralisada. Então,
virou-se e atirou-se em meus braços, devorando-me de beijos, mordendo meus
lábios. E dizia:
—Alma, Alma, sua louca, eu a amo, eu a
amo. Sou sua. Faça o que quiser, mas não deixe de me amar, não me dê ao Gunther
sem cobrar meus beijos, ao mesmo tempo. Sim, me dê a ele, sem descolar meus
lábios dos seus! Ele é só um instrumento. Você é minha deusa. Toma-me, toma-me
agora, que estamos sós! Ela arrancou nossas roupas e atirou-se sobre mim no
leito, como nunca, numa sede desenfreada, enquanto o pequeno Marco, no quarto
ao lado, no seu berço, começou a chorar e a chamar.
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Estávamos vivendo num extremo, no limite.
Nossa libido, estimulada pela nova experiência, nos embriagava. E era
maravilhoso estarmos vivos! Gunther se instalara em meu quarto, e já não
disfarçava, andávamos pela estância inteira, cavalgávamos, os quatro, até muito
longe, nos limites das nossas terras. Banhávamo-nos no açude e no ribeirão.
Íamos até a nossa cachoeira, para brincarmos, todos nus, antes do almoço que
nos congraçava à grande mesa, com as crianças, que estavam adorando aquela fase,
embora o Gunther fosse lacônico, e sempre um tanto misterioso. Patrícia era a
única que ainda tinha uma certa reserva quanto ao Gunther, chegando a
manifestar isso, um dia:
—Tia Alma, quando o Gunther irá embora? Eu
preferia quando éramos somente nós aqui, sem ele. Por quê o tio Rôdo está
demorando? Por quê tu não o chamas, de onde ele estiver. Sentimos tanta falta
dele!
—Patrícia, querida—eu respondi—Tio Rôdo
voltará breve. Eu prometo que, quando ele voltar, Gunther terá ido embora. Mas
tu tens que saber que o meu novo amigo voltará, de tempos em tempos. Eu gosto
dele. Ele me ama, sabias? Ele nunca me fará mal, nem a nenhum de vocês. Eu te
garanto.
—Mas, tia, não é isso... é que ficas
diferente, com ele aqui. Tu pareces menos forte, e até perguntas coisas a ele,
que nem te responde. E, no entanto, ages depois como se ele te tivesse dito o
que fazer. Estás toda melosa com ele. E ele é estranho, é frio, não reage como
todas as pessoas... Não confio nele.
Fiquei olhando aquele rosto lindo,
puríssimo, acariciando a sua face, e meditando. Ela tinha uma certa razão. Eu
estava dominada por uma paixão, me tornara submissa. Gunther se instalara como
um posseiro e não tardaria a ditar as regras. Eu tinha que reagir... a mim
mesma. Mas, como fazê-lo? Pois eu ficava molinha quando ele me tocava. E
adorava ser manipulada por ele. Possuída, sim, possuída. Com força. Ai! A nossa
volúpia de abandono, de nós mulheres, nas mãos dos homens! Isso vinha de muito
longe. Eu já o estava servindo como uma escrava, gradativamente me submetendo
mais e mais. Mas devo reconhecer que o Gunther, talvez por me ter como uma
criatura sagrada, diferente de tudo o que ele vira em sua vida, me respeitava
ainda, e não abusava demais da minha submissão voluntária, fora da cama. Sim,
porque longe do nosso leito eu ainda era uma rainha, ou pelo menos uma
princesa, para ele. Ele me admirava. Mas, de noite, nas nossas noites ardentes,
ele fazia coisas incríveis comigo, que seu instinto de macho e predador lhe
ditava. Não me deterei sobre esses detalhes, embora possa fazê-lo,
eventualmente, pois vocês, meus leitores sem rosto, sabem que isso não é
problema para mim, e até gosto de fazê-lo. Sim, vou contar um pouco: Gunther
colocava-me em posições complicadas, até de cabeça para baixo, mas o seu maior
prazer era mesmo a sodomia, que me fazia imediatamente recordar as estórias do
Condestável Gottfried, de minha avó Frida. Comecei a associá-lo mais e mais
àquele personagem, e a temer engravidar... por trás! Ele me enchia do seu
esperma abundante, e eu andava cada vez com mais dificuldade, um tanto
descadeirada. O pior, é que, Aline e Laís também estavam passando pela mesma
situação. Também eram sodomisadas na minha frente, todos juntos no mesmo leito.
Aquilo tinha o valor simbólico da submissão, eu percebi, no inconsciente de
todas nós. Para Gunther representava a sua dominação natural, instintiva, de
macho. Aquilo era perigoso, pois estimulava seu instinto masculino, de
prepotência e domínio, e podia estender-se gradativamente para fora do leito, e
eu acabaria por perder completamente o governo da minha estância. Tive que
fazer um imenso esforço para reagir. Uma manhã, acordando com grandes dores no
ânus, e dirigindo-me com dificuldade até a cozinha para pedir um café da manhã
à Matilde, encontrei-a com a expressão severíssima, dizendo-me:
—Alma, guria, tu estás um trapo! Olha
para ti! O que estás fazendo contigo? É isso que consideras romântico? Mal
podes andar! Pensa que não imagino o que esse homem faz contigo? Eu conheço a
vida, conheço a nós mulheres. Tu não te envergonhas de te submeteres assim,
afinal, a um estranho? Preferia a tuas lambanças com teu irmão! Essa é a
verdade. Pelo menos estava tudo em família! Ai! A que ponto chegamos, para eu
dizer isso! Alma, tu tens que parar. Manda esse homem embora, antes que seja
tarde demais, e te transformes num farrapo, numa sombra de ti mesma. És uma
princesa, como dizia tua avó, e também o teu pai. Ou não? És uma escrava? Não
serei a escrava de uma escrava!
Fiquei ali diante dela, de cabeça baixa,
olhando-a de baixo para cima. Matilde tinha razão. Ela me amava como uma mãe
ideal, se posso dizer assim. Ela via o perigo que eu corria. O perigo que eu
era para mim mesma! Sempre via as coisas por esse lado. No fundo, ela me
conhecia como ninguém! Talvez Aline já me conhecesse assim. E Patrícia, num
nível mais inconsciente, de sensibilidade pura. Eu lhes devia, a todas elas, a
integridade da minha alma, e até do meu corpo, que corria igualmente perigo. Eu
tinha que reagir. Procurei Gunther no limite do meu jardim, e caminhamos de
mãos dadas na pradaria, muito longe, naquela manhã esplendorosa, seguidos por
pequenas borboletas amarelas que me encantavam. Paramos, eu me virei para ele,
e disse:
—Gunther, querido. Deves ir embora. Eu sinto
que é chegada a hora de partires. Tive um sonho: a casa estava cercada e
ouviam-se tiros. Eu tinha um rifle na mão, e atirava pela janela. Senti um
calor imenso no peito, botei a mão ali no meu seio e a olhei coberta de sangue.
Então, uma angústia, como uma dor imensa, me acordou. Isso é um presságio,
Gunther! Deves partir, pois o cerco está se fechando, eu o sinto. Tenho medo de
que morras, e eu contigo. Esta noite consultarei a minha macieira, queimarei as
ervas sagradas diante dela. Ela dirá o dia e a hora que deves partir, e o rumo
que deves tomar. Algum dia nos reveremos. Isso é tudo, por enquanto.
—Alma—ele respondeu com aqueles olhos azuis
sem muita expressão— Tu sabes que eu não ficaria um minuto a mais, sem que me
queiras junto a ti. És a rainha, como dizes, e eu teu cavaleiro. Eu me
acostumei com essa tua maneira de dizer as coisas. Eu te compreendo. Deves ter
razão. Eu partirei no dia e hora que anunciares, pela tua macieira.
Beijei mais uma vez os lábios do meu
cavaleiro, e tive que fazer o primeiro esforço para não me deitar ali, na
relva, entre as flores, com ele sobre mim, à vista dos peões e das colhedoras
de uvas que nos olhavam de longe, com a mão em aba sobre os olhos.
________________________________________________
A noite era de lua cheia, magnífica e estrelada.
Mas o clarão era tanto, que tive dificuldade de enxergar o Cruzeiro do Sul, e
aquelas que associamos ao Negrinho do Pastoreio. Eu colhera ervas durante o dia
todo, e com elas numa cesta, dirigi-me, acompanhada de Aline, Laís, Patrícia e
Gunther, ao pomar, e armei a trípode diante da minha macieira, a “Ara”. Comecei
a queimar as ervas olhando atentamente a coluna de fumo que subia para a lua.
Estávamos nós quatro, mulheres, vestindo túnicas finas sobre a pele. Gunther
estava como sempre, mas sem paletó, e com a cartucheira com seu revólver no
peito, com aquele seu suspensório de gangster. Ele não se desgrudava de sua
arma, e eu não pediria jamais que ele se desarmasse. Não se pede isso a um
cavaleiro, nem mesmo diante do altar. Somente diante do Graal o guerreiro deve
estar nu e desarmado. E o Graal, não o tínhamos ainda em nossa estância. Talvez
um dia eu providenciasse a transposição desse mito, para cá, para o Pampa, para
a nossa estância e meu vinhedo. Mas o Graal que eu via por aqui era a “Taça de
Dioniso”. Estávamos cercados da sua vinha; e sua taça, eu a tinha nas mãos, e
era uma cuia de chimarrão, rústica, onde coloquei um tanto da última garrafa do
nosso vinho herdado de meus avós, o “Ara dos Pampas”, e molhamos os lábios de
cada um de nós. A seguir, invoquei:
—“ Ó Ara, macieira da minha vida, diz-me,
pela luz desta Lua magnânima, o que devemos fazer! Gunther deve partir? E
quando? Diz-me o dia e a hora! Ele corre perigo? Diz-me, ó minha macieira,
dê-me um sinal!”
Todos os olhos estavam voltados para mim,
indo e voltando da macieira e da trípode, para o meu rosto. A curiosidade, eu
percebi, era a nota dominante naqueles rostos, afinal ingênuos. Mas eu estava
mesmo imbuída, e sempre acreditei na realidade da inspiração, e sentindo uma
súbita brisa que inclinou a coluna de fumo na direção do campo aberto, fechei
os olhos e disse:
—“Sim, minha Ara, eu vejo a direção, do
oriente, do levante, do sol nascente. Gunther deve partir ao nascer do sol, na
direção do próprio arrebol, às seis da manhã em ponto ele deve estar marchando,
na pradaria, esta manhã, mesmo”.
Fiz um longo silêncio, tenso, afinal relaxei
e abri os olhos. Então “desfaleci” nos braços deles. Gunther tomou-me nos
braços e carregou-me de volta para casa. Eu me sentia uma intrujona, uma
charlatã, embora o próprio Gunther sutilmente corroborasse a minha atuação. Eu
tinha vontade de sorrir, ao mesmo tempo que sentia uma dor persistente no meu
peito, uma angústia crescente, enquanto era carregada pela última vez, nos
braços do meu “guerreiro do Walhalla”.
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A
VINHA DE DIONISO
Capítulo
Segundo
A Ausência de Dioniso
Estávamos novamente sós, no casarão, isto é,
faltava-nos a proteção de Rôdo, já que o Galdério, coitado, nunca fora muito
operante. Eu me sentia só, com Aline e Laís, com todos. Eu estava insuficiente,
depois da perda do meu guerreiro. Eu o vira afastar-se, de madrugada, depois de
possuir-me quase com desespero, enchendo de seu sumo todos os meus orifícios, e
sugando-me toda, meus fluidos e minha saliva, como quem carrega seus tanques
para uma jornada de guerra. Eu quis retê-lo dentro de mim, e apertei o seu
grande falo com meus músculos internos, ordenhando-o de maneira prodigiosa e
exasperada. Ele teve que desvencilhar-se afinal, retirando-se de mim, de dentro
de mim, com esforço, ou não poderia partir. Agora eu estava novamente só,
cercada de mulheres que não me supriam mais. Eu sentia como se me sugassem a
sobra das minhas energias. A química não funcionava mais. Ou, os pólos não eram
antípodas, a corrente não fluía. Eu precisava do pólo oposto. Gunther me
viciara em seu branco visgo, em sua lança rubra de guerreiro, desculpem-me a
imagem um tanto óbvia. Mas era assim. Eu não conseguia olhar Matilde sem um
laivo de ressentimento, como se ela fosse a feitora de uma espécie de
escravidão, agora sim, eu sentia isso. Eu me sentia refém de algum dever para
com os outros, para com as pessoas que me eram caras, e não gostava de me
sentir assim, comprometida. A artista em mim ansiava por liberdade,
disponibilidade, amplidão. Comecei a dar pequenas patadas nas minhas queridas,
poupando somente as crianças, que para mim eram sagradas, Patrícia entre elas.
Aline chorava, Laís soluçava. Olhavam para mim como cachorrinhas carentes.
Aline amamentava o Marco olhando-me nos olhos, perscrutando-me. Eu estava
distante, e sem energia. Custei a dar-me conta de que estava sob uma pequena
depressão crônica. Eu não conseguia escrever ou pintar, e confesso que preferia
tentar masturbar-me, sozinha, lembrando do Gunther, a deixar-me manipular por
minhas queridas, que agora eu rejeitava. Eu ficava horas olhando a pradaria, ou
andando a esmo por entre as flores do jardim, sem colhê-las, sem tecer
guirlandas, que eu pensava nunca mais coroar-me junto com elas, as gurias, que
me pareciam escravas como eu, não mais princesas.
Epílogo
Então, Rôdo voltou. Mais uma vez, meu irmão
adorado voltou. E eu, vendo o seu carro ao longe, vermelho, como uma bola de
fogo que tornaria a aquecer a minha alma hibernada, eu me levantei da cadeira
de balanço e gritei, até desfalecer de uma alegria súbita, a que me
desacostumara. Acordei em seus braços, com o seu sorriso sobre mim, seus
brancos dentes fortes, perfeitos, em seus lábios maravilhosos, de onde saiam as
palavras mágicas, de cura, de ressurreição:
—Alminha, continuas a mesma, princesa. Sempre
exagerada, não é? Desmaias ao ver-me? Tenho que avisar-te com grande
antecedência, talvez? Ah! Minha irmãzinha, vem, vem aos meus braços!
Ele me abraçava e me apertava junto ao seu
peito, profundamente, e... eu queria afundar-me nele, penetrar no seu peito e
perder-me ali para sempre, dissolvida em sua alma e em seu coração. Éramos um
só, de alguma maneira, eu sentia. E isso sempre fora um mistério em nossa casa.
Neste casarão, neste jardim, e neste Pampa onde eu me via agora cavalgando para
sempre, com meu cabelo ruivo ao vento, ladeada por um vinhedo infinito, que
tinha, pairando sobre ele, a máscara sorridente de meu pai, o grande
cirurgião-pianista, o alquimista da vinha, o maestro que continuaria
orquestrando a harmonia de nossas vidas para sempre.
Rôdo, Aline, Laís, Patrícia, Pedrinho, Matilde,
Galdério, Alícia, Lúcia, Hans e Christian, e o nosso pequeno Marco, eram a
nossa orquestra de câmara, de um concerto que levaríamos até o fim, até a
eternidade, no meio de um vinhedo perfeito, a vinha de Dioniso, a vinha amorosa
de meu pai...
FIM
Sobre o EX LIBRIS
de Alma Welt
O Ex-libris
da Alma Welt foi feito em litografia por Guilherme de
Faria, a pedido da autora quando se conheceram. O mote latino AD AUGUSTA PER
ANGUSTA significa "Chegar a resultados magníficos por vias
estreitas." O curioso é que permite uma tradução muito legítima ao pé da
letra: "à Augusta pela angústia", sugerindo o estado de espírito da
poetisa no seu auto-exílio paulistano numa transversal bem próxima da rua
Augusta, logo após a morte do seu pai (o Vati),em sua estância no Rio Grande do
Sul.
27/08/2001
INDEX
Introduction.........................................................................
PART
ONE
THE ARA OF THE PAMPAS
CHAPTER
ONE
The
Ara of the Pampas...................................................
CHAPTER
TWO
Sapphire,
I and the Gypsie...........................................
CHAPTER
THREE
The
Constable
Gottfried...............................................................
CHAPTER
FOUR
Stories
of the
Beloved..................................................................
PART
TWO
THE VINEYARD OF DIONYSUS
CHAPTER
ONE
The
Absence of Dionysus......................................................
EPILOGUE...................................................................................
Introduction
to
the novel The Ara of the Pampas by Alma Welt
(by
Guilherme de Faria)
First
of all, I must say that I greet, enthusiastically, this third volume of the
novel-trilogy "A Herança" by the poet from Rio Grande do Sul, Alma
Welt. "A Ara dos Pampas", with this suggestive, romantic title that
intentionally echoes the old rural sagas, the lyrical author who, when writing
prose, manages to be as direct and almost colloquial as in her poetry, with a
symbolist background and charged with the powerful charge of libido that is
peculiar to her, that is, full of an enchanting eroticism without malice. Why
"without malice"? Because Alma Welt rightly considers that malice is
the daughter of hypocrisy and sexual repression, spurious attributes that she
does not contain in her clear, limpid soul, despite a small and disturbing zone
of mystery, which gives her an "exquisite" flavor. Alma exposes
herself in a remarkable way, courageous for a woman. She "confesses"
everything. With explicitness that is at the same time aesthetic, that is, she
manages to hide nothing, and still remain enchanting, hypnotic. Perhaps the
stripped-down beauty of her musical language is responsible for this
phenomenon. She never vulgarizes sex, and when she uses vulgar language, we
notice that it is practically in quotation marks, that is, in the mouths of her
enemies and oppressors. Yes, because this beautiful creature is victimized
throughout her narrative by envious or covetous adversaries of her tempting beauty.
François de La Rochefoulcauld: “Hypocrisy is the homage that vice pays to
virtue.” In the case of Alma, her enemies, hypocrites at first, take off their
masks, exasperated by the unconscious provocation that the beauty and
sensuality of this pure and “candid” woman, although intelligent, exerts on the
people who live with her. I have never read erotic pages more legitimate,
beautiful and original than those in this book. The scene of “Aline’s
impregnation,” which takes on a ritualistic character, is one of the most
notable examples of the author’s ability. Alma Welt still manages to be
original without using language artifices in the description of explicit sex
scenes. It must be said that if I am emphasizing this connotation in Alma's
book as well as in almost all of his works, it is because I share his
“profession of faith”, set out in his “definitive declaration” to his readers:
“I solemnly declare that I do not believe in the dichotomy of body and
spirit...” And further on: “Sex is spirit...” Finally, it is worth highlighting
here the exquisite, rounded construction of his novels, of which this is the
linear continuation of the first, “The Inheritance”. Naturally, it would be
preferable for the reader to have read the first novel, since this second one
corresponds to a third part of a saga in the form of a trilogy, in volumes
entitled as follows: The Inheritance: The Blood of the Earth, The Ara dos
Pampas, The Vineyard of Dionysus. Would the Welt saga be concluded at the end
of this last volume, in their large house on a gaucho ranch amidst a flowery
garden and their grandparents' vineyard? Let us hope not. Alma Welt will
continue forever riding through the prairies or strolling among the flowers of
her mother's garden or in her orchard sacrificing to the gods and the
"gods of the pampas" before her beloved apple tree: "the ara of
the pampas", or swimming in the stream, naked, among her friends and
lovers Laís and Aline, and with Rôdo, her wonderfully incestuous brother.
Guiltless, vital and joyful forever, this living Anima, who appeared in our
literature to populate our imagination with renewed signs of simple and lyrical
beauty. Alma, take me with you to your next novel!
GUILHERME
DE FARIA São Paulo, July 13, 2005

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